Falar do Café de Santa Cruz em Coimbra é recuar no tempo, ir ao encontro do primeiro Rei de Portugal e mergulhar em 1131, ano em que se dá início da construção do Mosteiro que deu o nome ao café. O Jornal Comunidade Lusófonas esteve a falar com um dos três sócios de Santa Cruz, o Senhor Vítor Sá Marques, que não poupou nas palavras e nos contou de fio a pavio as vivências do Café. Lugar icónico da cidade dos estudantes, reencontro com os Conimbricenses e paragem obrigatória de turistas franceses, espanhóis e outras nacionalidades que veem nas paredes do café a História ali vivida. “Somos três sócios neste momento, mas sou a pessoa responsável”, diz com orgulho Vítor Sá Marques.
Começou por contar a História do café que foi construído em 1530, para ser a Igreja paroquial da freguesia de Santa Cruz, que se vê com maior evidência nas fotografias e noutros registos a Igreja de Santa Cruz, da nobreza e de alguma burguesia que existia na cidade. É o espaço consagrado às pessoas que viviam nas freguesias e funcionou como igreja desde 1530 até 1830.
Com a revolução liberal e a expulsão das obras religiosas em 1800, na década de 30 do século XIX, o espaço foi dessacralizado. O Senhor Vítor não sabe precisar a data, mas em 1896 havia referências ao edifício como sendo uma tasca. Está tudo registado nos jornais desse ano. Não se sabe se era ironia, por ser algum estabelecimento comercial que existia lá, algum café, botequim, ou se era tasca no sentido negativo da palavra, porque o edifício estava muito mal cuidado, registo nas notícias dos jornais da época, quando os fundadores do café decidiram pegar naquele edifício para o transformar num café restaurante.
A recuperação demorou muitos anos, e com muitas vicissitudes pelo caminho, porque havia jornais que apoiavam a iniciativa da transformação daquele espaço em café restaurante e outros eram literalmente contra.
Desde 1896 até 1920, o edifício foi ocupado por atividades comerciais. A última atividade foi uma loja de materiais de construção, mas antes disso tinha sido uma agência funerária, um posto dos Correios, uma esquadra de polícia. Foi uma casa de habitação, teve um conjunto de vivências que durou pelo menos duas décadas e meia.
Antes de 1896, o espaço apresentava um estado de degradação brutal. Desde 1834 até 1923, o café teve duas fachadas completamente distintas. A fachada original era uma igreja, até pelo menos 1850.
Vítor Sá Marques, pensa que o estilo presente é Manuelino, tendo sido depositada a primeira pedra em 1131, mas D. Manuel, no início do século XVI, quando passou pela cidade e viu os dois primeiros túmulos dos Reis de Portugal, achou que não eram dignos dos fundadores da nossa nação, ou do nosso Reino, e decidiu reconstruir todo o Mosteiro de Santa Cruz com uma Igreja e também com um refeitório.
O refeitório e a própria Igreja, têm estilos muito parecidos, estilo manuelino, mas há quem diga que é Gótico. “Eu prefiro dizer que é Manuelino, porque isso reporta para o nosso rei e para aquilo que ele fez. Enquanto o gótico é geral, encontramos pela Europa. O Manuelino é uma coisa muito própria e muito portuguesa.” salienta Vítor Sá Marques.
Houve alterações de várias fachadas ao longo dos anos, desde 1850 até 1923, “e que temos hoje é aquela que foi feita em 1920.” Desde 1923 até 1974, Alexandre Marques, Marcelino Pestana e Ronaldo, estiveram à frente do café.
Depois do 25 de Abril, a história do café vem com o nome dos fundadores, Mário Pais, Adriano Lucas e Adriano Ferreira da Cunha, que estiveram na Fundação em 1923 e depois a sua família até 1974. Não se sabe precisar as datas nem nenhum documento que comprove a saída da sociedade e a “entrada do meu pai”, refere Vítor.
“O meu pai em Maio de 1975 já estava no café, porque encontrei documentos assinados por ele para o Ministério da Cultura da altura, porque o edifício pertence ao Estado e foi elevado à categoria de monumento nacional em Outubro de 1921 e as alterações que fizeram foram de acordo com a legislação ou os regulamentos que existiam naquela altura. Aquilo que nós temos hoje no seu interior, a abóbada original da Igreja de São João de Santa Cruz, construída em 1530, nada foi mexido durante aquelas obras de 1920 e 1921 e 1922.”
Após a revolução, “o meu pai acabou por assumir a gerência do café Santa Cruz. Fez uma sociedade em 1985 com o Marcelino Pestana e Arnaldo Gonçalves. Que se mantiveram até cerca de 2004, altura em que houve a transferência para os filhos. Hoje, eu e o Paulo Gonçalves, que é filho do Arnaldo Gonçalves, somos, os seguidores do trabalho dos nossos pais.” Refere Vítor Sá Marques.
Os empregados tomaram o café logo a seguir à revolução, mas as coisas acabaram por não correr bem e o seu pai, que tinha experiência no setor – vieram de Moçambique, por causa da Independência das ex-colónias – e o seu pai andava à procura de um espaço para poder trabalhar e encontrou no café Santa Cruz esse local e deu continuidade à sua atividade que já desempenhava há 20 anos.
A Vida do café
Ao longo dos anos, nestes últimos 20 anos, Coimbra cresceu de uma forma brutal, como todas as outras. Tivemos a felicidade de ser reconhecidos como património da Humanidade em 2013 e os hábitos foram-se mudando.
Mas o que aconteceu em Coimbra “aconteceu em todas as cidades da nossa dimensão” desabafa Vítor. Já não há a tradição das pessoas saírem para irem lanchar, pelo menos ali naquela zona da cidade, já não há a tradição das pessoas se encontrarem ao final do dia para beber uma cerveja, um café ou um chá e para estarem ali um pouco na conversa, ou à noite, é algo que se vai perdendo. São outras gerações, as pessoas criam novos hábitos.
No café para dinamizar um pouco, “promovemos alguns eventos”, nomeadamente o Fado, às seis da tarde, durante a semana. Mais do que um espaço de chá, é um espaço de convívio, é um espaço de encontro e de debate de ideias. “Não quero que se torne num espaço turístico. Quero que o café seja um espaço de frequência pública, os nossos preços estão adequados a esta realidade, à realidade do meio onde estamos inseridos e à realidade ao meio local, que é o centro histórico”. E também à própria cidade.
Nós não podemos ter uma atitude como têm os cafés do Porto e de Lisboa, porque têm sempre muita gente, muitos turistas estrangeiros e acabam por se posicionar de uma forma diferente. Coimbra não está nesse patamar, nós teremos que conviver ao longo do ano com turistas nacionais, com turistas estrangeiros. E acima de tudo, com os Conimbricenses. “O que eu quero que é os Conimbricenses contem a história do seu próprio café. E isso tem acontecido ao longo destes últimos anos”.
Felizmente as pessoas identificam-se com o café e acima de tudo, conseguem transmitir aos filhos e aos netos a importância desse café nas suas vidas. Ou porque começaram a namorar, ou porque conheceram uma pessoa importante no café, ou porque fizeram a apresentação de um livro, ou porque está exposto uma pintura, uma fotografia que o pai tirou, portanto, essa ligação emocional ao café acaba por ser muito importante.
“Eu também tenho essa ligação emocional ao café. Também gosto das histórias de pessoas que passaram por ali. Temos oito livros publicados, sendo que seis são da nossa autoria e dois são de pessoas que foram de alguma forma importantes na história do café e decidimos lançar esses livros por nossa conta e risco. Vamos publicando sobre a História do café, temos muitos contributos de clientes, porque nos arranjam fotografias e histórias. E aquilo que eu sinto e que é importante é que as pessoas quando vão lá também pensem que estão a contribuir para a nossa história. Isso é mais do que uma atividade comercial. Nós vivemos com os clientes que vão lá. Agora, se nós conseguirmos assegurar que vai o avô, o pai e o filho, isso deixa-me extremamente satisfeito.” Pese embora tenhamos contacto com espanhóis, franceses e holandeses, de pessoas que estiveram no café há 20 e há 30 anos e que estão de volta a Coimbra e vão ao café Santa Cruz para matar saudades, não é uma ligação tão profunda como com os Conimbricenses. Eu quero que eles digam que aquele café, é o nosso café. Isso é que é importante.” Finaliza Vítor Sá Marques, com um sentido de responsabilidade que carrega na voz.




