Os portugueses estão cada vez mais ligados a cargos de decisão nos países onde emigraram, como é o caso de Teresa da Silva Marcos. Natural de Abrantes, foi novamente eleita para o município de Velsen, nos Países Baixos, pelo partido D66, reforçando o seu papel na política local neerlandesa. Com um percurso político já consolidado, Teresa exerce atualmente é Deputada Municipal, cargo que desempenha desde 2022, tendo já ocupado anteriormente funções semelhantes entre 2014 e 2018.
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No passado dia 1 de abril, teve lugar a cerimónia oficial de tomada de posse (juramento) do novo executivo municipal, marcando mais um momento importante na trajetória política e na representação da comunidade portuguesa nos Países Baixos, um exemplo claro de participação cívica e integração ativa.
Teresa Marcos presentou-se aos leitores do jornal Comunidades Lusófonas falando sobre o seu percurso pessoal, profissional e o que a levou emigrar para os Países Baixos.
Nasceu em Abrantes, onde ainda tem família mas desde os 4 anos que vivia em Lisboa. Mais tarde mudaram-se para o Cacém onde os pais mandaram construir uma casa. Até aos 22 anos foi essa a casa que conheceu e o lugar em que cresceu. É a primeira nascida, de cinco filhos.

Estudou primeiro no ISCSP (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas) seguindo o curso de Política Social. Mais tarde ingressou no IADE onde estudou Design Industrial. Nunca tencionou emigrar mas como disse Luís Vaz de Camões no seu poema “Sempre a razão foi vencida pelo amor” e foi isso que lhe aconteceu quando conheceu um neerlandês e com quem partilha hoje a vida. Enquanto o seu marido estudava na TU em Eindhoven, Teresa continuou os estudos em Design em Breda, na academia Sint Joost.

Vive na Holanda, nos Países Baixos desde 1985, em diferentes períodos de tempo. Nessa altura aprendeu neerlandês. Entretanto com dois filhos pequenos a vida itinerante chegou ao fim com a mudança definitiva de Portugal em 1999. A principio o ajustamento foi complicado, a vida familiar, o cuidado pelos filhos sem apoios da família “recaiu completamente em mim”, revela Teresa Marcos, mas pouco a pouco e pouco encontraram e conquistaram o seu lugar, reataram amizades e fizeram novas.
“Foi aqui que nasceu a nossa Benjamim. Acabada de chegar as Países Baixos, tentei contactar com a comunidade portuguesa neste país mas, tal como os ingredientes para confecionar alguns pratos típicos portugueses não sabiam ao mesmo, por certo pela falta de sol, o contacto com portugueses aumentava a dor da distância e as saudades sentidas não me ajudavam a superar a falta que sentia da vida que tinha deixado para trás.” Revela.
Mergulhou na comunidade em que vivia e pôs as saudades de lado reservando o contacto com outros portugueses só para as visitas de férias.
Junto ao seu trabalho de designer (free lance) começou também a dar aulas de português a adultos. Até começou a escrever para um jornal local e foi durante alguns anos coordenadora da biblioteca da escola dos seus filhos.
Esta variedade no seu trabalho e a flexibilidade em termos de tempo “combinavam perfeitamente comigo e com a vida da minha família. Em suma: tornei-me a mulher dos sete ofícios.”
Desafios e o envolvimento cívico e político
Com os filhos na escola básica e algum trabalho voluntário nessa mesma escola, interessou-se pela maneira como as escolas, naquele país funciona. E quis que a sua voz fosse ouvida. Candidatou-se ao conselho de pais em que, após votação, ingressou.
Quando a filha mais nova entrou para o sexto ano e os outros dois já estavam na escola secundária (a escola primária nos Países Baixos é frequentada até aos 12 anos) e com uma família mais independe de Teresa, decidiu fazer um curso, promovido e oferecido pelo município, sobre a política nos Países Baixos. (Atualmente é Teresa Marcos que leciona esse mesmo curso…)
Escolheu um partido, candidatou-se ao conselho municipal e, para grande espanto entrou no conselho municipal em 2014.
Motivo para entrar na política local
Curiosamente, Teresa nasceu na mesma rua, a poucos metros da casa em que nasceu a primeira (e até agora única) mulher que foi primeiro-ministro em Portugal. Ouvia falar dela com o orgulho, que apenas os habitantes de uma cidade podem sentir por uma conterrânea.
Aliado a este facto também viveu de perto a revolução de Abril, fez-lhe visualizar que a politica não é um mero “jogo”, mas sim uma grande influência para a nossa vida diária.
Não é pessoa para criticar tudo e todos sem, de algum modo, querer ou pelo menos tentar participar na mudança. É fácil criticar na margem, mas pensa que para mudar algo, criticar não chega; é preciso fazê-lo ativamente.
Sendo originária de um outro país, com este passado e muita vontade de dar voz a esta diferença foi apenas uma questão de tempo.
As suas principais responsabilidades e prioridades enquanto deputada municipal nos últimos quatro anos ocupa-se com vários dossieres: “Arte e Cultura”, “Digitalização”, “Geopolítica e assuntos europeus” bem como “Assuntos da administração interna”.
Neste trabalho construir e manter uma vasta rede de contactos é muito importante. Há um ditado neerlandês que o ilustra bem: “sozinho vai-se mais depressa mas juntos chegamos mais longe”!
Um exemplo do qual tem muito orgulho, é o facto de que, após anos sem um poeta da cidade, em Velsen, “temos agora um Coletivo de Poetas bastante requisitado para frequentes eventos.” Revela.
Um dos temas que agora mais se ocupa é a participação na comunidade, tanto no ensino como no mercado de trabalho, de pessoas neurodivergentes. Há que criar possibilidades para estas pessoas de modo a que também elas tenham um lugar na comunidade em vez de viverem vidas separadas. Sendo necessário vão reformar o mundo do ensino e do trabalho, de tal modo que haja, não só em teoria mas real e factual, um lugar adequado para cada um de nós.
A importância da participação política para os portugueses emigrados, a partir do momento em que chegam a um país, para viver, trabalhar, educar os os filhos, há que participar. “Nós não estamos de visita, este é também o nosso país. Viver à margem, mesmo com a ideia de um dia voltar a Portugal não é, não pode ser, opção: a vida acontece agora e não no futuro. Vive-a já, hoje mesmo!” Sustenta Teresa.
A política é um fator que determina em muitos aspetos na nossa vida, sobretudo ao nível local sente-se isto em primeira mão: começando pelo local em que o parque infantil vai ser construído, escolhas sobre haver ou não um teatro ou uma piscina na nossa aldeia ou o tipo de iluminação na via pública até aos espaços verdes existentes. Quantas casa vão ser construídas? Onde e para que tipo de pessoas? Jovens? Idosos? Uma combinação de ambos? Sobretudo estes aspetos são decididos a nível local, pelo conselho municipal. É esta a importância da participação política (e ativa)!
Mensagem à diáspora portuguesa sobre a importância do envolvimento cívico e da representação política nos países de acolhimento, numa Europa que fala de cidadania europeia como conceito de união?
Para Teresa Marcos, independentemente do motivo para a nossa saída de Portugal, a cidadania europeia é aquela que nos possibilita emigrar, estudar ou trabalhar, para descobrir o mundo mesmo fora da Europa. A participação ativa na política não é por certo, para todos, mas informar-se, votar quando se realizam eleições e manter-se a par do que se passa no nosso município é um bom primeiro passo. “ Se me permitem um conselho: aprendam a língua do país em que habitam. A língua que um povo usa diariamente não é apenas um meio de comunicação, numa língua está inserida a chave para a cultura do povo que a fala e para a compreensão desse mesmo povo.” Finaliza a Deputada Municipal.
Marisa Monteiro Borsboom, correspondente no BENELUX




