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Sexta-feira - 19 Abril 2024

EXCLUSIVO: Da Engenharia ao Mundo: A Trajetória Inspiradora de Sérgio Costa

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Sérgio Costa nasceu numa pequena localidade de S. Pedro do Sul, há 36 anos. Aos 17 anos, começou o curso de Engenharia Mecânica na Universidade de Aveiro. A primeira experiência internacional profissional foi um estágio de 6 meses na Califórnia. O primeiro emprego foi na França como consultor da Airbus, do qual se demitiu aos 26 anos para iniciar o Doutoramento na Suécia. No ano passado, 2023, aventurou-se como consultor informático na Volvo Cars. Apesar de não ser a sua área de formação, o facto de ter desenvolvido o Ecorustics, uma plataforma de reservas online, foi decisivo no seu recrutamento. No entanto, a paixão pela investigação levou-o até ao maior instituto de pesquisa de energia eólica do mundo.

“Nasci numa aldeia que, aos poucos, foi sendo esquecida pelo tempo. Chama-se Santo Estêvão, faz parte do conselho de S. Pedro do Sul. Aos 17 anos, deixei-a para trás, rumo à cidade de Aveiro para estudar Engenharia Mecânica.”, revela-nos o Sérgio com uma simplicidade envolvente.

A sua primeira aventura para além das fronteiras de Portugal, surge no contexto do programa Erasmus, inicialmente com um destino alemão que Sérgio recusa, hesitante perante os desafios financeiros e linguísticos. “Era um sonho estudar no estrangeiro, mas aos 20 anos, a ideia de me aventurar sozinho era mais assustadora do que promissora,” reflete com honestidade.

Não se dando por vencido, candidata-se novamente e, no ano seguinte, embarca para a República Checa, numa experiência que marca a primeira de muitas viagens de avião e uma viragem decisiva na sua vida.

Regressando a Portugal após o Erasmus, Sérgio rapidamente se vê imerso no mercado “Graças ao programa de estágios internacionais da AICEP, INOV Contacto, tive a oportunidade de ir para os Estados Unidos, Califórnia. Acredito que até hoje foi o momento de maior sorte da minha vida profissional, pois para tudo é preciso sorte, até mesmo quando comercializamos o nosso saber.”, afirma. “Foi a primeira vez que estive sozinho no outro lado do planeta e tinha um grande desejo de lá permanecer. Estava a trabalhar diretamente com os criadores dos programas mais utilizados em Simulação Numérica, o Abaqus; continuar a trabalhar nesta área era um sonho que não foi possível em Portugal”

Assim que regressou, estava disposto a trabalhar em Portugal, mas só encontrou uma empresa na área e foi rejeitado com o argumento de não ser elegível para o estágio profissional da IEFP. “Os estágios, criados supostamente para ajudar, acabaram por ser um entrave”, afirmou. A primeira entrevista que conseguiu foi para a Continental na Alemanha, e foi convidado para a fase seguinte. “Entretanto, surgiu uma oferta concreta em Toulouse e, mais uma vez, acabei por rejeitar a Alemanha”, diz em tom de ironia. “Toulouse, no sul da França, acabou por ser a minha segunda casa. Trabalhei lá durante dois anos (2011-2013) como consultor da Airbus. Era um período em que a aviação estava em alta, e queriam concluir o programa do A350, que tinha a sua linha de montagem final em Toulouse. Estava a gostar muito da experiência, mas percebi que os colegas, dez anos mais velhos, continuavam a fazer a mesma coisa, e essa perspetiva não me agradou. Adorei a experiência tanto a nível pessoal como profissional. Aprendi francês que foi muito gratificante. Senti uma forte valorização dos colegas; aliás, por vezes até senti uma certa discriminação positiva.”

Sérgio almejava mais: mais conhecimento, mais experiência. “O Doutoramento apresentava-se como uma opção interessante, oferecendo a possibilidade de continuar a receber um salário enquanto regressava à Universidade.” Encontrou um doutoramento industrial na Suécia, em Gotemburgo. “Quando fui aceite, fiquei extremamente feliz com a notícia. Comuniquei imediatamente ao meu responsável na Airbus, e, apesar de 3 meses de período de aviso, ele garantiu-me que fazia tudo ao seu alcance para me ajudar. Ele disse à minha empresa: “Quero o trabalho do Sérgio o máximo de tempo possível sem comprometer o Doutoramento dele, e assim que ele sair não quero nenhum consultor de substituição.”

Assim a minha empresa não tinha interesse de me obrigar a cumprir os 3 meses. Um gesto de humanidade raro no mundo industrial.” Equipado com as malas, o Sérgio conduziu até a Suécia. Para economizar na viagem, transportou uma encomenda de Paris até Copenhaga. Ao chegar com a encomenda ao destino, já de noite, foi recebido por um casal amável que lhe ofereceu hospedagem e ainda serviu um pequeno-almoço. “Foi um descanso mais que necessário após mais de 1500 km de estrada. Talvez fosse o destino sinalizando um futuro regresso.”

O doutoramento industrial revelou-se extremamente gratificante, equilibrando obrigações na empresa com a necessidade de lecionar um curso por ano na Universidade. “A nível pessoal e profissional, a aprendizagem foi imensa. Fiz investigação do comportamento dos matérias compósitos quando sujeitos a impacto e esmagamento. Os materiais compósitos, com suas propriedades incríveis, tornam-se o material de eleição não apenas para nossas raquetes de ténis, mas também para aviões e até carros. O preço, no entanto, é o principal obstáculo,” reflete. Após concluir o doutoramento, Sérgio continuou o mesmo trabalho, agora com a responsabilidade adicional de angariar financiamento para o centro de Pesquisa Sueco, RISE.

No entanto, no final de 2023, a atração económica levo-o de volta ao mundo empresarial. “Sem precisar de sair de Gotemburgo, aproveitou a oportunidade para trabalhar como consultor informático e, durante um ano, esteve na Volvo Cars. Aprendeu bastante sobre informática, mas seus conhecimentos em Mecânica não foram aplicados, “nem me envolvi com pesquisa”.

Com o tempo, essa ausência de investigação começou a pesar e a causar saudades. “Entretanto, surgiu uma oportunidade na Dinamarca que decidimos aceitar. E digo ‘decidimos’, pois, a decisão já não era apenas minha: minha esposa está no último ano de doutoramento na Suécia, e a nossa filha, na época da decisão, tinha menos de 6 meses. Se mudar de casa já é complicado, imagine também mudar de país com todos os nossos valores materiais e com uma bebé sempre a precisar de cuidados?”

A mudança não foi fácil, mas, após alguns meses, o esforço já dá sinais positivos. A existência de acordos entre os países nórdicos facilita significativamente a mobilidade. “Por exemplo fui automaticamente retirado do registo de população da Suécia e, logo após registar minha filha, comecei a receber o abono familiar da Dinamarca.”

“Estou a trabalhar na DTU Wind, localizada no campus da Risø a cerca de 30 quilómetros de Copenhaga. Este local foi projetado para pesquisas em energia nuclear pelo famoso Niels Bohr, mas depois a energia nuclear foi suspensa e ergueu-se um centro de pesquisa em energia eólica com as instalações e testes mais avançados do mundo. A Dinamarca é um ator dominante no setor da energia eólica, e o campus da Risø é conhecido como a ‘NASA do vento’, como dizem por aqui. A nível profissional, ainda é cedo para avaliar completamente, mas estar rodeado por dezenas de investigadores que se dedicam diariamente a aprimorar as tecnologias eólicas usadas globalmente é, sem dúvida, uma perspetiva muito promissora.”

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