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A Ditadura das Sondagens

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O exercício do voto deve representar uma convicção num ideal ou sistema de funcionamento da sociedade, num modo de pensar a função do Estado, de determinar quais são os direitos e deveres de um cidadão, e de que tipo de soberania e de fronteiras uma população crê como sendo a sua referência.

No entanto, um exercício pessoal, intransmissível e crítico como o voto tem sido altamente perturbado pela sequência semanal de sondagens. A sondagem por revelar, por amostragem, a eventual tendência de votos da massa, pode e está a retirar a essência pessoal, intransmissível e crítica desse ato, constituindo aquilo a que denomino de ditadura do voto útil.

O voto útil deturpa e mina totalmente a ideia de pensar o Estado, de reformar instituições, de estabelecer novos acordos e metas, pois apresenta-se como um voto contra uma tendência, um voto na ou contra a polarização, e não como um voto em prol de uma ideia. O voto útil representa a substituição quer da ideia da pessoa pela ideia de um conjunto, quer da sua convicção em função de um eventual medo. Votar útil não é escolher, mas antes ficar em cima do muro, e portanto desvirtuar a construção de uma sociedade liberal, onde o conservadorismo de polo é mais importante que a crítica.

Assim explico, o modo como António José Seguro conseguiu os seus 31,12% de votos na 1ª volta das presidenciais, muitos pelo grande mérito da campanha que teve, mas uma quantidade também significativa por esse poder que é o voto útil. De outra maneira, como explicar que um candidato que, apenas em 5 das 17 sondagens feitas nesse período, conseguiu ter mais de 20% das intenções de voto, nas quais obteve somente o máximo de 25,1% na sondagem de 16/01 da Pitagórica, e que em ferramentas de medição do peso de sondagens como a do jornal Observador – o Radar das Sondagens – se estimaria pelos 22,77%, conseguir na urna os mais de 30%?

A forma como as sondagens sistematicamente davam peso a André Ventura, com 10 em 17 delas a dar-lhe mais de 20% da proporção de votos, bem como as quebra do Almirante Gouveia e Melo e de Luís Marques Mendes desde, respetivamente, 18/12 e de 22/12, abaixo dos 20% das intenções, podem ter criado na mente do cidadão indeciso a necessidade de voto útil, o que juntando, à crença do suposto votante de esquerda em desviar os seus votos de LIVRE, Bloco e PC (que na análise da Intercampus de 18/12 chegaram até a ter 16,5% de votos, quando na verdade se ficaram gritantemente por 4,38%), a favor de Seguro, podem ser as pedras fundadoras de uma votação que valeu mais de 10% do que o socialista realmente valeria.

Isto é, muito do voto em Seguro, não foi ideológico mas reativo, vindo quer da AD, quer dos partidos ditos de esquerda, assim como também reativo é o voto em Ventura e tal pode ser revelador de decadência democrática em Portugal, sobretudo quando existem, de facto, candidaturas ideológicas alternativas como foi a de João Cotrim de Figueiredo.

Como balanço, essa análise faz-me pensar que, por mais simpatia que possa ter com o personagem que foi líder da Oposição num dos momentos mais difíceis em Portugal, e que inclusivamente foi uma força crítica no PS, possa também ele mesmo ser o exemplo de que o exercício de sondagens, hoje em dia, mais do que informar, é ele próprio uma forte força de influência para o exercício democrático, e que por conseguinte, isso nos devia fazer refletir mais individualmente sobre a responsabilidade do nosso voto, isso, se porventura, não quisermos ser peões da massa.

Autor: Pedro Miguel Santos

Pedro Miguel Santos
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