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Sábado - 2 Março 2024

Dois séculos de Vista Alegre: A visita guiada à fábrica onde a “magia” acontece

Destaques

Longa Reportagem

José Ferreira Pinto Basto, o visionário que conseguiu por no mundo a sua identidade, a Vista Alegre está presente nos mercados mais competitivos e agressivos na arte de produzir porcelanas e outras peças de decoração. Do século XIX até ao século XXI fomos ver o que é que a Vista Alegre tem feito, e tirar conclusões sobre esta arte em que cada peça de porcelana imprime no mercado, e agora noutros setores, como os tecidos e mobiliário, vindo rasgar paradigmas antigos.

Numa visita guiada pelo Administrador da Vista Alegre, Teodorico Pais, leva-nos aos séculos passados, para conhecermos a fundo o coração da fábrica da Vista Alegre. É composta por um complexo de edifícios com mais de cem anos, e alguns foram alvo de reconstrução de modernização, e requalificação das caraterísticas originais.

Os armazéns e edifícios dos bombeiros também se encontram no complexo, que é a corporação privada mais antiga do país. Uma vez que os fornos eram aquecidos e abastecidos para atingirem as temperaturas elevadas com lenha e mais tarde carvão, os bombeiros foram criados para em caso de emergência, poderem atuar.

Primeiro forno da Fábrica da Vista Alegre

É um edifício que foi construído pelos bombeiros, e pelos trabalhadores que ficavam a trabalhar mais uma hora, para produzir peças que eram mais tarde vendidas em rifas.

E desta forma arranjavam dinheiro para construir o edifício, porque a fábrica nem sempre teve os seus melhores períodos financeiros.

Aliás a compra da Visabeira à família foi a transição do negócio, também familiar, mas numa dimensão multinacional, como é o Grupo financeiro da Visabeira que tem outra capacidade. Salienta Teodorico Pais.

Paulatinamente “vamos requalificando os edifícios presentes dando uma versão mais atualizada dando do ponto de vista industrial um “Layout” também industrial.” Refere Teodorico.

Também têm um espaço onde fazem uma feira e um campo de futebol. Todo esse espaço é propriedade da Vista Alegre, mas fizeram uma parceria com a Câmara Municipal, para dotar de infraestruturas desportivas.

Conjunto de Chávenas de Chá e Café, Siza Vieira

Têm um campo, a parte desportiva fez parte também do desenvolvimento da bairro, também têm um parque de estacionamento, e uma zona de feira, que ao dia 13 de cada mês é feita uma feira tradicional com venda de produtos de vestuário, etc.

Os comes e bebes, também estão presentes. Esta feira já é património imaterial nacional, porque já está requalificada. Também tem um parque de lazer, onde são realizados vários desportos ao fim de semana.

Peças em série, já com a água de cerâmica.

Chegados à zona de entrada dos trabalhadores enquanto a sineta dá o toque de entrada. “Temos cerca de 650 trabalhadores, que não trabalham todos no mesmo horário, uns trabalham das oito às cinco, mas trabalhamos em regime contínuo em turnos. Também temos períodos de férias onde são feitas a manutenção dos fornos.”

A modernização de todas as áreas são uma das exigências da modernização de todas as áreas e produzem em média cerca de mil peças por dia. O mercado está mais centrado na exportação que e abarca 75% das exportações dos produtos fabricados, o principal país é a Espanha, a França, para a Europa estão direcionadas cerca de 80% das exportações, “mas temos crescidos nas nossas filiadas nomeadamente no Brasil, temos uma filial forte Estados Unidos, e já começamos a ganhar uma dimensão na Ásia e Médio Oriente, mas vêm em último lugar.”

O grupo tem seis fábricas, mas a porcelana é toda feita em íLhavo, nos 200 anos de existência houve vários processos, e houve subcontratação na Ásia, mas a Vista Alegre nunca evoluiu para essa estratégia, o que significa que hoje “temos um parque industrial moderno e um dos melhores preservados da europa, e mais competitivo à escala global, é por isso que hoje a Vista Alegre mantém hoje uma reputação elevada porque “conseguimos manter fazer aqui o saber fazer,” muitas das grandes marcas, nomeadamente na Alemanha, adotaram estratégias de subcontratação, nomeadamente na China, e outros países na Ásia, mas maioritariamente na China. E hoje foram perdendo mão de obra qualificada o conhecimento e o investimento, ficando comprometidos durante o período do Covid e agora com a guerra na Ucrânia.

O que tornou muito mais difícil a sua estratégia de abrangência comercial, “nós, temos essa grande vantagem que durante estes duzentos anos nunca foi deslocalizada.”

As matérias-primas, principalmente a porcelana, “temos o caulino que é uma das matérias-primas essenciais, que ainda existe numa das regiões de Ovar, que é uma das razões das quais estamos aqui localizadas, tem a ver com a origem das matérias-primas. Mas os caulinos mais brancos vêm da Cornoalhia em Inglaterra”. Diz-nos o Administrador da Vista Alegre, Teodorico Pais.

Entrámos no lugar onde a magia começa, mãos laboriosas e lestas pegam na porcelana com dedos de seda, e a obra nasce. É na fábrica onde a magia acontece. Vários trabalhadores nos seus diferentes postos de trabalho, nas diferentes fases de fabrico dos produtos de porcelana da Vista Alegre.

As honras da casa foram feitas por Nuno Barra um dos Administradores da Vista Alegre, falando sobre a marca e a primeira peça da Vista Alegre 2024, um prato com um calendário deste ano, e que tem representado o futebol, o seu fundador José Ferreira Pinto Basto, no cimo do prato, e um pato no centro.

Discursaram o Presidente da Câmara de Ílhavo, João Campolargo e o Presidente da Câmara de Aveiro, José Ribau Esteves, que foi vestido a rigor, com uma “capa” em Burel, e que era muito usada nos primórdios da Vista Alegre. Foi passado um vídeo na construção da primeira peça de 2024, um prato de decoração.

Foram desvendadas algumas novidades, o lançamento dos têxteis de mesa em colaboração com alguns parceiros nacionais, e também uma coleção de mobiliário. Nuno Barra reforçou a importância da Vista Alegre na região. Também vai ser lançado o livro sobre a Vista Alegre, tendo em conta que ainda não existe nenhum publicado. Que conta toda a história da Vista Alegre. Também vão ser lançados selos dos CTT.

O Presidente da Câmara de Ílhavo, referiu a importância destas unidades para o município e o seu desenvolvimento económico para a região. Bem como o desenvolvimento do turismo, não só pelo seu museu, mas também pelo seu complexo em si. E pela unidade de cinco estrelas que está posicionada na localidade na região, em Ílhavo. Que é de relevo.

A importância da emancipação das mulheres no mercado de trabalho. E que representam para todas estas empresas desta industrialização de todas estas empresas satélite, porque traz desenvolvimento económico, uma melhor formação, uma melhor apresentação. “Uma marca muito importante para o nosso município”.

A porcelana era proveniente da companhia das índias, e segundo o Presidente da Câmara Municipal de Aveiro, a Vista Alegre é a “marca mais prestigiada em todo o mundo, é a marca portuguesa mais internacional”, sem desvalorizar outras fábricas.

O Presidente da administração da Vista Alegre, fez referência que em 2009 o grupo Visabeira comprou a maioria do capital social da Vista Alegre, “nesse altura a empresa enfrentava um período muito conturbado, a Vista Alegre é detentora de um conhecimento a nível artístico referenciado ao nível nacional e internacional. Com a presença da Visabeira a Vista Alegre conseguimos triplicar as vendas globais. Estamos numa situação financeira robusta. A sua internacionalização leva a que a Vista Alegre comporte mais de 75% das suas vendas para exportação.”

O Museu

O Museu da Vista Alegre remontam quase ao início da fundação da fábrica da Vista Alegre, mas teve a sua abertura ao público em 1964 e tem a sua inauguração em 2016, sempre houve a necessidade de “preservar as peças que aqui foram feitas”.

A recuperação da capela da Vista Alegre que remonta ao século XVII, o Teatro, e o Hotel Montebelo da Vista Alegre.

Damos logo de caras com o Forno Industrial, que remonta aos inícios do século XX, que tem duas câmaras, uma para a cozedura, câmara inferior para os 1400 graus centígrados, uma câmara superior para a primeira cozedura, mais ou menos a 1000 graus centígrados.

Este forno trabalhava a carvão, e a lenha.

O segundo forno já é posterior de 1947, este forno, ao contrário do primeiro que era Alemão, é feito pela vista Alegre, ainda têm os desenhos técnicos do forno. A zona do forno era muito imprevisível e muito minucioso.

Pinto Basto fundador da Vista Alegre, era um visionário, e uma figura que se torna emblemática pela sua capacidade de risco e de visão empresarial. Era um homem de negócios, fez a sua fortuna no comércio em Portugal e no estrangeiro, com as antigas colónias portuguesas.

Tinha quinze filhos, em que dividiu a sua fábrica em quinze parte iguais, criou uma dinastia com alguma longevidade. Faz uma petição ao Rei D. João VI, e é autorizada a sua construção em 1 de julho de 1824. Quando fez o primeiro centenário tinha 600 funcionários.

As primeiras produções da fábrica da Vista Alegre, começa a produzir vidro e não porcelana. E o motivo é porque não sabiam ainda produzir porcelana. Tirando vantagem das dificuldades da altura vai capitalizar as capacidades de mão de obra do vidro, nomeadamente da Marinha Grande, vai captar essa mão de obra e traze-la para Ílhavo, fixa-la à volta da unidade industrial, e produzir peças de produção superior, mais elaboradas, lapidadas. O vidro colorido, mais simples.

A produção de vidro termina em 1880. A partir daí, a Vista Alegre dedica-se exclusivamente à produção de porcelana.

Experiências 1835

O ano de 1835 é o ano de experiência em que não se consegue produzir porcelana verdadeira, mostra as dificuldades do material, da modelação, das peças e da matéria-prima.

É uma época em que se fazem muitas experiências, onde se pode verificar no museu peças mal acabadas, com muitas imperfeições. As dificuldades, o erro, a persistência. E começa a produção da porcelana oficial da Vista Alegre. A pasta ainda é creme, tem algumas imperfeições, porque o que faltava era o caulino, a partir de 1835 tem o início da produção em porcelana.

A decoração e adaptação aos novos mercados

Peças de arte Nova, 1920, 30, 40, mostra que a Fábrica da Vista Alegre em Ílhavo, estava a acompanhar a par e passo aquilo que se passava na Europa. Estava a ser influenciada, e a desenvolver o seu próprio estilo. As primeiras peças feitas com parcerias artísticas. A fábrica vai buscar pessoas de várias áreas, o caso do escultura em 1924.


A inovação, peças bastante arrojada. Também tem desenhos artísticos, desenhos técnicos “que nos permitem conhecer a história da empresa.”

Na montra mostra as medalhas de presença e de ausência dos trabalhadores, as condecorações dos vinte anos de casa, isso acontece ainda hoje, na Festa da Vista Alegre.

Também tem os tamancos que eram feitos por um morador do bairro e ex-trabalhador da Vista Alegre. Para as pessoas que não tinham dinheiro para comprar sapatos, nos anos trinta, quarenta.

A Vista Alegre tem a mais antiga corporação de Bombeiros no país, data de 1880, o quartel dos bombeiros era na traseira da fábrica.

“Temos o primeiro serviço brasonado feito pela Vista Alegre em 1846 para família Abrantes, era uma baixela de mais de 300 peças, que demonstra o seu poder, mais do que um prato para comer era um prato de família.

Também contém peças, segundas peças que foram ofertas de Estado Institucionais, ou Governos estrangeiros, geralmente o Presidente da República português, em que ofereceu à Rainha Segunda de Inglaterra, ao Rei de Espanha. A marca da Vista Alegre, também é um símbolo, que se leva para fora com estas ofertas, e ainda hoje é muito comum, existirem peças a serem editadas para o Presidente da República, poder fazer essa oferta.

Também tem a casa Real, apesar da Vista Alegre ser um negócio privado, também se designa Real Fábrica de Porcelana da Vista Alegre. Há alguns exemplos de peças para a Casa Real, há uma feita para o Rei D. Fernando, sendo que ele chega a visitar a fábrica em 1853.

Mas se formos aos Palácios Nacionais vamos encontrar muitas peças feitas pela Vista Alegre que foram feitas para as casas Reais.

Há 40 mil peças que não estão em exposição e como está sempre a crescer, é um volume de peças para além destas peças têm a coleção industrial, ligados às laborações, desenhos, fotografia, a coleção, é uma indústria da fábrica.

A manufatura da porcelana começou a ser produzida na China, na Europa, dá-lhe a raridade que a torna glamurosa, e as técnicas, uma delas é a translucidez. Ou seja, é a única que trabalhada com diferentes espessuras e permite criar um padrão, ou um desenho quando é iluminado contra luz faz este efeito.

Eram utilizadas como lamparinas de quarto onde se punha uma vela ou uma torcida de azeite, e que mantinha o chá, ou o caldo, sempre quente. São peças do século XVIII.

Os animais são peças muito difíceis de fazer e podem levar muito tempo a sua concretização, são “séries especiais limitadas”, a peça o cavalo lusitano, é uma das peças mais bonitas, e tem apenas sustentação por duas patas.

O pintor francês Victor Rousseau, que estava exilado em Inglaterra é contratado para criar a escola de pintura e desenho da Vista Alegre, e vai ser determinante na pintura, veio trazer a técnica. A fábrica da Vista Alegre vai determinar o território. Não só em termos de arquitetura, de espaço, mas também socialmente, criando nesta zona, uma mão de obra altamente especializada, tanto na produção como na pintura da porcelana.

Há séries especiais limitadas que surgem nos anos 70, e são de um período muito diferenciado, que ainda hoje se podem encontrar nas lojas da Vista Alegre, são numeradas, certificadas, e muito limitadas, geralmente são feitas com recurso a biólogos, a observação de aves vivas, e depois são todas pintadas à mão, é um processo que pode levar dois a três anos, a sua produção ronda as 150/200 peças e quando entram para o mercado, já têm um valor diferente, são peças de arte que querem entrar num mercado totalmente diferente, são séries especiais limitadas.

A artista na fase final do processo.

A fase final deste processo de produção termina da área da pintura, onde os artistas dão mão às obras de arte que ali se apresentam. São pinturas muito detalhadas e minuciosas que só com perícia, saber fazer e criatividade conseguem peças únicas de altíssima qualidade.

Há peças que demoram muito tempo a serem pintadas, e o seu valor pode ultrapassar, os 2000 euros. Mas há peças mais caras.

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