Luzes, câmaras, ação: Christophe Fonseca, é fruto, como na sua maioria de portugueses que foram para França na década de 60/70, do século passado. As promessas do “El Dorado” francês muitas vezes ficaram desfocadas da realidade, e o que os esperava eram 14 horas de trabalho, e uns enredos de algumas desigualdades salariais. Christophe nunca foi um privilegiado, mas a sua personalidade foi sempre ser persistente e muita vontade de vencer. A vida era muito dura à época. Os alojamentos não eram dados a grandes luxos, as casas feitas de lata, que não conseguiam afastar as longas noites frias parisienses e o calor escaldante do verão. Viviam nos arredores de Paris. O bairro de lata, que ainda é tabu para muitas famílias, nunca foi contada aos filhos ou netos – porque a vida precisava de continuar e não olhar para trás …

Também Christophe Fonseca passou por lá e “ousava” sonhar ser um grande realizador. Porém – havia sempre alguém que o chamava à terra e lhe dizia: “Se vives nesse meio, é impossível conseguires”. Mas na cabeça de Christophe, as severas palavras jamais se apresentaram como uma barreira.
Viveu toda a sua vida em França, mas vinha e vem muitas vezes a Portugal passar temporadas na terra dos pais. O pai era de Leiria e a mãe de Ourém. Traz na bagagem e na memória as lembranças da liberdade que sentia cada vez que estava junto e envolvido na natureza.
Existiam aldeias ainda sem água potável e eletricidade. Mas para Christophe jamais foi um problema. Via a adversidade como uma fonte de inspiração para o futuro. Cresceu entre as duas culturas, duas línguas, e duas formas de sentir o mundo. Para ele é difícil escolher entre França e Portugal. É como escolher entre o pai e a mãe. “Sou feito das duas culturas e como cresci em França recebi uma formação escolar francesa, bem como um percurso artístico, de abertura ao mundo.”

Portugal ofereceu o lado das raízes, da memória. A emoção e sensibilidade que conheceu em família, é uma espécie de diálogo entre os dois países e quanto mais passa o tempo, mais precisa dos dois mundos.
O seu percurso académico foi sobretudo artístico. Começou muito cedo em França: frequentou o Conservatório de Belas-Artes e depois seguiu para o Conservatório de Música. Conheceu a sorte, que na cidade, onde viva, existia uma escola especializada em arte. Uma escola onde cresceu no meio de dança, teatro, fotografia, até que o cinema se impôs com maior evidência, porque era um lugar onde podiam coexistir todas mencionadas vertentes.
Frequentou Nanterre, Paris 12 e Jussieu, Paris 7. Estudou cinema e jornalismo. Acontece, que não terminou o mestrado porque enquanto estudava também trabalhava, e criou uma associação de cinema, onde na altura gravavam em película, e depois revelavam os filmes. Não é mestre em cinema, porque preferiu continuar a realizar os seus filmes.
Os momentos de Portugal
Portugal para Christophe era uma espécie de contraste, dado que eram provenientes de uma aldeia.
Passar da cidade para a vida da aldeia, nos anos 80/90, era viver outros setores diferentes ou até mesmo opostos. Mundos muito próximos da natureza, da agricultura, e forte ligação à terra, o que lhe fazia muito bem. Quando chegava a Portugal, adorava os sentimentos de liberdade e correr nos campos, porque transmitia a sensação de quase conseguir voar. Uma liberdade que não conhece seus limites.
As peças do projeto
Com o seu novo filme quase a terminar as filmagens, vai dar a conhecer a Portugal e não só, como é a realidade da emigração. Quer deixar bem vivas as palavras sábias de vozes, cujo objetivo é viver e recordar.
“O que é que me levou a este projeto?”
“É um projeto muito pessoal, porque sonhei quando era adolescente conseguia realizar um sonho e um diálogo comigo próprio, mas adolescente. Sonho finalmente que se transformou em realidade. É um filme muito pessoal, chama-se: “Além do Silêncio”, revela o realizador.
A história da emigração portuguesa nos anos 60/70 é sobretudo de um lugar onde na altura em França chegaram muitos portugueses. Os tristes “Bidonvilles”, como por exemplo o de Champigny-sur-Marne. No seu auge chegou a albergar mais de 15 mil pessoas. Era sobretudo uma plataforma gigante, onde chegavam a maior parte dos portugueses.
Uma parte da sua família viveu no bairro da lata. Era muito importante falar da personalizada história. O escolhido título “Além do silêncio”, apresenta seu fundamento com o facto, que foi precisamente o que muitos portugueses fizeram: não falar sobre essa época. Era o grande “segredo” que mantinham bem guardado. Talvez em Portugal fosse mais fácil falar, mas em França para a maior parte das pessoas destas últimas gerações é pouco conhecido.
Nos arredores de Paris
Tudo o que as pessoas passaram, querem deixar no passado, mas Christophe é muito determinado, e dedicou-se durante muitos anos ao seu projeto. Deixou sempre ao critério das pessoas falarem de livre e espontânea vontade, nunca as forçou.
Mas o tempo não para, e num determinado momento as pessoas deixaram de hesitar de falar sobre os bidonvilles. Uma faceta da história, que sublinha, como é importante não deixar cair no esquecimento da humanidade e assim dar continuidade à séria recordação de quem ia a “salto” para França. Christophe quis resgatar as que ainda estão vivas para partilharem conhecimentos, antes que a restante chamazinha de outrora se dissolva. Uma espécie de urgência.
A fim de criar um filme como um histórico testemunho, Christophe fez mais de 60 entrevistas. A meta é o desejo de resguardar o passado para futuras gerações, conhecerem o seu passado. Muitas vezes diziam, “eu nunca contei esta história aos meus próprios filhos. E acho que era preciso um documentário, um filme para facilitar a comunicação.” Salienta o Realizador.
Como é visto atualmente a emigração portuguesa em França?
“O mundo está a assistir a uma grande transformação. Verifica-se cada vez menos tolerância entre as pessoas e muitos dos costumes e boa educação perderam-se no caminho das histórias pessoais. E a emigração portuguesa em França, para ser sincero, está inserida na nova época. Porém – uma era onde se vê, como cada vez mais, não somente na Europa, mas sim no Mundo, as pessoas recolhem-se em si próprias,” descreve o Realizador.
Os partidos nacionalistas criam muitas incerteza e retração. Sente-se um movimento de epílogo, medo. No entanto, em França a Comunidade portuguesa, é uma das comunidades que não perde a esperança de lutar e superar barreiras, a fim de superarem os problemas e contras da Vida.
Contam-se cada vez mais portugueses que são proprietários e venceram na vida. Não esperavam, que conseguissem vencer também em terras estrangeiras. Possivelmente o motivo, porque hoje seja mais fácil falarem sobre a emocionada zona. Pois é um grande orgulho dizer que conseguiram passar do bairro da lata para casas muito boas e com negócios a florescer, a trabalharem em grandes empresas e a ocuparem lugares de destaque.
Qual é a Mensagem que pretende transmitir com este filme?
“Neste momento penso muito nas jovens gerações. Gostava que este filme desse vontade à jovem geração de irem interrogar os pais ou aos avós. De acreditarem em si. Sou filho de emigrantes em França, que viveram no bairro da lata. Quando era criança sonhava ser realizador. Era um sonho que parecia impossível. E olhando para trás e ver o meu percurso, todos os filmes que realizei, que produzi, que foram vistos por milhões de pessoas em mais de 120 países, cheguei ao “El Dorado”. Foram exibidos no Louvre e no Moma de Nova Iorque. Afinal, tudo é possível.” Diz com orgulho o lusodescendente.
“Eu era uma criança muito tímida, filho de imigrantes e cada vez que me fechavam uma porta, pensava nos meus pais, no sacrifício que fizeram, e eu vou desistir quando me fecham a porta? Nem pensar! A minha mensagem é simples, dirigida aos jovens: não permitam que os diminuam, e quando uma porta se fecha, não é uma sentença, é um teste. Persistir, trabalhar com verdade, aprender com humildade, continuar a caminhar, mesmo quando o caminho parece improvável e sonhem alto. E finalmente tudo pode acontecer!”
The End




