No menu items!
13 C
Vila Nova de Gaia
Terça-feira - 13 Janeiro 2026

EXCLUSIVO: Ana Bailão: “Comecei na política um pouco por acaso!”

Destaques

Ex-vice-presidente da Câmara Municipal de Toronto, Ana Bailão conta ao Jornal Comunidades Lusófonas como entrou em política, os desafios que enfrentou e a importância da comunidade lusófona naquela cidade.

Se a Ana Bailão já faz política há mais de uma década na cidade de Toronto, ela nunca tinha imaginado que isso ia ser o seu caminho ao chegar ao Canadá em 1991. Quando tinha apenas 15 anos, ela deixou a vila de Alenquer de onde ela vem, os seus avós e amigos para imigrar para Toronto com os pais. “Não é uma idade muito fácil para mudar de país, deixar a escola e os amigos. Também cresci muito próxima dos meus avós e foi difícil deixá-los. Não sabia bem o inglês portanto tive que aprender a língua na escola. Foi uma situação bastante difícil para mim”, relembra a Ana Bailão.

Mas aos poucos, ela adaptou-se à nova situação e foi, em parte, graças à comunidade lusófona de Toronto que ela aprendeu a gostar da cidade. Quando ela começou os estudos em sociologia e estudos Europeus na Universidade de Toronto, envolveu-se cada vez mais na comunidade nomeadamente através das associações de estudantes e nas organizações da comunidade. Por exemplo, ela fez parte do grupo de 17 jovens que criaram a primeira tuna portuguesa da América do Norte, a LusoCanTuna (ler artigo do 8 de Outubro 2024: https://jornalcomunidades.pt/exclusivo-a-unica-tuna-portuguesa-da-america-do-norte-e-de-toronto/ ).

Assim fazer parte de várias associações e criar uma tuna, foi uma maneira para ela de se adaptar ao Canadá e de fazer uma ligação entre a cultura portuguesa que tinha deixado para trás e o novo país no qual estava a viver. Para a Ana Bailão, era também uma forma de ajudar os outros a sentirem-se “em casa” e terem o sentido de que há oportunidades por todo lado em Toronto. E essa crença nas oportunidades e na capacidade dos luso-canadianos a realizar feitos importantes para a comunidade e eles próprios, foi o que puxou a Ana a entrar em política.

E quando estava na Universidade, um vereador na altura, o Mário Silva, pediu-me para ir trabalhar com ele para fazer alguns projetos. Eu não sabia bem se tinha de aceitar ou não porque o meu objetivo principal era acabar os meus estudos o mais rapidamente possível. Além disso, muitos dos meus cursos eram à noite. Portanto perguntei se era possível conciliar o trabalho com os meus horários e foi assim que comecei”, explica.

Consequentemente, o que começou como um trabalho a tempo parcial sobre alguns projetos, tornou-se ao fim de cinco anos em trabalho a tempo inteiro. “Não foi tanto o gosto pela política mas mais o trabalho que estava a fazer dentro do escritório com o vereador, com a comunidade e ver o impacto que eu podia ter na vida dos outros que fez com que eu quisesse continuar”, adiciona. A Ana Bailão encontrou na política uma maneira de impactar a vida das pessoas, de ser a representante e a voz de movimentos e de organizar a comunidade.

Em 2003, ela concorreu pela primeira vez para substituir o vereador Mário Silva que ia concorrer para o nível federal mas não foi sucedida. Nessas eleições, perdeu por mil votos e portanto foi trabalhar alguns anos no setor privado. Mas em 2010, a Ana quis voltar para a política e foi eleita pela primeira vez como vereadora em Toronto. “Tinha ficado com o bichinho. Era um trabalho de que gostava muito e tinha ficado envolvida na comunidade, nas organizações e na cidade mesmo ao trabalhar no setor privado”, explica.

Durante 12 anos, a Ana Bailão trabalhou para a Câmara Municipal de Toronto onde esteve em várias comissões e, em 2017, o Presidente da Câmara nomeou-a como Vice-Presidente e como Presidente da Comissão de Habitação e Planeamento Urbano. Para ela, a questão da habitação e do planeamento urbano é bastante complexa em Toronto porque é uma cidade que está a crescer. E de fato, Toronto é a cidade que tem o maior crescimento na América do Norte. “Todo este crescimento trás alguns desafios nomeadamente o preço das casas de arrendamento como as de compra para as pessoas de aqui. Embora não seja um assunto que só a Câmara Municipal pode resolver, este é um assunto a todos os níveis do governo, o presidente naquela altura queria ter mais ação nesta área. O meu trabalho envolvia política mas também representação de vários grupos e negociações com outros níveis do governo”, clarifica.

Ao fim do seu terceiro mandato, a Ana Bailão decidiu que não queria concorrer novamente e portanto que ia sair da Câmara em Setembro de 2022. Porém, o presidente demitiu-se em Fevereiro de 2023: “algo que ninguém esperava” segundo a Ana. E foi assim que ela encontrou-se mais uma vez na política, mas desta vez como candidata para a presidência da Câmara de Toronto. Por fim, chegou em segundo lugar atrás da atual presidente de Toronto, a Olivia Chow.

“Foram uns resultados muito bons, visto que havia tantos candidatos e que muitos deles tinham acreditações e eram conhecidos na cidade. O fato de eu ter chegado ao segundo lugar com 30 000 votos a menos, ou seja ter sido só uns pontos percentuais abaixo da Olivia Chow, é realmente de estar orgulhosa do que a campanha fez! Claro que o objetivo era de ganhar, sabíamos que tínhamos tudo para ganhar. Mas foi uma eleição difícil devido à rapidez da eleição e ao fato de haver tantas pessoas a concorrer, o que dividiu muito o voto especialmente o voto do centro”, esclarece a Ana Bailão.

Agora, de volta ao setor privado, ela sente-se satisfeita do seu percurso político e do seu trabalho atual. “Estou a trabalhar numa empresa que constrói habitações acessíveis no Canadá inteiro. É um trabalho recompensador emocionalmente porque vejo que as políticas sobre as quais trabalhei durante tanto tempo têm resultados concretos na construção dessas habitações e as pessoas têm acesso às habitações com preços mais acessíveis”, conta com um sorriso nos lábios.

Mas será que vai voltar à política? Segundo a Ana, as pessoas fazem essa pergunta muitas vezes e ela responde sempre que “há uma grande probabilidade que isso aconteça” mesmo se ela sente-se satisfeita no setor privado. E essa vontade não vem da posição, nem do jogo político em si, mas vem da sua vontade em querer resolver os problemas. “Sei que tenho a capacidade de puxar pelas pessoas (porque ninguém consegue fazer essas coisas sozinhas) e juntá-las para resolver esses problemas”, adiciona.

Além disso, ela sabe que tem o apoio da comunidade lusófona. Pois quando aconteceram as eleições de 2023, ela sentiu que a comunidade estava muito entusiasmada e acredita que se voltar à política vai haver este mesmo entusiasmo. No entanto, a comunidade lusófona não é, segundo ela, uma comunidade muito envolvida politicamente ou civicamente. “Acho que é importante verem candidatos luso-canadianos obterem resultados e perceberem que é possível. Faz bem à comunidade e faz com que as pessoas se envolvam mais”, conta antes de acrescentar: “Eu sou um produto dessa comunidade. Tudo que aprendi a nível de envolvimento e de organização foi através da nossa comunidade e portanto eu sempre senti que era importante nunca esquecer de onde é que eu venho e de agradecer o apoio que recebo da parte da comunidade”.

Andreia Saraiva / Correspondente em Toronto (Canadá)
Ver Também

EXCLUSIVO: “Empreendedoras da Lei”, na senda diplomática da Europa

Empreendedoras da Lei no Harvard Club, Estados Unidos As “Empreendedoras da Lei”, no dia 6 de dezembro de 2025, encabeçada...