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Sexta-feira - 17 Abril 2026

ESPECIAL SEMANA CULTURAL: Um “Poético Salto” para o Canadá

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Enigmática é a Poesia

Da Realidade à Fantasia

Analítica e emocional

Seu Ser do Silêncio ao Vendaval (Isalita Pereira)

Irene Marques é escritora bilíngue (português e inglês) e professora universitária (Toronto Metropolitan University) onde dá aulas de literatura, teoria literária e escrita criativa. É doutorada em Literatura Comparada, tem mestrados em Literaturas Francófonas e Literatura Comparada (University of Toronto), Bacharelatos em Literaturas Francófonas e Lusófonas (University of Toronto) e Assistência Social (Ryerson University).

Irene Marques

1 – Como escritora, professora, faça-nos um tracejado sobre a sua vida académica até ao presente momento?

O meu primeiro curso superior foi em Assistência Social, um curso que também frequentei no Instituto Superior de Serviços Sociais de Coimbra em fins de 1989 e só durante 3 meses. Mudei-me para o Canadá em fevereiro de 1990 e continuei esse curso nesse país. Desde muito pequena senti (achava) que havia uma profunda relação entre igualdade social e a escrita criativa, e desde muito cedo tive a consciência que em Portugal havia grandes desigualdades de classe e género — e queria entender esses problemas. Achava (e continuo a achar), como muitos escritores, que a escrita, tem uma forte dimensão social e engajada (e para além do que frequentemente se atribui a esse conceito) — lida com questões humanas, existenciais, ontológicas e epistemológicas, com a opressão, indagações que são de enorme importância para que, como humanos, nos possamos entender melhor entre nós e a nós mesmos, construir sistemas mais benignos, expor a opressão, e também ganhar consciência da vida das outras espécies e do seu pleno direito a uma existência que não seja mediada por nós, que temos nos construído como superiores. Daí a minha atração por estas duas atividades. O Canadá, um país altamente multiétnico e multirracial, abriu-me para outras questões sociais, nomeadamente as de teor racial e étnico. Havia neste país também muito mais debate sobre questões de igualdade em todos os sentidos e eu sentia que era este ambiente que de facto me fazia bem – expondo-me a ideologias para pensar mais a sério sobre estas questões.

Quando estava no segundo ou terceiro ano de Assistência Social (Ryerson University), aquele chamamento pela literatura e pela criatividade literária levou-me a iniciar estudos em língua e literaturas em francês, com uma componente de literaturas em português, na Universidade de Toronto. Sentia então que era essa a carreira que mais me atraía. O mundo da assistência social frustrava-me com burocracias e impedimentos que não satisfaziam a minha natureza idealista. Nesse mundo de instituições, as coisas não aconteciam, não mudavam como eu achava e queria que mudassem, entravadas por uma filosofia capitalista e hierárquica que entra em todos os sectores da nossa vida, infiltrando aquele seu ethos implacável que se apresenta como democrático, mas que não o é na verdade. Fiz depois mestrados (um em Literatura Comparada e outro em Literaturas em Francês) e doutoramento em Literatura Comparada na Universidade de Toronto.

Em 2005, quando terminei o doutoramento, comecei também a dar aulas na universidade, tendo lecionado em vários departamentos, como o de Inglês, Estudos Africanos, Português e Estudos Liberais, em várias Universidades da cidade de Toronto. Em 2007, passei um ano na África do Sul com uma bolsa de pós-doutoramento (Mellon Post-doctoral Fellowship) na Universidade de Witwatersrand, sendo o tópico de investigação as relações entres homens Europeus e mulheres Africanas durante a época do colonialismo. Até 2012, trabalhei em várias áreas de serviços sociais (com mulheres vítimas de violência de género, em hospitais de saúde mental e toxicodependência, com idosos e imigrantes ou refugiados) porque esse trabalho ainda me atraía e também por questões de necessidade financeira. Desde 2012, tenho me dedicado só ao trabalho académico e à escrita criativa. Dou atualmente aulas de literatura, teoria literária e escrita criativa no departamento de Inglês na Toronto Metropolitan University.

A minha posição na Universidade não é vitalícia (tenured) e sou paga pelos cursos que dou, o que acarreta bastante trabalho, mas também não tenho que me chatear com a parte burocrática que teria se tivesse uma posição permanente. A universidade é também uma corporação e cada vez mais pois faz parte do sistema neoliberal que a todos nos afeta. O meu objetivo, a partir de agora, se isso me for possível financeiramente, é dedicar mais tempo à escrita criativa, pois essa é de facto a “grande coisa” que sempre me chama, e quando não escrevo o suficiente, sinto que estou a perder algo que me é fundamental ou que estou de certa forma a desperdiçar a minha vida, a minha existência.

2 – Nasceu em Portugal, vive no Canadá, qual o motivo dessa mudança? Portugal não a inspirava, ou eram ventos novos que a levaram ao desconhecido?

Mudei para o Canadá em 1990 como disse acima. Sentia nessa altura que Portugal era um país pequeno, conservador, que não me deixava voar, respirar, ser. Sentia, pressentia que havia do outro lado do mar um outro lugar onde as coisas seriam diferentes, onde questões de classe social e género, de império, entre outras, seriam debatidas de modo mais sério. Na altura achava que o Canadá era uma espécie de EUA, mas na verdade é muito diferente e ainda bem que vim para o Canadá e não para os EUA – um país que atualmente atravessa grandes problemas e parece fora do eixo democrático com que sempre se tem pensado. Portugal era (é?) demasiadamente conservador – um país agarrado a preconceitos sociais, étnicos, raciais que devem ser contestados, refletidos, repensados. Um país agarrado à glória do império perdido num saudosismo problemático. Sempre tive em mim também uma sede de saber, de experimentar coisas que em Portugal não tinha a oportunidade de fazer. Queria ser uma pessoa do mundo. E havia sempre tanta e tanta coisa para saber, entender, desvendar… Essa ânsia de saber, procurar, entender, desvendar ainda me persegue – e, aliás, é esse o grande motor da minha escrita: escrevo para descobrir o mundo, o universo, a mim mesma, o grande mistério de tudo.

3 – Há quantos anos se encontra nos Canadá e com que frequência vem a Portugal?

Emigrei para o Canadá com vinte anos, sozinha, sem família, com um contrato restrito para tomar conta de crianças com o intuito de estudar. Vivo no Canadá há 36 anos. Portanto, já vivi mais tempo no Canadá do que em Portugal e tenho cidadania dupla. Costumo ir a Portugal uma ou duas vezes por ano. Sendo a mais nova de uma família de dez, e tendo crescido em Portugal, tenho obviamente uma ligação forte com o país, ou pelo menos com a zona onde nasci. Sou do concelho de Vouzela, de uma pequena aldeia da Serra do Caramulo de nome Adsamo (um nome único). Este local marcou-me imenso com a sua ruralidade sofrida, as histórias que ouvia da minha mãe, do meu pai, histórias sobre os meus irmãos que andaram na guerra colonial, ou sobre a minha avó materna, uma mãe solteira e que foi posta fora de casa pela minha bisavó quando ficou grávida da segunda vez (com a minha mãe), ou sobre as pessoas que andaram no Alentejo a trabalhar de sol a sol e a comer papas com saramagos, ou mulheres que morriam de parto ou homens que morriam de tuberculose porque não havia médicos ou dinheiro para médicos – ou estradas para eles subirem até à serra. E tantas outras histórias de gerações e gerações desse país com um passado marcado por um catolicismo conservador e patriarcal, pela guerra colonial e por uma grande pobreza e desigualdade social durante séculos e séculos.

4 – O que é que a inspira mais, o sol, as nuvens, o mar, o rio, a natureza, uma criança, um idoso, uma grávida, ou apenas uma folha?

Eu posso inspirar-me com qualquer coisa. Uma folha branca é de facto um grande chamariz. Está ali limpa (mas na verdade também “suja”) a chorar e a pedir sentido: à vida, à mágoa, ao mundo, à dor da criança, do idoso, ou do refugiado, do oprimido, à minha própria náusea e confusão existencial… Essas coisas humanas e desumanas que afetam todos nós de um modo ou outro e pelas quais somos, na verdade, todos responsáveis. Como disse acima, escrevo para procurar, para entender, mas também para desconstruir e atacar sistemas opressores que põem as pessoas em categorias aprisionadoras, que nos fazem inimigos uns dos outros tornando-nos menos nós próprios, porque na verdade o eu precisa do outro para se realizar como pessoa. Sem o outro, o “eu” nem sequer existe. Nesse sentido, devo também dizer que é quando escrevo que me sinto mais eu e menos eu ao mesmo tempo – é como se nesse exercício de procura, de reflexão que caracteriza a escrita, eu entrasse em contacto, em comunicação profunda com todas as pessoas e todas a coisas que existem, e nesse espaço nada me faltasse, tornando-me eu mesma num enorme coletivo, uma coisa total que me enche e preenche a minha solidão, a minha falta, a minha falha. Muitos outros já falaram disto, a seu modo: a ideia de que só a arte pode simbolicamente erradicar a falha/lacuna que sentimos desde que entramos no mundo da linguagem, sendo que a linguagem é divisão, perda daquele sublime holístico que a criança sentia na barriga da mãe antes de saber falar. Jacques Lacan, Clarice Lispector, Luce Irigaray, Martin Heidegger, Mia Couto e outros falam disto a seu modo também — e os budistas dizem-no também sugerindo a meditação que usa mantras repetidas para sair da linguagem e entrar em estado de transcendência, em que o “eu” é temporariamente suprimido, sendo que o rezar do terço no catolicismo tem finalidade semelhante, parece-me. Eu também escrevo para sair da linguagem e entrar nessa transcendência (espiritualidade), e, sobretudo, também para sair do discurso que nos corta, oprime, classifica, aprisiona, movida pela esperança de encontrar a Linguagem, outra linguagem que fale melhor, que nos fale, diga melhor: uma linguagem que fique, tanto quanto possível, fora do discurso banal, quotidiano, medíocre, interesseiro, calculador. Escrevo para encontrar liberdade ontológica e epistemológica. Escrevo para entrar numa dimensão espiritual, para me transcender. Escrevo, nesse sentido, para encontrar “Deus” (que não é o Deus no sentido tradicional).

O que me inspira muitas vezes é só uma palavra, uma expressão que vejo ou ouço em qualquer lugar e que me chama para “a escrever mais”. A palavra aparece-me, apresenta-se-me como um mistério a desvendar, instigando-me, provocando-me, chamando-me para lhe dar claridade, ir ao encontro do conhecimento, de mais conhecimento. Lá está outra vez esse chamamento que sempre me persegue no ato de escrever: a escrita, a linguagem, anda à cata do conhecimento através de uma recriação constante da língua, de um manejar linguístico que é essencial para se chegar a novas visões. É a linguagem a querer sair dos limites da própria linguagem, a querer inventar outros modos de dizer, que levam a outros modos de ver.

5 – Quais são as maiores diferenças que encontra em termos culturais entre Portugal e o Canadá?

O que mais apreciei no Canadá quando aqui cheguei em 1990 era como as pessoas se vestiam de modo muito mais descontraído e não eram julgadas por isso, não eram postas em classes sociais x ou y, como acontecia em Portugal. Nesse sentido senti-me, sinto-me, imensamente liberada. Portugal tem sido um país de estratificações sociais muito vinculadas dando-se muita importância ao modo de vestir e falar, marcas que separavam/separam, criando barreiras entre pessoas — o que me parece algo paroquial e de grande conservadorismo. Sendo eu de uma zona rural de Portugal e de uma família com baixa formação escolar/académica, sempre senti essas diferenças, essas separações, esses paroquialismos que aliás eram (são) recriados nas comunidades portuguesas da diáspora aqui em Toronto – e de forma mais forte ainda entre continentais e açorianos, por exemplo.

No Canadá, as pessoas são talvez mais simpáticas no sentido em que tendem a focar as coisas positivas sobre as nossas ações, enquanto que os portugueses são mais negativos nesse aspeto, gostam de focar o defeito, o erro. No princípio, quando ouvia esses fraseados muito positivos, aquilo parecia-me falso, habituada que estava a ouvir mais o negativo (e talvez ainda mais na minha família!). Claro que esta fachada de simpatia, de cordialidade tem a sua parte negativa também: não sabemos se é de facto a sério ou uma pretensa, a capa polida daquilo a que eu chamaria a ética e estética anglo-saxónica, que define, a meu ver, e em vários aspetos, o Canadá anglófono. Sinto essa diferença bastante no mundo da literatura onde a linguagem que se tende a valorizar segue essa ética e estética anglo-saxónica, o que impede o enriquecimento da literatura Canadiana, apesar do foco que se tem dado neste país a vozes diversas. Escrevi recentemente um artigo académico que aborda precisamente esta questão (“The Case for Literary Extroversion and Human Consciousness Expansion in Canadian Literature: Writing, Identity, and Belonging beyond the Anglo-Saxon Ethic and Aesthetic”. Reconstructions of Canadian Identity: Towards Diversity and Inclusion, Eds Vander Tavares and Maria João Maciel Jorge. Winnipeg: University of Manitoba Press, 2024. https://uofmpress.ca/books/reconstructions-of-canadian-identity).

O Canadá é também um país muito mais multicultural onde existe mais igualdade entres os vários cidadãos de múltiplas proveniências. Portugal, que frequentemente se tem designado como “pai do multiculturalismo”, continua a usar o “lusotropicalismo” para justificar o colonialismo português, por exemplo. Mas na verdade Portugal é um país homogéneo, ou que se quer ver como sendo homogéneo, fechado ao multiculturalismo, como aliás se tem notado bastante recentemente com partidos de extrema direita a ganhar terreno e jovens a aderir a ideologias extremistas. Claro que o Canadá também tem um longo (e pouco bonito) passado colonial (em relação aos indígenas, por exemplo) e não é um paraíso de igualdade, mas existe mais abertura para abordar essas questões, existe mais debate, mais mudanças nesse sentido, e o país tem, desde há muito, uma política específica relativa ao multiculturalismo, que promove e defende cidadãos canadianos de várias origens étnicas. Em Portugal, ainda se fala muito na ideia de quem é de facto português, sendo que categorias raciais são frequentemente usadas para definir quem é, de facto, português – e os negros por exemplo, que são de facto, portugueses, são com frequência vistos como “menos” portugueses.

Claro que há muito mais a dizer sobre estas questões, mas não posso escrever um tratado sobre este tão complexo tema.

6 – Pensa, um dia, regressar à pátria, ou prefere ficar no Canadá?

Uma questão difícil de responder com “sim” ou “não”. Regressar e ficar de vez, não sei, não me parece. Poderei mudar de ideia com o passar do tempo. Afinal, estamos sempre a mudar como seres humanos e a mera ideia de que somos algo permanente, com ideias e ideais fixos é algo que não corresponde à verdade. É importante manter-nos abertos a opções, sendo que as opções também mudam com as várias circunstâncias, maturidade e experiências que a vida nos vai trazendo – além de que o nosso querer nem sempre é algo que podemos seguir.

Mas essa palavra “pátria” também deve ser questionada: a nossa pátria é (pode ser) em todo o lado. Essa questão de que somos só de um lugar, de um país, de uma língua, etc., está a perder relevância hoje porque as pessoas estão sempre a mudar-se, a movimentar-se, e por várias razões que nem sempre controlam.

Como já argumentaram vários estudiosos, dentro do sistema capitalista, o trabalhador é já um migrante que está sempre sujeito a ter de mudar de lugar e de trabalho, e nesse sentido, pode ser um agente com poder para transformar o modo como vemos a ideia de estado-nação, ou a ideia de pátria, para medirmos onde pertencemos (para uma discussão sobre este assunto, ver “The Centrality of The Migrant” de Thomas Nail). Além de que essa ideia que pertencemos de facto a uma só nação, e que a ela temos todo direito invocando esta e aquela razão, tem infelizmente gerado, e continua a gerar, violentas guerras. O estado-nação assenta em exclusão definindo quem realmente pertence e quem não pertence: precisamos de outros modelos políticos.

E como disse Hugo de St. Victor, um monge Saxão do século XII:

O homem que acha a sua pátria doce ainda é um terno principiante; aquele para quem cada solo é como o seu nativo é já forte; mas é perfeito aquele para quem todo o mundo é como uma terra estrangeira. A alma terna fixou o seu amor num só lugar do mundo; o homem forte estendeu o seu amor a todos os lugares; o homem perfeito extinguiu o seu amor por lugares. Desde a infância habitei em solo estrangeiro e sei com que dor, por vezes, a mente deixa o estreito lar da choupana de um camponês, e sei também como francamente desdenha depois lareiras de mármore e salas adornadas com painéis. (Hugo of St. Victor, citado por Edward Said em “The Mind of Winter”, tradução minha).

Quando a polícia que perseguia a minha mãe, por razões que não vou aqui elaborar, lhe perguntou de onde é que ela era, ela responde, em rebelde desafio: “Sou do céu e da terra.”

7 – Uma mensagem aos emigrantes e àqueles que pretendam emigrar?

A resposta a esta pergunta está implícita na resposta que dou à pergunta anterior e está também implícita na resposta à pergunta seguinte – sendo que o verbo “emigrar” implica não só mudar-se fisicamente para outra parte mundo, mas também transgredir (questionar/transformar) valores que sempre temos seguido: arribar a outra língua/ideologia, modo de entendermos a Vida, a nossa vida, o mundo, a existência. Emigrar é, portanto, uma metamorfose de várias dimensões.

8. Como vê o poder da palavra para a existência do ser da Vida? Pode ser um pequeno poema.

Já falei desta questão em respostas anteriores de vários modos. Mas posso fazê-lo aqui de outra maneira.

Deixo aqui um poema que escrevi no avião no ano passado em agosto, quando regressava de Portugal ao Canadá, depois de uma visita de algumas semanas. O poema parte da minha observação da interação entre uma mãe muito jovem que viajava com a sua filha bebé. Fala-nos sobre a possibilidade de uma vida nova para ambas no novo país (Canadá), mas aborda também outra dimensão muito importante sobre a questão da linguagem que falamos para nos definirmos que tende a ser uma linguagem baseada em parâmetros logocêntricos, como diria Luce Irigaray, uma filósofa feminista francesa que muito admiro.

Essa linguagem visa controlar – aprisionar — a nossa maneira de ser, ver e estar no mundo, o que pode ter consequências pouco positivas para a nossa realização pessoal, para o mundo em geral, incluindo a questão que discuto acima sobre a ideia que pertencemos a um só lugar (uma só pátria). A linguagem que o poema defende é uma linguagem maleável, aberta, que questiona discursos e ideias fixas sobre como se deve ser, sentir, onde se deve viver para se ser feliz, sendo que estes são sobretudo baseados em sistemas sociopolíticos, culturais e económicos que não conduzem à realização da pessoa humana e têm fins pragmáticos e materialistas pouco fiéis ao que nos é, que é, mais importante.

Trata-se, digamos assim, de uma linguagem feminina — o que não quer dizer que é uma linguagem só de/para mulheres, e este é um aspeto essencial a entender aqui — mas uma linguagem que questiona a organização e os valores que vemos como base sacrossanta da nossa civilização. No poema, a viagem tem, pelo menos, dois sentidos: a viagem para uma vida nova, num país estrangeiro, para a jovem mãe e a sua menina, e uma viagem ao encontro de uma linguagem mais pura, mais genuína, rejuvenescida, que assenta no corpo, na intimidade, no aqui, no agora, no presente, e que traz, portanto, possibilidades de uma nova vida em vários sentidos existenciais. Claro que o poema também dá valor ao passado, ao que se deixa, sendo que o se deixa pode servir como base (suporte positivo) no novo mundo – mas esse processo deve ser feito de modo crítico, sem cair num saudosismo exacerbado que nos pode cegar e fazer imaginar que o que deixámos é melhor que que ganhámos. O poema tem muitas meninas: a língua é a nova menina, saída do corpo, nascida no momento entre mãe e filha, sendo por isso e de certo modo, uma linguagem fora da linguagem (da ideologia sociopolítica) porque a bebé ainda não fala, gerando uma conversa íntima, desviada do racionalismo másculo e abstrato próprio de uma epistemologia que assenta no logocentrismo, além de que mãe e filha são também meninas porque falam, dançam, entram, são nessa língua, são essa coisa nova a vir…

A menina ia no avião.

No meu avião, à minha frente.

Era impossível não olhar para ela e para a menina que ela levava consigo para o outro lado do mar. As duas meninas meneavam-se, manejavam-se em sintonia, uma congruência vinda de longe, quando uma estava a desabrochar dentro da outra. Por isso, não havia nada a temer agora nesta outra longa viagem oceânica.

Mesmo que a mãe fosse menina também. Porque falavam com a fluidez das águas amenas. E ainda que a língua do outro lado oceânico fosse de outras fontes guturais, com menos vogais abertas que nos levam àquele voo infindo como as que a lusitana língua possui, o alfabeto delas era infindável, inabalável, murmurado nas cadências potentes da matéria que dá plena origem ao mundo.

A magnífica, magnânima razão de ser, do ser: o núcleo nuclear. E nós, tantos viajantes naquele aeroplano fechado e frágil, parávamos pasmados a olhar para as duas meninas — mãe e filha — e ficávamos absolutamente certos que chegaríamos ao nosso destino: sãos e salvos. Sim. Porque tal era a congruência. A congruência era sinfonia. Uma constante, verdadeira, Rádio Renascença.

Publicações:

É autora dos livros de poesia Wearing Glasses of Water (2007, Mawenzi House), The Perfect Unravelling of the Spirit (2012, Mawenzi House), The Circular Incantation: An Exercise in Loss and Findings (2013, Guernica Editions) e The Bare Bones of Our Alphabet (Mawenzi House, 2024) e dos romances My House is a Mansion (2015, Leaping Lion Books/York University, Daria (Inanna Publications/York University) e Uma Casa no Mundo. Uma Casa no Mundo venceu o prémio literário Ferreira de Castro e foi publicado em 2021 pela Imprensa Nacional Casa da Moeda (Portugal).

De entre as suas publicações académicas destacam-se o livro Transnational Discourses on Class, Gender and Cultural Identity (Purdue University Press, 2011) e diversos artigos e capítulos em revistas e coletâneas internacionais, nomeadamente, Oxford Research Encyclopedia of African History, African Identities: Journal of Economics, Culture and Society, Research in African Literatures, A Companion to Mia Couto, Letras & Letras, InterDISCIPLINARY: Journal of Portuguese Diaspora Studies, Portuguese Studies Review.

Autora: Irene Marques

Após o estranho Quarteto assistir no Canadá a uma exclusiva Leitura da conceituada Poeta Portuguesa, regressaram a Lisboa. Como se fosse um Passeio no Parque. Que possivelmente ainda está previsto.

O poético e literário Desvio foi uma Aventura que deu Alegria e novos Pensamentos ao Espírito da Mente e Memória. Que belo foi ouvir Poemas recitados por a própria Autora. E com o Coração a bater ao ritmo de Poemas seguiram para a Livraria. (Isalita Pereira)

Para continuar ….

Jornal Comunidades Lusófonas
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