A livraria da Tinta
Livros Segredos guardam.
Da História do Mundo contam.
Caneta Pena escreve com Dignidade.
Quando a Tinta revela Humanidade.
Tinta para imaginar –
Do escrever ao pintar.
Conta da Arte e Poesia.
Sonha com Harmonia.
Da Palavra ao Papel Pintado –
Decidem, qual será seu Fado. (Isalita Pereira)
No decorrer desta Semana da Cultura, o Jornal Comunidades Lusófonas, chegou do Canadá e fez escala em Lisboa, mais precisamente na “Tinta nos Nervos”, que é um espaço que tem como base o desenho e cujo fio condutor destaca a ação na livraria e galeria, com dupla valência. Também têm um espaço exterior onde se prolonga a cultura, com apresentações de filmes, workshops e se reúnem com criadores, mas sempre focados na ideia do desenho. Não o encaminhar apenas para as artes visuais ou fechá-lo num universo exclusivo, mas perceber que o desenho é a origem, ou está na origem do ato criativo. É um momento “muito simples” de desenhar uma ideia, de “rabiscar” num papel, foi esse o ponto de partida do “nosso projeto.” Salienta Ana Ruivo, uma das sócias do espaço.

É um projeto que juntou pessoas vindas de diferentes áreas. Seis sócios – cada um vem de uma área diferente: artes visuais e curadoria, banda desenhada e dos estudos académicos, livraria e do negócio do livro, gestão de equipas e da informática. Uma série de valências que se juntaram, criando um polo dinâmico que trabalha diretamente com os artistas. “Recebemos os livros que produzimos e ajudamos a produzir exposições dedicadas a estas áreas.” Refere Ana Ruivo.

O desenho serve de base, mas não o fecham numa gaveta, abrem-no em campos para poderem enveredar também às vezes pela pintura, pela escultura e outras vezes por artes digitais que agora estão a ser mais utilizadas e outras mais tradicionais, como por exemplo o artesanato: vai haver uma exposição na “Tinta nos Nervos”, com uma peça em tricot.
Este espaço multivalente recebe pessoas de diferentes áreas e de diferentes países, não apenas de áreas criativas diferentes, mas também um ponto de encontro de criadores de diferentes origens. Estão situados na Madragoa, na Rua da Esperança, uma zona com muita passagem de turistas, um turismo muitas vezes cultural, interessado. É uma zona museológica, onde se pode encontrar o Museu da Marionete, o Museu da Arte Antiga e “acabamos por ser também um ponto de contacto dessas diferentes circulações de gente e de ideias. É algo que procuramos fomentar.”

A comunicação entre os livros e o desenho
No espaço há uma secção de livraria, muito exclusiva: todos os livros que não têm “boneco” não entra. Porque, o desenho foi o ponto de partida, procuramos a ideia do livro ilustrado, ou do livro de artista, ou de um livro em que a imagem e o texto consigam conciliar-se, para contar uma história, transmitir uma ideia e é isso que “nos interessa, essa relação da imagem com o texto”.
Na livraria têm várias secções, umas mais ligadas ao setor das artes visuais, ou das artes plásticas e banda desenhada. O livro ilustrado, os livros de artista, “temos em várias línguas, não nos fechamos apenas na língua portuguesa.” Na galeria, muitas vezes mostram os originais dos livros. “É muito diferente ver um original de um livro e ver o livro editado”, salienta Ana Ruivo, a imagem vive de maneiras muito diferentes, apesar de muitas vezes ser concebida para obter o seu toque final no livro, a sua existência final, no suporte do livro, é muito diferente ver estes dois caminhos: a imagem impressa e a imagem produzida, por vezes com outra intencionalidade mais expositiva. Essa é a dupla vertente que “procuramos mostrar”.
“Em Portugal existem bons produtores de cultura”
Em Portugal há bons produtores de cultura, digamos, “chamemos-lhe de bons criadores”. Acho, que temos muitos, e nas áreas que nos compete, há, de facto, criadores de excelência, desenhadores, ilustradores, bandas desenhistas, pintores, escultores. Enfim, toda a área da arte da gráfica do livro, temos produtoras de elevada qualidade e editores que, apesar das dificuldades, conseguem levar para a frente as edições, mas são bastante onerosas.
“É necessário haver apoios do Estado, para que essas artes se possam desenvolver e florescer, porque são artes que levam tempo, implicam equipas a trabalhar, as instituições estatais e privadas têm que ser muito acarinhadas e, sobretudo, conscientes dessa sua função e não desistir delas, para que não se perca a cultura de um povo. Verifica-se mais teimosia da parte dos criadores do que propriamente às vezes da capacidade de abarcar essa pluralidade, essa riqueza que a produção cultural tem,” sustenta Ana Ruivo, que bem conhece do que está a falar pois a sua formação académica é em História da Arte, pela Universidade Nova de Lisboa e trabalhou quer com instituições culturais, com museus, jornais e desenvolveu trabalho na área da curadoria, de exposições.
Uma mensagem aos nossos governantes, aos nossos artistas, aos emigrantes que vos visitam
Ana Ruivo, avançou que há muita gente visitá-los, às vezes depende das exposições e dos eventos. Procuram ter sempre uma agenda de eventos, lançamentos de livros, e outras atividades.
Têm muito público internacional. Quando começámos a “Tinta nos Nervos” em 2019, a maioria do público era nacional. Ao longo dos últimos seis anos, a tendência tem-se invertido, neste momento há mais público internacional do que nacional.
Não significa que não haja interesse por parte dos portugueses, manifestam interesse, mas há mais público internacional neste momento, muito interessados no contacto com livrarias e com espaços pequenos, quase autorais. Espaços com curadoria na escolha de livros, das exposições.
No caso do público nacional, a situação difere. O que nos agrada é termos um público em expansão. Sentimos que as pessoas vão passando palavra e tem havido crescimento, o que é muito gratificante. Por outro lado temos uma espécie de “público residente”, que nos conhecem, que vão criando os seus hábitos na ligação com a oferta que temos, com a equipa que está e dedicam uma fiel confiança. Vêm pedir-nos livros, e na altura da pandemia, criámos um sistema de subscrição de livros, que chamávamos o Cartola, e que se mantém.
Temos um público muito variado, “de bairro” que é simpático, somos quase a única livraria nesta zona e muita gente que mora aqui, adulta e com crianças, para quem procuramos ter uma secção infanto-juvenil e de jovens adultos.
É uma teia de relações que vamos tentando acarinhar e incentivar e o que posso dizer é que no caso dos governantes, o apelo é que apoiem o mais possível os criadores, porque eles têm valor, não apenas o valor da peça em si, mas um valor na criação de um tecido de comunidade, de pertença e de pensamento. E o que nós tentamos fazer na “Tinta nos Nervos” é que seja um espaço para trocar ideias, para ver facetas diferentes, para tomarmos o pulso àquilo que se está a fazer e tentar fazer com que a obra dos criadores chegue o mais longe possível, dentro dos meios que dispomos.
“Que valioso objetivo para o Futuro – Chegar o mais longe possível com a Mensagem da Palavra e dos Desenhos. É o Objetivo de todas as ideias, que fazem a Vida procurar Novos Mundos”, meditaram os Viajantes no Tempo. Poema inicial e pensamento final, de Isalita Pereira.
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