(Fonte Hugo David 2014)
Ao longo do tempo o Jornal Comunidades Lusófonas dedicou várias vezes artigos ao tema da arquitetura. Que nos rodeia todos os dias. Números em união com a geometria criam obras de arte – umas mais solenes outras para o dia a dia. Fundamentam a estabilidade, que depende da ciência técnica-estrutural, para a construção de beleza e harmonia, não esquecendo o fator da função. Uma união de facetas que transferem visões do abstrato para o concreto. Acontece, que nem sempre se realiza o fato que a “conta final” resulta do diálogo entre engenharia e arquitetura. “Vários mestres da arquitetura utilizaram epítetos para definir a sua visão sobre a arte de construir”. No descrito contexto o JCL entrevistou o arquiteto Rui Pinto.
Convida o leitor a viajar no contexto da história da arquitetura da mais remota até à atual e assim conhecer o entrelaçamento entre as disciplinas de engenharia e arquitetura, que se completam e não devem ser analisadas de forma solitárias. Apresenta sua visão em diálogo com as diferentes perspetivas sobre o ser arquitetónico no mundo, espaço e na cidade.
Visão e formação académica começaram com “os clichés básicos, que advêm do desenho à relação com os próprios brinquedos – mais propícios a este tipo de diálogo, como os legos.” Um caminho que desde o início chamava a atenção para a beleza da estrutura, assim como a respetiva estabilidade que requer sofisticada tecnologia.
A formação conheceu seu princípio com o secundário em Portalegre. A seguir matriculou-se na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, com o propósito de estudar arquitetura. Prosseguiu os estudos na ETSA, em Madrid. Após a licenciatura trabalhou em Lausanne e em Zurique. Porém – decidiu fundar o seu gabinete STUDIOLO, a fim de elaborar os seus projetos e dedicar-se à investigação. Um arquiteto cosmopolita entre Portugal, Suíça e o Mundo. No entanto divide o seu tempo com a Universidade de Coimbra, onde é Professor Convidado no Departamento de Arquitetura da Faculdade de Ciências e Tecnologias. Percurso, no qual integra também arte, natureza e cultura. Facetas que se revelam na Associação Ibérica de Preservação do Património, onde é membro. Uma conjunção muito singular, que não foi “amor à primeira vista”. Somente ao longo do tempo conquistou o talento do aluno/estudante e jovem arquiteto. Apesar como o próprio diz: “Todos nós somos cidadãos das cidades e da urbanidade por mais urbana, ou menos ela seja, todos vivemos em cidades, aldeias ou vilas. Todos experienciamos ruas e a construção daquilo que nos rodeia, foi algo que sempre me interessou bastante desde pequeno.”
Existia sensibilidade e fascínio referente à escolhida formação. No entanto de início os estudos e o interesse artístico pareciam não encontrar forma para a dita “Chamada”. Realça que talvez seria o resultado da “imaturidade ou inexperiência” que via o curso sem a esperada criatividade. Mesmo assim, como sublinha “sem plano B” o caminho desenvolveu-se de forma natural. Os desenvolvidos trabalhos começaram a dar razão à escolha profissional – “momento Epifânio” – e a fundamentar o talento artístico-arquitetónico. Hoje vê as dificuldades técnicas e os constrangimentos como desafio, ao qual se dedica com um pensar mais “passional e visceral”.

(Fonte Hugo David, 2024)
As diferentes perspetivas revelam, consoante as palavras de Rui Pinto, que não encontra rivalidade entre engenharia e arquitetura, mas sim reciprocidade. A interdependência entre a engenharia-estrutural e a razão artística do arquiteto não formam uma oposição. Muito ao contrário, precisam da capacidade de diálogo, a fim de idealizarem, assim como construírem uma parceria relativa ao espaço e à cidade. Para descrever melhor a descrita retribuição utiliza a metáfora do “Arquiteto como Diretor de Orquestra” e “Negociador”. Em vez de fazer tocar todos os instrumentos em uníssono precisa de uma formação, que facilite negociar com todas as respetivas disciplinas, que se revelam significantes no trabalho do arquiteto: sustentabilidade, estrutura, técnica, criatividade, engenharia, segurança, funcionalidade, estabilidade, estética etc.
Utilizar todos os recursos de ambas as disciplinas e não as analisar como entravas ou obstáculos. Colocar no centro do trabalho o diálogo, a fim de se encontrar compromissos e oportunidades para novos caminhos entre a humanidade e a natureza:
“Eu acho que vemos num momento também contemporaneidade. Acho que nos ensina hoje em dia, quase podemos dizer, que quase tudo é possível. Mas verifica-se um preço a pagar, o económico, mas também um preço ideológico ao nível de recursos.”
Ponderar e contemplar sempre as causas entre o aproveitamento do espaço e dos recursos. Precisa-se de investigar a correlação entre as dificuldades técnicas e o valor do esforço, para se encontrarem soluções. É um mecanismo de auxílio entre engenharia e arquitetura.
Estabilidade significa longevidade. Por conseguinte o passado conta suas histórias ao presente e surge a comparação entre a antiguidade, o contemporâneo e os objetivos para o futuro. Ao mesmo tempo verifica-se a problemática entre a definição “moderno” e “contemporâneo”:
“Se estivermos a falar de períodos contextuais e períodos históricos, existe uma definição que advém, mas na realidade nada é moderno. Nada é contemporâneo, porque o presente na realidade é uma coisa que não existe. É um pequeno instante entre o passado que já passou e um futuro que ainda não chegou. É muito difícil esta ideia do que é a arquitetura moderna e uma conceção cultural.”

(Fonte Hugo David 2024)
Descrição que dirige a arquitetura para a plataforma de edifícios, que contam histórias:
“Para mim, a arquitetura é uma disciplina intelectual. Encontra-se arquitetura que não está construída e há construção que não é necessariamente arquitetura. Contemplo edifícios que para mim não são necessariamente projetos arquitetónicos, porque são respostas sem ideologia, sem uma missão, sem uma história para contar.”
É no descrito contexto, que integra a diferença entre Nova Iorque e Dubai. Duas cidades, com duas perspetivas de construção bem diferentes.
“Em relação à arquitetura do Dubai e de Nova Iorque, tem a ver com os preceitos que são totalmente diferentes. Nova Iorque é uma cidade com uma pujança e associada a movimentos culturais e intelectuais muito fortes. A própria conceção arquitetural nova-iorquina é muito particular. Aquela métrica, a ideia de que densificar pressupõe ocupar uma pegada menor e crescer verticalmente, o que permite a invenção. Nova Iorque, na realidade é o elevador, é o grande paradigma de mudança da conceção espacial. É a invenção do elevador, que é um mecanismo que permite às pessoas viajarem verticalmente a uma velocidade maior e sem se terem que cansar tanto.
Nova Iorque é o ex-libris, ou pelo menos a primeira cidade da verdadeira grande metrópole que torna isso o possível. Vive-se um conjunto de arquitetos que intervém e que desenvolvem a cidade, de uma qualidade inacreditável. Em Nova Iorque pode-se andar por todas aquelas quadras e observar todos aqueles edifícios.”
Enquanto Nova Iorque apresenta um singular passado histórico, Dubai, apesar também contar a sua história, transformou-se nos últimos anos mais em “Cidade Futurista”.
Diferentes conceitos, que definam a História da Arquitetura e diferentes posições, que distinguem a visibilidade de visões a nível global.

(Fonte Manuel de Sousa 2012)
Exemplos de conceções diferentes encontram-se nos conceitos de Rem Koolhaas (Roterdão, 1944) ou Álvaro Siza Vieira (Matosinhos, 1933). Ambas figuras internacionais, que deixam suas pegadas na História da Humanidade. Apesar de serem “Pegadas” opostas referente à interpretação do Contextualismo, que se define como uma filosofia arquitetónica. Rem Koolhaas defende a rutura com a história e protagoniza a interação com globalização, enquanto as obras de Siza Vieira refletem continuidade.

(Fonte GSAPPstudent)
O conceituado arquiteto realça, que as mencionadas Personalidades “me inspiram. É uma ideia de que existe uma lógica, uma história para contar.”
Vê na arquitetura uma disciplina que se dedica com uma componente intelectual e artística à cidade e às pessoas o que reflete a sua mensagem:
“Acho que o país precisa de saber abraçar mudanças e mudanças lógicas, mudanças de funcionamento. A disciplina beneficiaria muito com a desburocratização. Temos um país extremamente burocrático. Os processos são extremamente lentos e complexos e sempre díspares entre cada sítio. Isso também é muito penalizador, quer para os arquitetos, quer para as pessoas que trabalham com arquitetos.
Penso que nunca houve tanto acesso à informação como hoje. Tantos jovens com tantas qualidades. Muitos deles não estão em Portugal. Estão a viajar, mas alguns voltarão e eu acredito que o futuro da arquitetura portuguesa é muito risonha, desde que haja espaço para estas pessoas também singrarem e poderem elaborar os seus projetos.
“O movimento arquitetónico que eu mais gosto é o que está para vir.”
Isalita Pereira/Ligia Mourão




