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Quinta-feira - 14 Maio 2026

Especial ONU News: Os influenciadores armados da Colômbia

Destaques

As redes sociais tornaram-se uma nova porta de entrada para grupos armados no país com vídeos que visam atrair adolescentes para o crime; cúmbia, reggaeton e corridos  são os ritmos mais usados; A ONU News conversou com dois professores de zonas de conflito para saber como autoridades colombianas estão a enfrentar o problema.

O filho de María* não voltou para casa um dia. “O meu filho saiu enquanto eu não estava em casa, pegou na mochila e foi embora. Mais tarde, descobri que ele havia sido recrutado”, diz ela.

Em busca de respostas, María verificou a conta do filho no Facebook. “Encontrei uma conversa com uma suposta namorada que lhe disse que estava a juntar-se a um grupo armado.”

TikTok e ténis caros

O caso do seu filho não é único. As redes sociais tornaram-se uma nova porta de entrada para grupos armados e organizações criminosas na Colômbia.

No TikTok, os vídeos retratam festas, dinheiro, ténis caros, e motos. O emoji de trevo verde – simbolizando a coca — está por toda parte, ao lado de ninjas com o rosto coberto representando guerrilheiros, pilhas de dinheiro e a bandeira colombiana.

Unicef/Ueslei Marcel

Do outro lado do ecrã estão adolescentes com chinelos desgastados, de famílias humildes, muitas vezes desestruturadas, que vivem nas regiões mais remotas da Colômbia.

“Eles são atraídos por motos de alta cilindrada. Eles são atraídos por ser alguém poderoso no território. E acreditam que a maneira de conseguir essas motos é juntarem-se aos grupos, o que também está intimamente ligado à produção de coca – eles veem isso como um caminho para a ascensão social”, explica Mário*, um professor de uma escola rural.

Conflito armado ressurgiu

Ele diz que alguns de seus alunos não conhecem nada além da violência quotidiana que se tornou normal em muitas áreas.

“Está a ficar um pouco mais complicado aqui agora porque o conflito armado está a começar a aparecer novamente”, diz um jovem de uma zona de conflito. “Eles começaram a disparar novamente e há medo de que nos recrutem”, acrescenta uma rapariga.

“O veículo blindado chegou à cidade, o conflito armado voltou e eles destruíram a casa de um colega – então tivemos que mudar para o ensino remoto.”

Uma Estratégia de Engano

Diana** é professora em Cauca há 25 anos e vivenciou essa realidade em primeira mão.

“Eles enfrentam a pobreza extrema, vivem em territórios onde o Estado não garante direitos básicos como saúde, educação ou proteção. Nesse vácuo, grupos armados apresentam-se como uma alternativa ilegítima, porém próxima, que oferece comida, dinheiro, reconhecimento – o que parece ser uma família”, explica ela.

“É uma estratégia de engano, onde imagens, músicas e vídeos pintam um quadro que pode parecer muito atraente para crianças que enfrentam profundas privações económicas, sociais e culturais”, afirma Carlos Alberto De La Torre, Representante Adjunto do Escritório do Alto Comissariado para os Direitos Humanos na Colômbia. “Elas recebem salários regulares, alimentação e até cirurgias estéticas para as raparigas.”

Trilha da luta armada

Cúmbia, reggaeton e corridos formam a trilha sonora que glorifica a luta armada. Guerrilheiros precisam apenas de um telemóvel para se tornarem influenciadores.

FAO/Laura Quinones

De acordo com um relatório recente da Jurisdição Especial para a Paz (JEP), 146 contas ou perfis de média social foram identificados na Colômbia como sendo usados por membros de grupos armados para promover o recrutamento, especialmente de menores.

“Essas mensagens tornam-se uma miragem de fuga. Os vídeos são criados com músicas que os jovens já ouvem — corridos mexicanos que falam sobre poder, armas, drogas”, diz a professora de Cauca. “Essas imagens e sons de camaradagem, armas, dinheiro, motos e carros de luxo criam uma narrativa aspiracional que seduz essas crianças vulneráveis. Esse modelo de recrutamento digital é uma ameaça silenciosa nesses territórios remotos”, conclui.

Mais de 100 denúncias em 2025

Cauca, onde Diana mora, é o departamento com maior risco de recrutamento cibernético.

As redes sociais são apenas parte de uma questão mais ampla. No primeiro trimestre de 2025, a ONU Direitos Humanos recebeu 118 denúncias de recrutamento de crianças e adolescentes, verificando 51 casos. Entre 2019 e 2024, pelo menos 1.206 menores foram vítimas de recrutamento, de acordo com o relatório do Secretário-Geral sobre crianças e conflitos armados. Somente em 2024, foram verificados 450 casos — um aumento de 64% em relação ao ano anterior.

O Escritório afirma que os números reais são muito maiores.

UNICEF/Lara

“Há uma subnotificação massiva” no país, e o número real é “muito maior”, porque muitas vezes não há mecanismos de denúncia ou porque o recrutamento é normalizado. “As famílias têm medo – os grupos armados dizem às raparigas que, se denunciarem, perderão o contato com os seus filhos e nunca mais os verão”, explica De La Torre.

Plantações de coca

Quando as famílias permanecem em silêncio, os professores costumam ser os primeiros a notar a ausência da criança. “Quando um aluno não aparece, o professor começa a fazer perguntas e liga para os pais.

Nessas regiões, é muito provável que tenham sido recrutados ou estejam trabalhando em plantações de coca. O professor investiga e, uma vez confirmado o recrutamento da criança, tenta acionar a resposta institucional. Mas o acesso é extremamente difícil”, diz Diana.

O recrutamento de crianças e adolescentes tem sido uma constante no conflito colombiano. A Comissão da Verdade estima que, entre 1990 e 2017, entre 27.101 e 40.828 crianças foram vítimas dessa forma de violência.

Acordo de paz

Há oito anos, o governo e a guerrilha das FARC-EP assinaram um acordo de paz, que levou a um progresso notável.

No entanto, a retirada das FARC de certas regiões criou um vácuo de poder, agora preenchido por outros grupos armados que disputam o controlo de economias ilícitas.

“Existem agora mais de oito conflitos armados internos entre grupos cada vez mais fragmentados. Eles precisam de jovens para manter o controlo territorial, o poder de fogo e as economias ilícitas”, diz De La Torre.

Grupos dentro das escolas

Grupos armados estão presentes até mesmo dentro das escolas. “Eles armazenam comida lá, usam a casa de banho e a cozinha. Às vezes, obrigam o professor a cozinhar para eles. Eles espiam pelas janelas enquanto damos aula”, relata Laura***. O relatório do Secretário-Geral sobre crianças e conflitos armados também constatou o aumento do uso de escolas para fins militares e ataques a escolas e hospitais.

Uma vez que os jovens são levados para acampamentos, muitas vezes em aldeias remotas ou outros departamentos, eles ficam completamente isolados.

“A realidade está longe da fantasia que lhes é vendida nas redes sociais”, alerta Diana. “O que começa como um sonho de poder e reconhecimento torna-se uma experiência marcada pelo medo, abuso e perda da infância. Muitos são usados como carne de canhão.”

Fenómeno rural

Os jovens não recebem o treinamento militar exigido pelas organizações, mas são forçados a andar com armas, vigiar plantações de coca e participar em confrontos sem proteção ou preparação. Muitos, segundo a professora, são submetidos a castigos físicos e exploração sexual.

O recrutamento por grupos armados é um fenómeno rural que afeta desproporcionalmente as comunidades indígenas e afrodescendentes.

Dos casos documentados pelo Escritório, 48,3% — 260 casos — envolveram crianças indígenas.

O Escritório destaca o grave impacto: “Afeta profundamente a cultura, a identidade e os processos organizacionais dos povos indígenas”. De La Torre acrescenta: “É uma forma de avançar o extermínio cultural e físico dessas comunidades.”

Nas redes sociais, as mulheres são retratadas como mais uma recompensa para os guerrilheiros.

Violadas várias vezes

As raparigas representam 39,7% dos casos de recrutamento documentados. “Fui violada por membros de um grupo armado.

Depois, esses homens procuravam-me todos os fins de semana e obrigavam-me a ir para uma determinada área, onde fui violada novamente por outros homens”, testemunhou Sofía** ao Escritório.

Diana relembra o caso de uma estudante brilhante e carismática de 16 anos que desapareceu. Seis meses depois, ela ligou para a mãe para dizer que estava bem e que havia conhecido um jovem que cuidava dela. Logo depois, o seu corpo foi encontrado noutro departamento.

Líder cheia de sonhos

“Ela era uma líder, cheia de sonhos. Ela foi atraída por falsas expectativas e nunca tentou ir embora. Foi de partir o coração ver o seu corpo voltar para a cidade. E é aí que todos começam a sentir-se culpados”, diz Diana, com a voz embargada.

O Escritório de Direitos Humanos contactou o Meta e o TikTok para solicitar providências. Embora algumas contas tenham sido removidas, novas continuam a surgir.

“É essencial que eles fortaleçam a coordenação com instituições do Estado, como o Ministério Público, para apoiar as investigações sobre os responsáveis por essa estratégia mediática”, afirma De La Torre.

Redes sociais são eco

A ONU está a solicitar às plataformas que aloquem recursos para equipas locais capazes de identificar e moderar conteúdo, para evitar que as redes sociais se tornem câmaras de eco para grupos armados.

UNICEF, por sua vez, apoia escolas rurais para torná-las espaços seguros e garantir que as crianças concluam a sua educação. Em 2024, mais de 13.651 crianças e adolescentes e 4.424 jovens, pais, cuidadores e funcionários públicos participaram nas oficinas sobre estratégias de prevenção e atendimento a vítimas de recrutamento.

Depois das famílias, as escolas são as primeiras a notar as ausências – e as primeiras a receber aqueles que regressam.

Vítimas não falam

“Muitos deles não falam. Outros tentam impressionar os colegas, dizendo que foram corajosos. Eles apegam-se a uma fantasia. Não a apresentam como um fracasso, mas como uma experiência”, diz Mário.

Diana insiste que as escolas devem desmantelar essa falsa narrativa e oferecer um futuro digno. “É uma conversa contínua. Temos que ampliar os horizontes deles para que vejam outras possibilidades”, acrescenta Mário, que diz que também existem finais felizes: “Transformações de vida completas — mas não posso falar sobre elas.”

Ele não pode falar para proteger os seus alunos. Professores como Mário e Diana trabalham com paixão em áreas de alto risco.

Escola, lugar de cura

Outros são forçados a sair, ameaçados direta ou indiretamente. “A educação pode mudar vidas. É por isso que alguns ficam. Mas os grupos encontram maneiras de expulsar os professores que se tornam obstáculos”, alerta Diana.

Os professores pedem uma resposta estrutural. “Precisamos de uma política pública que garanta o acesso à educação para crianças que se desligaram, para que outras possam seguir o seu exemplo e ver a escola como um lugar de cura. Precisamos de recursos, formação de professores, coordenação com o sistema de justiça. Voltar às aulas não é fácil – trata-se de reconstruir um projeto de vida interrompido pela guerra. E, dependendo de como isso se desenrola, pode representar um risco para os colegas – ou ser a salvação deles”, conclui Diana.

*Beatriz Barral é produtora da ONU News Espanhol

**Nomes mudados por proteção

***Testemunhos escolhidos pelo Escritório da ONU para os Direitos Humanos

Jornal Comunidades Lusófonas
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