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Sexta-feira - 17 Abril 2026

EXCLUSIVO: Entre avanços e recuos, países desafiantes no Médio Oriente, Raquel Barquinha tem conseguido atingir os seus objetivos internacionais

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Raquel Barquinha é uma mulher do Norte, mais concretamente de Vila Nova de Gaia que faz fronteira com o Porto. Terminou o 12º com 17 anos, o que lhe dificultou um pouco a sua vida de estudante, pois só podia ingressar na Universidade com 18 anos. Fez dois anos de ensino primário num, mais concretamente a segunda classe e terceira classe. “Foi uma exceção no nosso sistema educação em Portugal”. Avançou um ano, mas depois chegou à idade da adolescência a partir dos 13, 15 anos e começou a ter de pensar o que pretendia ser e confessa que se sentia bastante perdida e difícil decidir em tão “tenra idade”. Terminou o 12º ano no ensino Público português no liceu. Na escola Secundária Almeida Garrett, em Vila Nova de Gaia, mas não sabia muito bem que curso escolher na Universidade.

Sabia que gostaria muito de viajar, de trabalhar em algo relacionado. “Pensei sempre um bocadinho na área de turismo”. Pensou em concorrer na Escola de Hotelaria no Porto, que era uma boa Escola e tinha fama. Na altura rejeitaram a sua candidatura porque tinha 17 anos e era preciso ter 18 anos. Andou um pouco perdida, numa fase difícil e concorreu no Instituto Superior de Assistentes e Interpretes, hoje ISAG (Instituto Superior de Administração e Gestão).

Raquel Barquinha à esquerda

Não era bem aquilo que pretendia. Passou aqueles 3 anos a estudar algo com o qual também não se sentia identificada. Obtendo uma média baixa. Terminou o bacharelato com 21 anos, e continuava um bocadinho sem saber o que fazer.

Sentia muita vontade de trabalhar e começou nessa altura, ao mesmo tempo, a fazer pequenos trabalhos, precisamente também na área de turismo, a trabalhar em postos de turismo e para a Câmara do Porto nos meses de Verão. Passado um ano ou dois, ingressou no ICEP, (Investimentos Comércio e Turismo de Portugal), hoje é o AICEP.

Na altura era muito nova, foi trabalhar para o Aeroporto Francisco Sá Carneiro, onde ingressou como Assistente de Informação. De certa maneira formou-se porque lhe permitiu também conhecer o mundo do trabalho e aplicar um pouco os conhecimentos que adquiriu, e ter lá ficado nessa função durante cinco anos no aeroporto.

Mas no terceiro ano a trabalhar no Aeroporto, “achei que necessitava de progredir em termos da minha formação e carreira”, e de voltar a estudar.

Talvez isso fosse a porta de entrada, porque não encontrava uma forma de ter progressão na instituição e começou a ver outras oportunidades. Concorria a várias universidades, concorreu ao curso de intérpretes de conferência. “Mas acabei por ingressar depois na Universidade do Minho. E fui fazer um mestrado em Comércio Internacional.”

Na área de economia, mas especialização em Comércio Internacional. Na altura a ideia era procurar áreas de Serviço Externo, áreas de Internacionalização. Mas mais uma vez continuava um pouco sem grande noção sobre o que é que iria estudar, e o que é que iria fazer com a parte profissional. “Mudei de instituição, ainda estava a completar o mestrado, e em 2000, fui trabalhar para a Câmara Municipal do Porto, como Técnica Superior de Relações Públicas, e continuava a estudar, em paralelo.”

Quando foi para a Câmara do Porto, foi “uma fase diferente”. Confessa. Teve uma progressão em termos de funções, que exigiam competências mais superiores, em termos de análise de documentos, preparar notas para decisores, para um certo nível de investigação. “Encontrei uma maior realização” e nessa altura, em 2004 pensou em voltar à Universidade e completar uma licenciatura que não tinha completado que era Relações Internacionais, na altura concorri à Universidade de Coimbra e frequentou o curso. Enquanto trabalhava em simultâneo.

“Demorei muito tempo a descobrir qual seria a minha vocação de trabalho, e Relações Internacionais completava-me.”

Na Câmara Municipal do Porto acabou por trabalhar lá 14,15 anos, em dois departamentos diferentes, mas sempre ao serviço da Presidência, trabalhar na área do protocolo. Áreas de Relações Internacionais e durante dois anos “estive também como Assistente do então Presidente da Câmara, Rui Rio, dois anos a trabalhar diretamente com o Presidente.”

“Neste longo percurso de 15 anos também prestei funções para um projeto, um serviço que se chamava o então Europe Direct Porto. E entre as funções a que estava acometida, uma delas era ir às escolas, universidades, falar um bocado sobre as instituições sobre a criação daquilo que hoje temos com a União Europeia, o seu propósito, a missão, etc.”

Fez este trabalho durante mais ou menos cinco anos, o que lhe permitiu, por um lado, ir às escolas da cidade e conhecê-las quase todas, mas também de certa maneira dar formação que é uma outra área que aprecia bastante, “e que que acho que me ajudou mais tarde também a desenvolver algumas competências”. Em Termos de comunicar em termos de falar com vários tipos de públicos. Entre outras coisas, ia também a espaços como estabelecimentos prisionais. Ou contactar com turmas com com deficiências físicas, etc. “E acho que isso nos dá uma certa abertura também para podermos ter formas de perceber e ver o mundo.”

Posto isto, e não obstante, todo este este processo, continuava a sentir uma espécie de necessidade, de desenvolvimento profissional, pessoal. E sempre “senti” que o caminho, as opções seria um bocadinho também por ter experiência fora de Portugal.

Isto fez com que em 2006, na qual já estava há seis anos na Câmara do Porto,começou a ver as oportunidades de trabalho fora de Portugal, e percebeu que havia uma figura do destacamento, eram e ainda existem, os peritos nacionais destacados nas instituições europeias. “Concorri a esta função em 2006, e conseguiu o lugar nesse mesmo ano.”

Esteve nesta figura de perito nacional destacado, no gabinete de imprensa do Eurostat, que é serviço de Estatísticas da União Europeia, “em 2006 tinha 33 anos e embarquei na minha primeira grande experiência Internacional.”

Saiu do Porto com a pequena mala, e foi viver para o Luxemburgo, “era um contrato interessante, de 4 anos”. E ficou lá um ano. “Foi uma experiência boa”, nem sempre fácil, porque, é a primeira experiência onde “fui só, sem família, etc, e ao fim de um ano, fiquei grávida e optei por voltar a Portugal.” Foi uma “opção um bocadinho antecipada, não perdi o meu vínculo com a minha instituição de origem, que é a Câmara do Porto e voltei.”

Mas não voltou às suas antigas funções, foi para outro posto, porque entretanto concorreu a uma outra posição que abriu, e esta posição para uma certa “senioridade”. “Estamos a falar de chefe do Departamento de Turismo, da Câmara Municipal do Porto, no ano de 2007.”

Deixou o Luxemburgo em direção à Cidade do Porto, grávida com alguns meses e começou uma interessante, muito “desafiante posição” como chefe de serviço durante três anos. Um serviço com 29 pessoas, com muitas exigências em termos de gestão de recursos humanos, em termos de gestão de correspondência, supervisão dos espaços de atendimento. Tinha então três espaços, estamos a falar dos anos 2007/2010, em que a cidade tinha imenso potencial, mas ainda não tinha uma oferta de serviços nem de produtos organizadas.

Foi aquela fase, em que “eu penso que se criaram muitas bases para o que hoje temos.” Começaram a trabalhar com uma equipa de várias pessoas. Na tentativa de organizar um pouco os serviços que existiam e os que ainda faltavam; as companhias aéreas de baixo custo começaram a encetar contactos com a Câmara para ver as possibilidades de incentivos para entrarem nesse mercado e, portanto, “acho que foram três anos de uma experiência difícil, não vou negar, mas onde eu acho que realmente cresci bastante, como pessoa, e como profissional”. Sentia que, quando se tem vontade de aprender e de progredir, é possível, mas isso implica obviamente um esforço muito grande em termos familiares, em termos de tempo, “mas continuo a achar que esse é realmente o caminho. Completei esta Comissão de 3 anos, findo os 3 anos, em 2010, cessou a minha comissão de serviço, é assim que são as comissões no serviço Público, e voltei para o meu serviço de origem.” Neste caso já era o serviço de Relações Públicas e Relações Internacionais, mas de certa maneira, não fazia assim muito sentido porque sentia que estava um bocadinho frustrada por voltar a sentir: um retrocesso.”

Começou a ver as hipóteses de trabalho outra vez fora de Portugal, já tinha um filho muito pequeno, ainda bebé , e tinha “a minha vida um bocado mais limitada, mas começei por fazer pequenas comissões.” Confessa Raquel. Às vezes algumas não remuneradas, “tirei licenças sem vencimento, de dois meses, depois de seis meses, e andei um bocadinho por países interessantes mas difíceis”.

Fez um estágio em Banguecoque, nas Nações Unidas, não remunerado, mais uma vez na área da Comunicação Estratégica. “Onde encontrei um amigo, um excelente amigo que ainda hoje mantenho, o Doutor Ricardo Rodrigues.” Depois em 2011 e 2013 concorreu a outro programa, este já financiado com uma bolsa, para um programa para agentes locais de várias partes do mundo, financiado pelo Governo do Japão e, “fui 6 meses para a cidade de Nagasaki, que tem um acordo de geminação com o Porto e fiquei em contexto de aprendizagem em contexto de trabalho”, e também foi uma outra função que permitiu alargar os horizontes e perceber que gostava bastante de serviço externo, mas depois há aquela dicotomia entre a família e trabalho precário. “E como é que se gere a saída do nosso país sobretudo no plano familiar?”

Em 2013 começou a pensar que estava a aproximar-se um pouco a idade. Os 40 anos, e queria mesmo ter uma situação de trabalho mais regular em termos de serviço Internacional, porque estas opções de curta duração, eram um pouco sempre precárias “e no fundo eu acabava por voltar à Câmara do Porto. Comecei a olhar para as ofertas. Fossem nas Nações Unidas fossem na União Europeia, porque entendia que seriam talvez as possibilidades mais estáveis.”

Concorreu a um concurso que era exatamente para constituir bolsa de recrutamento para o serviço externo, no Serviço de Ação Externa da União Europeia. Um concurso que abriu em 2007 a 2008, fez as provas. Este serviço está baseado em Bruxelas, mas na realidade é para desempenho de funções em países terceiros, para países que não pertencem à União Europeia.

É um serviço muito específico e no qual presta funções, atualmente. Mas o caminho que a levou até aqui foi longo. Concorreu em 2007/2008. Os resultados foram positivos, “e fiquei selecionada, mas como referi, tinha nessa altura um filho com 1 ano de idade e, fiquei com um dilema de sair com uma criança pequena ou ficar mais tempo em Portugal, tomei a decisão de continuar em Portugal e fui um adiando os concursos.”

Deixou o lugar em suspenso, mas este género de concursos têm prazo de validade. As listas de candidatos são válidas pelo prazo de 10 anos, como tinha entrado em 2008 e o fim do prazo estava a chegar, pensou que era melhor tomar o lugar na lista, sob pena de perder e depois ter de concorrer novamente. “As provas são difíceis e concorrem muitíssimos candidatos, e cada vez mais.

“Comecei a sentir essa pressão e a partir de 2014/1015, comecei a ver, as ofertas com vários serviços, no serviço externo da União Europeia, aquilo que “nós designamos de delegações da União Europeia que existem 134 delegações espalhadas pelo mundo todo”. Sempre países fora do espaço da União Europeia, e que correspondem mais ou menos ao que “designamos por embaixadas.”

É um serviço onde atualmente tem contrato. O Serviço de Ação Externa da União Europeia, onde chegou em 2017.

Voltando um bocadinho atrás, em 2017, “tive uma experiência de um ano a trabalhar para as Nações Unidas, também com um contrato precário, ao que designamos de um contrato de duração de 1 ano, “mas foi um ano em que gosto de referir, porque foi extremamente interessante um ano em que estive na América Latina, México e no Equador a trabalhar numa das maiores conferências internacionais, com mais de 30 000 delegados inscritos.”

Foi a Conferência da ONU HABITAT. Basicamente onde foram discutidos nos imensos tópicos relacionados com a agenda urbana.

Chegado novembro, dezembro de 2016, terminou esta experiência e “uma vez mais lá me esperava o regresso à Câmara do Porto”. A vontade de andar a trabalhar pelo mundo estava dentro das “minhas vontades, mas por vezes não é possível”.

“Por um lado ótimo queira voltar para casa, perto da família, mas por outro lado, era o percurso profissional que confesso, já não preenchia, nem em termos de remuneração, que era cada vez menos atrativo e eu estava bastante certa que esse era um percurso. E nesse Natal em concreto, fiz uma procura muito intensa das ofertas em questão para trabalhar nestas delegações da União Europeia e uma das que concorri foi uma delegação da União Europeia em Angola.

Efetivamente, no ano seguinte, em 2017, depois de passar por processos, entrevistas, seleção apertada, provas médicas que se sucederam, as provas feitas em 2007, “assinei o meu primeiro contrato com a direção na altura designada por DEVCO, Desenvolvimento e Cooperação da Comissão Europeia.

“Fui trabalhar na delegação da União Europeia em Angola”. Foi para Luanda, “nunca tinha estado em Angola, e não tinha qualquer ligação familiar. Assinei o contrato em Julho e no dia 2 de Agosto, ainda antes das eleições gerais para a Presidência da República aterrei, na cidade de Luanda. Um país completamente novo para mim.”

Ficou por lá 5 anos, em permanência a viver e trabalhar, foi um período muito marcante em termos pessoais em termos profissionais. Entre 2017 e 2022. “Estive a trabalhar numa altura em que tivemos um Covid, “estava tudo um bocadinho virado do avesso e penso que nunca esquecerei essa experiência.”

Essa função em Angola, basicamente pode designar-se por gestão de programas. Foi o que “fiz e o que ainda hoje continuo a fazer ao serviço da União Europeia, a gerir programas de cooperação.” Fundos que estão dedicados para estabelecer cooperação, apoiar o desenvolvimento, fomentar parcerias com países externos ou países terceiros da União Europeia.

Existem acordos entre a União Europeia e Angola, e o serviço, como gestores de programas, “temos que proceder à tramitação dos contratos, organizar os processos para sua preparação a sua assinatura e depois a fazer a monitorização in loco.”

Estes programas de cooperação em determinadas áreas em Angola, “calhou-me um portfólio bastante interessante, mas também complexo e, fruto da organização da equipa, estive a trabalhar nas áreas de educação, mas também de género e de direitos humanos. Foram desafiantes e complexos, tendo em conta a situação em que hoje vemos como certos os direitos humanos, os direitos das Mulheres têm sido conquistados, mas também continuam a sentir bastantes desafios.”

Em 2022, “aterrei na delegação onde estou hoje que a delegação da União Europeia no Afeganistão”. Portanto desde 2022 “tenho estado a testar funções nesta delegação, também nas áreas do género e direitos humanos”. A sociedade civil, como sabemos, são áreas complexas, mais ainda pela situação em que o país está desde Agosto de 2021. Altura em que os Talibãs ocuparam o poder.

Mas de facto “tem sido esse o trabalho”. É uma posição que tem um caráter híbrido, por força da situação no país, “estamos em permanência a residir e a trabalhar no país. Fazemos deslocações e vamos ao país e ficamos por períodos longos. O que já aconteceu, neste momento está em Bruxelas porque “estamos naquilo que eles chamam uma delegação em evacuação, deslocada.”

Desde 2022 “estou neste posto e nesta delegação” está a gostar, mas é uma área, e um contexto muito diferente, e mais desafiante, de certa maneira que motiva um um pouco menos, porque não permite, por exemplo, ter contacto com os beneficiários dos projetos, como por exemplo em Angola, conseguia viajar ir às províncias distantes e conseguia falar com as pessoas e a situação no país.

“Temos muito mais dificuldade em fazer essas deslocações, já esteve 2 vezes na capital em Cabul. Mas pese embora a vontade e a curiosidade ainda não consegui viajar para as províncias onde temos uma parte dos projetos.”

Está a gostar, mas obviamente há momentos extremamente difíceis, é uma delegação em que normalmente os meus colegas que me antecederam nunca ficaram muito mais 2 anos. “Estou no meu segundo ano e, já concorreu também outro lugar. Este ano, em Setembro foi colocada numa outra delegação noutro país, no Sudão. Que também é um país que enfrenta uma crise.

“Penso que comecei a trabalhar em países fáceis ou relativamente fáceis, chamemos-lhe assim, e nos últimos anos tenho vindo a ser colocada em países um pouco mais desafiantes. Tem sido um percurso que tem vindo a ser construído”, não é linear. “Saí de Portugal, voltei a Portugal e hoje estou fora do país. Tem sido um caminho com altos e baixos. Estes caminhos dos emigrantes ou expatriados ou que lhe queiramos chamar.”

Lígia Mourão
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