Foi num parque verde da periferia de Paris onde vive, ao som do chilrear dos passarinhos na primavera, que a escritora Carla Vieira Pais recebeu o Jornal Comunidades Lusófonas, para uma agradável e interessante entrevista sobre a vitória surpreendente do Prémio Leya 2025 com a obra “A Sombra das Árvores no Inverno”, sendo apenas a segunda mulher a conseguir este feito, onde concorreu com o pseudónimo masculino de “Aníbal Correia”.
Artigo Exclusivo para subscritores

Com características únicas pela sua especificidade e valor, o Prémio Leya foi criado em 2008 com o objetivo de distinguir um romance inédito escrito em português. Com o valor de 50 mil euros, é o maior prémio literário para romances inéditos em língua portuguesa. Ao longo de todo o processo de leitura e avaliação, a autoria dos romances é desconhecida. A identidade do autor do romance vencedor, assinado sempre com pseudónimo, só é conhecida depois da decisão do júri. Desde a sua criação, o Prémio Leya tem permitido descobrir novos talentos de língua portuguesa e a sua promoção internacional.
Quando recebeu a chamada com a informação da escolha do júri estava à espera ou foi surpresa?

Enviei o livro dentro dos prazos do concurso e, uma semana antes da divulgação do vencedor, foi anunciada a participação de 1460 candidaturas e apenas 6 tinham sido selecionadas para finalistas. Por acaso, estava de férias nessa semana, quando vi estes números pensei: É impossível, isto não acontecerá!
Estava muito descansada a escrever o novo livro, em pijama e com o meu gatinho quando vejo uma chamada internacional. Àquela hora penso: Uau, de Portugal? Alguma coisa aconteceu… Quando atendo o telefona percebo imediatamente que é a voz do Manuel Alegre. Não consigo articular, não consigo responder dignamente, não consigo nada! Fico completamente em choque, ainda por cima estava sozinha em casa. Perguntei-lhe se era mesmo verdade, porque nem conseguia respirar. Ele foi muito simpático e disse-me para me acalmar, para respirar, porque é mesmo verdade que era a vencedora do Prémio Leya 2025. Fiz um esforço para reter as lágrimas, pois foi um choque emocional muito grande. Telefonei ao Paulo, o meu marido, para vir para casa para digerirmos as emoções em conjunto, mas que trouxesse uma garrafa de vinho para celebrar. Foi um momento bonito.
É uma pessoa muito emotiva?
Sou emotiva por pequenas coisas. Um grande evento pode não me comover, mas pequenos gestos do quotidiano, pequenos gestos das pessoas, da generosidade e da bondade, isso comove-me.
O que nos conta a “Sombra das Árvores no Inverno?
A ação passa-se em França. Cheguei cá em 2012 e o livro nasce em 2015 com os atentados de janeiro ao jornal Charlie Hebdo. Aquilo é tudo novo para mim, em Portugal não existem atentados terroristas, assisto a tudo em tempo real e assusta-me imenso. Mais tarde, em novembro, seguem-se os atentados do Bataclan e do Stade de France, que semearam a morte durante dias. Foi muito perturbador e o início de uma coisa muito maior que estava para vir: A crise dos refugiados até 2018!
Nesse período começo a ver e a ouvir que deixamos de compreender a palavra terrorismo e passamos a chamar aos refugiados também de terroristas. Perdemos a conotação verdadeira da palavra, ou seja, estamos a tentar desumanizar aquelas pessoas para nos darmos a nós mesmos o direito de lhes chamarmos terroristas. Eu não conseguia aceitar isso. Eram pessoas. Homens, mulheres, famílias, mães, crianças, todos eles vinham precisamente com o mesmo medo que nós tínhamos, a fugir de algo que era também o terrorismo. Não podemos generalizar e normalizar uma coisa que não podia ser normalizada. O livro nasce dessa minha indignação para com este discurso geral. O que tentei fazer foi dar-lhes um nome, dar-lhes uma história e dar-lhes uma vida para que possamos humaniza-las. Sem nome e sem história não conseguimos ver aquelas pessoas como pessoas.
É um livro para todas as idades?
Sim, pode ser um livro para todas as idades porque fala de termos que são comuns, como o sofrimento e a perda. O paradoxo é que enquanto chamávamos àquelas pessoas terroristas, o que aconteceu, foi que aqui em França estávamos a assistir a jovens sob educação cristã e de famílias funcionais, de repente a abandonarem tudo para irem lutar numa guerra que não era a deles. Havia este paradoxo difícil de compreender, ainda hoje o é. O livro fala de jovens e desta dúvida do que é que falhou, o que é que nós, enquanto geração, falhámos para que estes jovens não consigam encontrar sentido no mundo que lhes estamos a dar?.
O que mudou no seu quotidiano com este prémio?
Essencialmente o que mudou foi o compromisso comigo própria. Foi a certeza de que a forma que eu achei para falar do mundo foi a certa, que é a Língua Portuguesa. O prémio veio dar visibilidade a toda a minha obra e fazê-la chegar a mais leitores. Foi essa a importância e espero que seja isso que vai mudar no futuro.
Sentiu uma maior pressão por parte da sua editora?
Não, não poderia trabalhar assim. Preciso sempre de liberdade para criar, não posso trabalhar sob pressão. Escrevo quando acho que tenho alguma coisa para dizer, não sou capaz de pensar: Agora vou fabricar um livro! Não acontece assim. A criatividade tem fenómenos extremamente estranhos e preciso de toda a minha liberdade par escrever e de todo esse descomprometimento para criar alguma coisa que valha a pena.
Este parque onde estamos com o chilrear dos passarinhos é um cenário de inspiração?
Sim é. Às vezes venho para aqui andar a pé, gosto muito, sobretudo na primavera, ou sento-me a ler porque me dá uma paz interior que é absolutamente essencial para poder depois reproduzir alguma coisa nesta fase. Essa paz interior é absolutamente essencial para reproduzir algo deste exorcismo que é o mundo real, e poder ver as coisas com mais clareza. É por isso que gosto de trazer aqui os jornalistas (risos).
Qual a sua formação académica?
Não tenho. É por isso que há muito interesse em relação ao meu percurso, porque não tenho nenhum curso superior, não sou diplomada, não venho do meio académico. Abandonei a escola aos 17 anos porque me apaixonei loucamente pelo homem com quem vivo até hoje. Considero que a minha liberdade individual tenho de ser eu a criá-la, quando toda a sociedade me diz: Agora tens de ir estudar, eu digo Não! Agora vou viver este amor e, portanto, deixem-me em Paz! Foi isso que aconteceu. Depois, voltei à escola mais tarde para finalizar o secundário no ensino noturno e fui fazendo formações na minha área profissional, que é a gestão comercial e qualidade.
Na escrita, frequentou algum projeto de escrita criativa?
Não, nunca fiz escrita criativa. Fiz apenas um workshop com a Filipa Leal sobre poesia para fugir um pouco à rotina. Vivo muito na minha vidinha, não participo em comunidade nem tenho muitas pessoas para falar de livros e inscrevi-me só para conversar sobre poesia.
Está disponível para ser convidada para sessões públicas e falar de livros?
Claro que sim, no entanto, não tenho conhecimento e não vou à procura dessa informação. Por vezes pareço antissocial, mas é só porque preciso do silêncio e do meu espaço.
Como é que nascem as suas histórias?
É muito difícil falar sobre isso, porque cada livro é um livro e o processo criativo nem sempre tem um denominador comum ou uma chave condutora que nos leve sempre ao mesmo resultado. O que pode acontecer, é que tenho uma ideia na cabeça e essa ideia vai ficando, vai ficando e, em algum momento ela tem que sair. Quando percebo que faz sentido aquela ideia, aí transforma-se nalguma coisa.
Posso, por exemplo, ler um poema que me toca de tal maneira que penso: Isto merece mais alguma coisa. Não há um trabalho premeditado, até agora as coisas aconteceram naturalmente. Por vezes estamos de tal maneira embrenhados na história, que somos conduzidos pelas personagens numa direção que não queríamos, mas somos obrigados.
Adormece e sonha com as histórias?
Sim, sim. É uma loucura terrível (Risos)… Tenho sempre um caderno e um lápis ao lado da cama, porque posso estar a sofrer algum bloqueio na escrita, e num momento qualquer da noite aparece a frase que vai permitir o seguimento. Tenho de escrever tudo isso em qualquer altura, se não, posso perder.
Após estes anos em França, a saudade entra-lhe na escrita naturalmente?
Não tenho ainda saudade, até porque Portugal é aqui ao lado e vamos quando queremos. O que me acontece é ter este distanciamento que me permite ver as coisas sem nuvens nos olhos, muito mais claras. Quando deslocamos o olhar porque estamos longe, conseguimos ver outros ângulos que não tínhamos antes. É isso que me permite a França hoje.
Sei que não frequenta Associações ou eventos portugueses, não lhe faz falta?
Até agora não fez. Mas gosto muito do meu país, aprecio a nossa tradição e defendo muito o meu país e tudo aquilo em que acredito que o meu país pode ser ou vir a ser. As tradições não me fazem falta aqui, porque quando vamos no verão, vivemos tudo isso lá, portanto, não tenho essa necessidade. Sou extremamente tímida e tenho alguma dificuldade em estar com pessoas que não conheço ou em sítios onde não estou à vontade.
Como viveu as tempestades que assolaram Portugal?
Terrivelmente, porque temos lá a nossa família, os meus pais que vivem sozinhos em Regueira de Pontes, no concelho de Leiria, que foi um dos mais afetados. Como não havia comunicações, não conseguíamos falar com eles. Durante dois dias, foi um choque muito grande. Um amigo foi numa missão de ajuda desde a França e, quando chegou lá ligou-nos e chorou. Chorou e disse: “vocês vêm as imagens, mas não têm a noção do choque emocional que é chegar aqui e ver toda esta catástrofe!” Foi difícil para nós, sim.
O livro premiado “A Sombra das Árvores no Inverno” chegou ás livrarias no dia 28 de abril e para já, está disponível apenas em português.
Carla Vieira Pais já tem vária obras com distinções:
2015 – Prémio Literário Horácio Bento Gouveia, A Alma do Diabo
2017 – Prémio de Poesia Francisco Rodrigues Lobo, A Instrumentação do Fogo
2017 – Nomeada para o Prémio Agustina Bessa-Luís, Mea Culpa
2018 – Prémio Cidade de Almada, Um cão deitado à fossa
2023 – Prémio SPA, na categoria Melhor Livro de Ficção Narrativa, Um cão deitado à Fossa
2025 – Prémio Leya, com o romance A Sombra das Árvores no Inverno.
Eduardo Lino, maio 2026 (correspondente em Paris)




