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Sábado - 2 Março 2024

A vida de um funcionário das Nações Unidas em Missão: nem tudo são rosas

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A conimbricense, Laura Melo, estudou em Coimbra tendo-se licenciado em psicologia na Universidade daquela cidade. Fez um intercâmbio cultural enquanto estudante, na AFS (American Field Service), “um programa para promover a paz, – a seguir à segunda Guerra Mundial, e que era baseado na ideia de que as pessoas conhecendo-se mais profundamente e tendo um conhecimento da cultura da população, doutro país, tinham menos disponibilidade em ir atacar outro país.” Trabalhou em muitos países a saber: em Londres, no Quénia, Roma, na Sede, em Laos, Cuba, Guatemala, Venezuela, Angola, mais ou menos 10 países diferentes, e pelos vistos, não termina por aqui.

“Era essa a ideia, e hoje ainda existe”. São jovens com idades compreendidas entre os 16 e 18 anos, que vão para outro país vivem com uma família durante um ano, e frequentam a escola desse país. “Eu participei neste programa, e estive um ano na Holanda, vivi com uma família Holandesa e estudei numa escola dos países baixos. Isto aconteceu entre o meu 12º e a Universidade.”

Foi a sua primeira experiência no estrangeiro, e que lhe deixou com vontade de continuar.

Depois da Universidade, ficou por Portugal uns meses, mas depois decidiu ir para Inglaterra, onde trabalhou lá uns meses. Fez um mestrado na London School of Economics, um mestrado em Psicologia Social. Entretanto, e por circunstância começou a trabalhar na BBC. No serviço português daquela Estação de Comunicação. Ficou na BBC dez anos, primeiro nos serviços em Português, para África, em Português e depois na área de Inglês, como jornalista.

Nesse período trabalhava muito com as Nações Unidas, porque trabalhava muito para África. Durante esse período as Nações Unidas tinham uma grande operação em Moçambique, em Angola, em vários países Africanos, e ao ter esse contacto, também lhe foi despertando um pouco em fazer outras coisas e de outra maneira. Como jornalista “o nosso trabalho é contar as histórias dos outros”, e começou a despertar esse interesse em participar dessas histórias. Foi então nessa altura que pensou que seria interessante participar na história do outro lado, e começou à procura de oportunidades e “fui para a Angola, para o Alto Comissariado dos Refugiados”.

Em 1997, na altura em que se tinha assinado o primeiro processo de paz para a Angola onde havia uma grande expectativa e um grande otimismo, para a paz em Angola, havendo um grande número de Angolanos que viviam nos países vizinhos, na Zâmbia na Namíbia, esperava-se um retorno grande,mas infelizmente as coisas começaram a deteriorar-se, e recomeçou o conflito.

Nessa altura trabalhou na Missão de Paz, porque como não houve o repatriamento do refugiado, o programa reduziu. Regressou então à Missão de Paz em Angola, e posteriormente à ACNUR. A situação em Angola deteriorou-se e regressou a Londres. Esteve lá mais dois ou três anos, e depois concorreu para o a WFP, Programa Mundial Alimentar e conseguiu o cargo.

Nessa altura tinha uma bebé de quatro meses, e começou a trabalhar para o “World Food Programme”, Programa Alimentar Mundial, no setor de Comunicação, em Nairobi, no Quénia, a partir daí a carreira foi-se desenvolvendo dentro do WFP, começando em 2001 onde permanece até hoje.

“A experiência tem sido muito boa”, partilha Laura, é “um trabalho muito enriquecedor do ponto de vista do objetivo do trabalho em si mesmo”. O propósito, para o qual trabalha é muito enriquecedor, por vezes, também há momentos muito difíceis, porque “nos confrontamos com situações muito difíceis no mundo”. Trabalha com pessoas muito vulneráveis, em situação de pobreza e escassez alimentar, “são situações muito difíceis de gerir, mas também, tem experiências muito acalentadoras, muito encorajantes, do ponto de vista do que as pessoas conseguem alcançar e fazer, apesar das dificuldades que enfrentam.”

Ao mesmo tempo, “sente o grande privilégio de poder contribuir, de alguma forma, criar um mundo melhor, para algumas pessoas e contribuir de alguma forma, também, à paz no mundo”. Em 2020 o WFP recebeu o prémio Nobel da Paz, como Organização, mas como membros dessa Organização “sentimo-nos todos “a por uma migalhinha” contribuindo à paz no Mundo. Foi algo que foi muito enriquecedor para todos, temos uma missão muito clara, muito definida, e uma missão que nos encoraja a avançar, com muitas dificuldades porque o número de pessoas com fome no mundo, continua a ser muito grande.”

O número de pessoas que conseguem chegar continua a ser muito menor do que aquelas que necessitam, e lamentavelmente, esses números continuam a aumentar. Cada vez mais, quando vêm quais são as causas da fome do mundo, destacando-se as alterações climáticas, conflitos armados, a situações estruturais de gestão, são fatores que estão muito comprometidos e afetados. Mas ao mesmo tempo é um privilégio poder por razões “do meu trabalho, poder contribuir para pessoas em tantos países diferentes.”

Ao longo destes anos, desde 2001, tenho trabalhado nestes países e tenho conhecido em profundidade, “ter acesso a um conhecimento da realidade e de um contexto de cada um desses países que é muito diferente da de um turista”, de um viajante normal. “Esse aspeto tem sido muito enriquecedor, ainda que por vezes tenhamos que conhecer o lado mais difícil desses países, porque são as pessoas mais vulneráveis, que enfrentam grandes dificuldades para alimentar os filhos, que enfrentam problemas nutricionais, pobreza. Mas conhecer países com diferentes culturas é um privilégio.”

Têm um escritório e uma operação na Venezuela, “eu estou há quase dois anos, em fevereiro vai fazer dois anos, é um escritório, bastante novo, até 2021 não tínhamos presença na Venezuela, e foi em 2021 que se estabeleceu essa presença, por situação de crise que vivia o país”, e houve uma negociação para se começar a dar assistência, desde 2021, em julho desse ano começou a operação, e “eu fui para lá em fevereiro de 2023”.

Têm estado a desenvolver o trabalho na Venezuela. A permanência em missão tem a duração mais ou menos de três, quatro anos. Dependendo dos países e das circunstâncias dos países. Se são países muito difíceis, tipo Afeganistão, Somália, onde se encontram outros colegas em Missão, são dois anos, “no meu caso são três”, há outros países que são quatro, depende das circunstâncias específicas. Mais um ano fica na Venezuela, mas pode estender mais um ano. Esse é o modelo de rotação que temos de país em país. “E é por isso também que ao longo destes anos, tenho trabalhado em vários países.”


“Sou Diretora de País, Diretora do Programa Mundial Alimentar para a Venezuela”. É difícil dizer qual foi o país que a impressionou mais, porque cada país tem coisas incríveis, positivas e negativas. O que sempre mais a impressiona é a capacidade e a força humana, mas as coisas que mais aflige são pessoas que foram vítimas de conflito armado. Há muito tempo “lembro-me de um miúdo que teria dez onze anos a quem, num ataque que houve na aldeia dele, no meio do nada, em Angola amputaram-lhe os dois braços. Ou de ver vítimas de minas anti-pessoais, que ficam com pernas amputadas, etc.”

Também tem na memória uma mulher no Sul do Sudão, a contar que tinha perdido todos os filhos na guerra, ela contava essa história com um distanciamento, como se estivesse a relatar a vida de outrem.

Quando o sofrimento chega a esse nível, as pessoas têm uma fórmula qualquer de se distanciar da sua própria memória.

Casos como este são os que mais impressiona, os casos de conflito. É onde há um maior impacto humano, mas nesses lugares também há casos de superação, que contra ventos e marés, conseguem alimentar os seus filhos, conseguem fazer verdadeiros milagres, isso também é algo que é impressionante, e inspirador, de ver essa força e essa capacidade humana, e em muitos casos são as mulheres, que mais lhe toca. Porque sempre arranjam uma maneira de alimentar os filhos, encontram o seu pequeno negócio, de trabalharem na casa, de trabalharem no que seja, para enfrentarem as necessidades da família. Isso é algo que é muito inspirador.

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