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Sexta-feira - 17 Abril 2026

ESPECIAL EXCLUSIVO: Exposição conjunta no Panteão Nacional, Nelson Ferreira e Paula Rego – o expoente máximo da arte!

Destaques

Vai abrir no dia 22 de Outubro de 2026, no Panteão Nacional, uma exposição conjunta de Paula Rego e Nelson Ferreira. Vai ser um momento único, onde duas técnicas e formas de pintar vão dialogar. Nelson Ferreira e Paula Rego frente a frente, até 21 de Fevereiro de 2027, numa homenagem ao romance O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós. Curadoria de Emília Ferreira, com o apoio da Casa das Histórias Paula Rego.

Algo de novo se vai passar na forma de pintar e de ver a pintura no espaço icónico do Panteão Nacional em Lisboa. Nelson Ferreira é um pintor radicado em Londres há mais de metade da sua vida; é luso-britânico. Veio quebrar e trazer novas formas de pintar e de ver a pintura.

Uma Visão no Coração da Indonésia

Yuri Chernikov – Nelson Ferreira a pintar nos Templos na Indonésia


A história do método que Nelson Ferreira vai apresentar no Panteão começa longe de Portugal – no interior do Templo de Sewu, o segundo maior templo budista da Indonésia. Foi aí, na câmara principal, que algo aconteceu ao artista que dificilmente se enquadra numa explicação racional.
«Foi como um flash de informação que me veio em fração de segundos», recorda. Num intervalo de um segundo, talvez um segundo e meio, viu cerca de 10 imagens a alta velocidade, visualizações de pinturas de aspeto prateado de templos pintados à noite. Não as conseguiu reter com nitidez, mas ficou com o tema e, sobretudo, com a energia que delas emanava.

Quando chegou a Londres, todas as manhãs costumava escrever três páginas de tudo o que lhe viesse à mente, sem qualquer tipo de censura: exercícios de um livro que se chama O Caminho do Artista. Quando releu esses textos meses mais tarde (porque o objetivo é escrever e depois não ler durante algum tempo, até esquecer tudo), estava lá descrita uma nova técnica de pintura. Esta técnica é feita sem tinta, criada à base de platina e de ingredientes secretos, em que não há pigmentos, mas conseguem-se ver as cores e as formas de alguns ângulos, tal como se tivesse tinta.

Chamou a esta técnica PlatiGleam, que em inglês significa «Platinum that Gleams» – platina que fulgura. Só quem tiver uma luz, «quem for fonte de luz», é que consegue ver a imagem.

De regresso a Portugal, sem ter partilhado a experiência com ninguém, o Dr. Joaquim Ruivo, então diretor do Mosteiro da Batalha, propôs-lhe uma exposição no segundo monumento mais visitado do país. Nelson aceitou — e foi na preparação dessa mostra que emergiram, em 2023, as primeiras pinturas em técnica PlatiGleam.

Yuri Chernikov – O pintor durante a sua residência artística no Mosteira da Batalha


A exposição «Caligem», na Batalha, recebeu mais de 127 mil visitantes, tornando-se a segunda exposição mais visitada do artista até à data. A partir daí, os convites multiplicaram-se por templos Património da Humanidade da UNESCO em todo o mundo, desde Angkor Wat, no Camboja, ao Nepal. Surpreendentemente, a então diretora do templo de Borobudur – o maior templo budista do mundo, na Indonésia – convidou Nelson a pintar também o templo de Sewu, onde o artista tinha visto as imagens das pinturas. Tudo isto desembocou na grande exposição do Nelson em Borobudur, em 2025. Esta foi a primeira mostra individual de sempre de um pintor nos 1200 anos do templo.

Yuri Chernikov – A abertura da primeira exposição individual de sempre do Templo de Borobudur.

Entre a Técnica e o Mistério

Nelson Ferreira é, antes de tudo, um pintor de formação clássica. Os seus referentes são os mestres do século XV – os Primitivos Flamengos, os Painéis de São Vicente de Nuno Gonçalves – e a pintura académica francesa do século XIX. «Esses são os meus verdadeiros mestres. Estou sempre a aprender com a pintura clássica do passado», afirma.

As pinturas PlatiGleam não representam uma rutura com essa herança — são antes o seu prolongamento por vias inesperadas. A técnica, que o artista acredita ser inédita a nível mundial, foi primeiro visualizada dentro da geometria sagrada dos grandes templos antigos. «As civilizações milenares tinham um saber que entretanto esquecemos — ligado à proporção, ao ornamento, ao espaço. Entrar numa catedral gótica como o Mosteiro da Batalha e entrar numa igreja contemporânea que parece um pavilhão municipal não pode ser mais contrastante. Penso que foi também essa geometria do Templo de Sewu, com 1200 anos, que me inspirou.»

A conceção central da exposição no Panteão parte precisamente desta ideia: imagens que aparecem e desaparecem consoante o ângulo e a fonte de luz do observador. Uma alquimia visual. Uma transmutação entre o invisível e o visível.

Paula Rego: A Maior Narradora que Alguma Vez Vi

Para Nelson Ferreira, partilhar o Panteão Nacional com Paula Rego é simultaneamente uma honra e um desafio de proporções consideráveis.

Os dois conheceram-se em Londres, onde o artista privou com Lila Nunes – modelo e assistente de longa data de Paula Rego — em jantares em que a pintora também esteve presente. «Aprendi muito com a Dra. Paula sobre arte. Partilhámos muitas ideias em comum, incluindo um olhar crítico sobre determinada arte contemporânea», recorda.

Paula Rego era também uma amante da pintura clássica, do desenho, da arte, do saber desenhar tal como «eu me identifico e partilho dessa visão». E de repente expor no Panteão Nacional com a nossa maior pintora de sempre – sim, porque Paula Rego foi realmente a artista portuguesa com maior projeção internacional – é uma honra inusitada.

A admiração é profunda e sem ambiguidades: «Paula Rego é a maior pintora de narrativa que alguma vez vi. Ninguém contou uma história como ela.» Foi provavelmente a artista mais vista em toda a história da Tate. O artista ouviu de curadores britânicos que a retrospetiva da artista na Tate Britain, apresentada durante a pandemia, terá ultrapassado os 900 mil visitantes; quase o dobro do que a histórica exposição de Picasso e Matisse havia atraído anos antes. «Estava tudo esgotado. Em plena pandemia. É inacreditável.»

Ainda assim, Ferreira recusa a apropriação britânica da sua figura: «Ela era profundamente portuguesa. Os corpos, as histórias, os azulejos, as crianças na rua, os ambientes — tudo remete para Portugal. Para mim, foi a pintora mais portuguesa de todas.»

O Desafio do Diálogo

A componente que mais inquieta o artista não é a técnica, mas conceptual. O seu trabalho orbita questões óticas e percetivas da pintura; o de Paula Rego é, acima de tudo, narrativa. Dois territórios que raramente se sobrepõem.

«Vou ter de criar uma obra que entre em diálogo com as pinturas dela. Senão acho que não faz sentido. Penso que só funciona enquanto exposição de dois artistas se houver esse diálogo. E isso significa trabalhar numa linguagem que não é necessariamente natural em mim», admite, com frontalidade.

A escolha do tema une os dois mundos de forma orgânica: O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, escritor favorito de ambos. Rego foi leitora apaixonada do autor de Os Maias; Ferreira considera-o o seu maior referente em prosa. O romance, com os seus jogos de sombra e luz, poder e subterfúgio, corpo e culpa, oferece uma estrutura narrativa que PlatiGleam pode habitar de forma inédita: imagens que se revelam e se ocultam, tal como os segredos do Padre Amaro.

Alquimia do Desenho

Leandro Valente (Lee Fuzeta) – Imagem do filme Alquimia do Desenho


No dia 16 de Maio deverá ser a premiere de uma curta-metragem no Palácio Nacional da Ajuda, filmada no próprio Palácio durante a pandemia. A realização é de Leandro Valente e da Polímnia, musa da arte que aparece no filme. É a história de um artista (o Nelson Ferreira) que se encontra com a Musa da Pintura (a Polímnia) nos corredores do Palácio e faz o seu retrato usando técnicas do Renascimento.

Começa a desenhá-la com prata, depois com ouro e depois com platina. «A este filme chamei Alquimia do Desenho, exatamente porque é a transmutação dos metais menos nobres para os mais nobres. E esta ideia da alquimia também está presente na exposição que vou fazer no Panteão Nacional. A ideia é, através do uso da platina, que é o metal mais nobre de todos, criar imagens fulgurantes que, ao mesmo tempo, não se consigam ver de outros ângulos. É uma exposição em que as imagens aparecem e desaparecem, tal e qual como na alquimia: vamos ter a transmutação súbita entre o invisível e o indizível para aquilo que é visto e é dito.»

Uma Mensagem aos que Vêm a Seguir

Questionado sobre o conselho que deixaria às gerações mais novas, Nelson Ferreira não tem ilusões fáceis para oferecer.
«Não estamos em tempos fáceis para quem queira elevar a cultura a um nível superior, para quem quiser criar “civilização”. A única mensagem que tenho é que nunca desistam.» O artista, que emigrou para Londres em 2005, assiste com desconforto à transformação da cidade pós-Brexit: «está irreconhecível, está moribunda, devido a um extremo individualismo». Nelson cita um amigo, o designer Jorge Moita, para explicar a sua visão de fundo: «O Jorge diz que nós somos construtores de catedrais. Os que iniciavam a construção nunca veriam o resultado final, pois demorava pelo menos duas ou três gerações. Era tudo feito para as gerações vindouras.» Mas a batalha individual não chega. «A alienação do isolamento é muito pior do que qualquer obstáculo externo. A minha grande mensagem aos artistas mais jovens é: aprendam a trabalhar em grupo. É uma arte quase perdida. Em artes plásticas, quase nunca aparecem movimentos coletivistas. E nunca desistam, pois os entraves vão ser muitos, constantes, diários.»

Uma exposição, dois pintores, um monumento. E uma pergunta que ficará no ar – ou na luz – do Panteão: o que retemos na memória quando uma imagem desaparece?

Lígia Mourão
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