Artigo Exclusivo para subscritores
Falar de poesia também é falar de fado,
fado da vida, com sabor a mar,
onde as palavras buliçosas se vão troteando.
Falar de poesia, por vezes, também é falar de rima,
onde os sons se embalam na mesma sinfonia.
Mas hoje não vamos falar de iam e viam.
Sou eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles e elas,
quem decide é o verbo e a pessoa que se conjuga.
Há quem as saboreie e as ache desenxabidas,
que de filinha em filinhas pelos versos ecoam.
Por mim deixava-as ao destino, que o sol lhes desse calor
e o oxigénio o alimento do dia.
Cantam por aqui e por aí,
andam nas bocas do mundo
e nas páginas plantadas,
mas a colheita este ano não lhe encheu o coração.
Embriagados enamorados das palavras rimadas,
parecem jargões e heraldos, mas nem o adjetivo faz jus ao seu sentido.
Nada as consola, nem mesmo os remédios caseiros,
que a mestria dos mais sábios aprimorou,
curando as maleitas da fonética.
As modas vão mudando e os sons também,
do tradicional tambor a memória já se perdeu.
De som em som vão saltando, como um pardal na primavera,
tirando da algibeira um punhado de amor.
Lígia Mourão
Antologia “entre o sono e o sonho” – Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea – Vol XII – Tomo II




