Tereza Carvalho, é uma fadista transmontana, que fez todo o seu percurso escolar e formação académica em Portugal. Aos doze anos foi-lhe apresentada a guitarra e desafiada a cantar fado. Foi o seu professor na escola que a espicaçou. Mas Tereza já cantava fado, apenas desconhecia as cordas da guitarra. O fado era acompanhado com os estalar da lenha da lareira, onde passava os serões com a avô Izilda, que também escrevia as letras para Tereza cantar.

“Não é fado Lisboeta” revela a fadista, mas o “Fado é Portugal”, puxa a sardinha à sua brasa esta transmontana. Tinha por hábito em casa, à noite, ver a novela, rezar o terço e cantar fado que “Aquece a Alma”, dizem alguns autores. E é precisamente com alma que Tereza se apresenta ao público. Vem-lhe de dentro como um vulcão prestes a explodir e canta-o como se fosse sempre a última vez.
Tereza Carvalho, nasceu numa pequena aldeia em Trás-os-Montes, que se chama Romeu, concelho de Mirandela. Teve uma educação muito restrita, muito fechada. Começou a poder sair de casa aos 18 anos. Até ali podia ir a brincar, sim, mas quando o Sol se recolhia, a menina tinha de estar em casa.
Como passava muito tempo em casa, tinha que se entreter com algum passa tempo. No presente caso foi algo de nostalgia: o gira-discos, assim como os discos, que pertenciam ao seu Pai. Encontrou Vida e música de Amália Rodrigues, de Teresa Tarouca e Carlos do Carmo. Foi desta maneira que começou a entrar mais no mundo da música. Porém – a ouvir outro tipo de “fado”, diferente daquele que cantava à avó em frente à lareira.
Na escola, quando se chegava à lição 100 fazia-se uma festa. Aos 12 anos o seu professor de educação física perguntou aos alunos o que queriam fazer?
Pegou na guitarra e desafiou os alunos a cantar umas musiquinhas. Quando ouvi “Eu vou buscar a minha guitarra”, o meu coração e minha alma ficaram a tremer de ansiedade. No entanto consegui me recompor e perguntei ao professor, se sabia tocar o fado Carmencita? Muito sério perguntou-me: “E tu sabes cantar o Fado?!”
“Não sei se sei cantar o fado, mas eu gosto muito de fado. A guitarra entoou e a partir daquele momento a começou a acompanhar. Foi falar com os meus pais e pedir autorização para integrar num grupo musical que se chamava Fado Nostrum, composto por vários elementos, bem mais velhos que eu,” diz a artista.
Aprendeu muita Sabedoria do Fado e da Vida: estar em palco, cantar o fado, da humildade, de saber interpretar o público e foi a partir dos 12 anos que começou a cantar para mais pessoas, com esse grupo. Os pais acompanhavam-na sempre, depois aos 18 anos, teve uma proposta de um grupo musical perto de Macedo de Cavaleiros, de Mogadouro, que a convidou para integrar o grupo de música de baile e aceitou, mas fez uma contraproposta, aceitaria se eles vendessem o fado para as associações e organizações de espetáculos, ou seja a intenção era fazer a primeira parte de fado e depois a música popular portuguesa.

Aceitaram e andou durante uns anos a cantar fado e música popular, que também lhe deu uma maior abertura e conhecimento com o público e de músicas e artistas e com uma postura também mais madura. Estava quase “feita” uma fadista.
Não é fácil cantar ao vivo. O público nem sempre é recetivo e Tereza tem de estar sempre atenta e por vezes tem de mudar de “estratégia” para sentir a empatia com o público. E por vezes à última hora mudar o repertório, o que obriga também os músicos, que a acompanham, a estarem preparados para essas mudanças.
O salto para Paris em 2014
Foi para França com o namorado, tiveram uma filha, o casamento desfez-se, mas a sua carreira como fadista começou a dar nas vistas. A responsabilidade de cantar fado é muita, pois vai ao âmago da cultura portuguesa. Até se costuma dizer que não se canta, sente-se!
E Tereza sabe que a responsabilidade é a mesma. A interpretação é que é diferente. Porque quando canta nas comunidades em França, na Suíça, na Holanda ou em Espanha, respeita, ouve e interpreta de uma maneira diferente. Por exemplo, os franceses que vão ver e ouvir as nossas noites de fado, no final, dizem-me: não percebi nada do que você disse, mas eu senti muita coisa e acho que o fado é muito bom. E isso é muito bom, o fado é isso mesmo. Não se fala, não se explica, simplesmente sente-se.!
Cantar o Fado que vem de Portugal ou cantar o Fado quem está em França
Segundo a fadista Tereza, considera que o público no estrangeiro tem uma predileção de tudo o que vem de Lisboa, considerado pelos emigrantes como sendo o melhor e mais viável. “Nós somos sempre vistos um pouco “inferiores”, o que nos deixa um pouco triste. Para mim, o Fado é Portugal! Defende Tereza. Mas são estigmas que se vão ultrapassando, neste momento vive entre Portugal e França.
O último tema: “Portugal é o Mundo”, é uma canção sobre identidade, saudade e orgulho, porque Portugal pode ser pequeno em território, mas é gigante na influência e no Coração das pessoas. “Portugal é o Mundo”, é uma reflexão sobre a dimensão cultural do nosso país, da nossa história, da diáspora e a capacidade de adaptação como nós imigrantes, fazem de Portugal uma presença global e a música procura traduzir essa herança numa linguagem contemporânea, mas principalmente é uma música com identidade, saudades e orgulho. “Para mim, onde há um português, há um pedaço de Portugal e isso faz de Portugal também o mundo!”
Uma Mensagem
“Nós somos imensidão também, principalmente no que toca à nossa alma, aos nossos sonhos e àquilo que nem podemos imaginar que somos capazes de fazer. Por mais difícil que seja, nunca desistam de vocês nem dos vossos sonhos,” diz a fadista Tereza Carvalho.
Segue um poema-ensaio de Isalita Pereira, para terminar esta partitura:
Silêncio canta-se o Fado

A Poesia do Fado em Portugal –
Não existe outra igual.
Percorre todo o Mundo –
Com seu Saber profundo.
Guitarra a tocar –
Fado a entoar.
Xaile Preto é Saudade –
Melancolia da Fatalidade.
Bater do Coração –
Chora da Recordação.
Guitarra Portuguesa Harmonia –
Fado Lusitano Poesia.
Fado –
Xaile Preto em Lisboa. Capa Negra em Coimbra. Guitarras a tocar – Fadistas a cantar. Alma Lusitana canta da Saudade e Fatalidade. E o Mundo para em Silêncio para ouvir. Poética Cena como não existe outra igual. Poemas transformados em Música. Guitarras e Vozes escrevem a História do Fado. Da Severa à Diva do Fado, Amália Rodrigues – Caminho Lusitano que deixou suas Históricas Pegadas, que novas Gerações decidiram continuar. A 27 de Novembro de 2011 a UNESCO o classificou Património Cultural Imaterial da Humanidade, dado que se revelou um Carisma excecional e único da Arte e um Espelho da Cultura Portuguesa. É Poesia cantada – que toca na Alma, Mente e no Coração. Convida a viajar para a Esfera do Destino, que ninguém consegue influenciar, porque pertence à Saudade que procura Novos Mundos para além da Linha do Horizonte. Faceta, que talvez seja um dos Segredos do Ser da Alma Lusitana. A Sina que não desvenda o Futuro, mas conta do Passado. No Presente resguarda-se com o Xaile Preto e – “Silêncio canta-se o Fado.”
A Fadista
Nasci para cantar o Fado.
O Caminho não escolhi.
Nasci para cantar o Fado.
A Saudade ser Tua senti.
Um dia –
Uma Guitarra ouvi tocar:
“És cantora e Artista.
Teu Destino é seres Fadista!”
De Coração e Alma me entreguei.
Tristes Lágrimas chorei.
Não prometes ser fiel.
A nenhuma ofereces o Anel.
Andas sempre a conquistar.
Para a Saudade salvar.
Com nossas Vozes desejas viver.
Porque eterno queres ser.
Mais uma Fadista nasceu.
Meu Fado ao Fado me deu.
Jamais vou ser tua.
Porque Deus ao Mundo te ofereceu.
O Xaile Preto não é um Véu:
“Sou Fadista!”, rezo ao Céu.
Fim
O Presente Ensaio-Poema é a Introdução ao Projeto “Silencioso Eco das Palavras”, que começa dia 16 de Março e termina dia 29, Domingo de Ramos. Um Poético Roteiro, que pretende dedicar os próximos Textos, Poemas, assim como singulares Entrevistas ao Dia Mundial da Poesia. Uma Viagem, que convida a conhecer Culturais Guardiões da Arte e História – como é o Fado. Deixe-se surpreender com a Beleza do Mistério de Palavras entre Inspiração e Realidade.
Boa Viagem
Autoria: Lígia Mourão com parceria de Isalita Pereira




