Enquanto o Natal ilumina com luzes e alegria, a Páscoa é uma festa mais modesta e séria. Da Crucificação à Salvação encontra-se um caminho que requer silêncio e meditação. Nem sempre um pensar fácil. Porém – ensina a crer, que no meio do desespero acende-se uma luz de esperança.
“Quo vadis!” – Pergunta, que origina um pensar dual sobre religião e cinematografia. Uma lenda referente a São Pedro e um grande filme de Hollywood. Em ambas as versões surge a lenda, que pertence aos Atos de Pedro. Uma escrita no contexto apócrifo dos Apóstolos. Textos que não entraram, por designadas razões, no cânon bíblico, por não serem divinamente inspirados. Porém – muitas das lendas sobreviveram e influenciaram o pensar sobre, no presente caso, São Pedro e sua posição de primeiro
Bispo de Roma, a sabedoria e dignidade da autoridade máxima da Igreja Católica, assim como sobre a razão da escolhida esfera para a construção da Basílica de São Pedro.
Conta a lenda:
A perseguição aos cristãos em Roma por Nero, deu origem à Fuga de São Pedro para salvar a Fé e continuar a divulgar as Palavras de Deus. Deixou Roma e caminhava na famosa Via Ápia quando vê uma Luz, que se aproximava. Reconheceu Jesus ressuscitado e perguntou: “Domine, quo vadis?” – o que significa: “Senhor, para onde vais? / Senhor, aonde vais?” Jesus com a Cruz respondeu: “Romam vado iterum crucifi.” – “Vou a Roma para ser crucificado novamente.” São Pedro consciente da sua Missão para cumprir, voltou com coragem para Roma, a fim de ser a “Pedra” sobre qual a Fé seria edificada.
“Pois, também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja … .” (Versículo Mateus 16:18)
O nome Pedro conhece a sua origem no grego “Petros”, que significa “pedra / rocha”. Palavras que fundamentaram o seu primado e por conseguinte a sucessão apostólica:
Bispo de Roma, primeiro Papa.
Foi levado para o Circo Nero, onde sofreu a crucificação de cabeça para baixo, porque na sua humildade não se sentia digno de morrer como Jesus Cristo. Eis a razão para a Cruz Invertida. Após o seu sofrimento e morte foi sepultado na Colina Vaticana, onde hoje se encontra a Basílica de São Pedro em Roma, concretamente sob o principal Altar. Enquanto no local do milagre verifica-se a construção da pequena Igreja de Santa Maria in Palmis (também conhecida como Igreja do Domine Quo Vadis). “In Palmis” faz alusão às “Pegadas de Jesus Cristo”.
“Pegadas” – de uma lenda, que simbolizam também a significante faceta das “Pegadas em caminhos difíceis” na História da Humanidade. Quantas vezes a vida enfrenta situações, que fazem o Ser Humano preferir “fugir”. Porém – não é solução, por muito sacrifício que exija. Os problemas ou as preocupações ficam e aumentam se forem resultado de negligência ou ignorância. São Pedro ensina, que precisamos de cumprir as Missões, que a vida impõe. Evidentemente que existem situações, cuja existência não se deseja, apesar do mundo continuar a escrever páginas repletas de lágrimas. Os Heróis e as Heroínas da História da Humanidade sacrificaram-se para melhorar o nosso planeta.
Os capítulos sobre a Resistência em tempos de ditadura realçam bem, o que significa perder a vida no contexto de lutas.
Ao longo da última semana surgiram ensaios sobre o Muro de Berlim. Quantas pessoas chegaram ao muro e regressaram a casa. Quantos testemunhos desconhecidos. Os conhecidos falam por si. Eis a razão para o apresentado tema no dia da Sexta-feira Santa. Recordar, que recuar nem sempre é solução. Precaução sim – mas desistência é deixar o Mal vencer.
O Quadro “Domine, quo vadis?” de Annibale Carracci – obra prima que se encontra em Londres na National Gallery – transmite a angústia e o acordar entre resignação e consciência, para se reconhecer, que viver é recordar e caminhar.
A Fé da Salvação por intermédio da Crucificação é um forte símbolo para a vida com seus “arbustos repletos de espinhos, que requerem coragem, a fim de rosas conseguirem florir”. Crente ou não-crente o dia a dia é desafiante e requer confiança no saber, que seja qual for o escolhido caminho, somente se conhece o que nos espera no fim da “Estrada”, se a pessoa continuar a caminhar.
A apresentada mensagem indica o contexto de ligação com a emigração: Desde a primeira geração até à nova vaga de emigrantes surgiu e surge sempre a pergunta: “Para onde vai/vais?”. As respostas, que se descrevem da amargura à alegria, revelam-se a nível nacional ou internacional: outra terra, um diferente país ou até mesmo a “aventura” de deixar o continente para procurar nova vida em terras longínquas. Nem sempre é uma viagem bem-sucedida. Sonha-se com roseiras e encontra-se espinhos. O lusodescendente luta entre duas culturas, para conseguir a consolidação da sua identidade. Significa, que é uma luta por vezes em “terras de ninguém”, porque é estrangeiro no país de acolhimento, mas ao mesmo tempo cidadão da nação onde se encontra seu berço. Na Pátria dos pais muitas vezes estrangeiro, porque nasceu além- fronteiras. Resta a pergunta: “Emigrante para onde vais?” – Ficar ou regressar, ficar ou emigrar – a procura de uma vida melhor é sempre a pergunta referente à direção do escolhido caminho. Por conseguinte, não é uma pergunta somente religiosa, mas sim mais atual do que por vezes se pensa. É uma pergunta da Vida para a Vida.
Não precisamos de ser heróis da história.
Precisamos de coragem para conquistar a vitória.
O mal seduz com a facilidade da desistência.
O bem convence a esperança com a resistência.
Roseiras requerem precaução.
Deixar fé e coragem seguir o coração.
Mesmo que lágrimas queiram chorar.
O que conta para a Vida é caminhar.
Boa Viagem na Estrada da Vida.
Sagrada Páscoa com crente luz e abençoado folar.
Isalita Pereira
Historiadora-Poeta




