Foto: Jornal de Leiria
É desta forma que Joaquim Ruivo, ex-Diretor do Mosteiro da Batalha, inicia a nossa conversa, falando sobre o artista que veio, de certa forma, “desconstruir” a forma de pintar. Joaquim Ruivo, professor de História licenciado pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e pós-graduado em Dinâmicas Religiosas no Mundo Contemporâneo, dirigiu o Mosteiro da Batalha durante anos decisivos para a sua projeção nacional e internacional. Figura central na valorização do património cultural português, partilha a sua visão sobre Nelson Ferreira, o artista que trouxe uma técnica inédita ao coração de patrimónios mundiais da UNESCO.
Sem pigmentos e ao crepúsculo, vai pintando à vista, como se estivesse num bailado noturno: aproxima-se, marca um traço, afasta-se, contempla a panorâmica, volta a aproximar-se, mais outro traço, num movimento sincronizado entre a tela e o objeto, e sem darmos por isso, termina a pintura!
Indignados pela perícia e com olhos de inspetores Gadget, aproximamo-nos da tela, que aparentemente está em branco. Não se trata de uma radiografia que se tem de elevar contra a luz, e o céu noturno já está pintado de estrelas, mas não brilham com a intensidade com que o artesão fez a obra. O recurso à luz artificial do telemóvel faz a magia aparecer: eis o mosteiro ou o templo à nossa frente. Envolvemo-nos de imediato, já não há secretismos. De repente, a imagem aparece e ao mesmo tempo desaparece, numa espécie de jogo do esconde-esconde. As figuras fazem-se de difíceis: ora estão nítidas e estáticas, ora ondulam pela tela. O encanto acontece diante dos nossos olhos.

O artista pinta sobretudo patrimónios mundiais, que a UNESCO tão sabiamente sabe reconhecer. Tal é a exigência e o valor artístico de Nelson Ferreira. Foi esta a visão de Joaquim Ruivo, que ao longo de anos dedicou a sua vida profissional à preservação e promoção do património cultural, tendo presidido à direção do Centro de Património da Estremadura (CEPAE) entre 2006 e 2012, e exercido funções de relevo em diversas associações culturais e cívicas. O ex-Diretor do Mosteiro da Batalha quis mostrar ao país e ao mundo a obra do artista num dos monumentos mais visitados do país.
Decorria o ano de 2022 quando a então diretora do Museu Nacional de Arte Contemporânea, Dra. Emília Ferreira, apresentou a Joaquim Ruivo o artista Nelson Ferreira, que nesse museu tinha realizado vários workshops e estava a fazer uma residência artística, como “um artista plástico de grande qualidade e invulgar mestria técnica, cuja obra então disponível, um conjunto de ícones inspirados nas técnicas das pinturas medievais da Europa Bizantina, podia fazer sentido numa exposição no Mosteiro da Batalha”, revela o ex-Diretor.
“Rapidamente concluímos que as Capelas Imperfeitas podiam acolher essa exposição, cada uma das sete capelas contendo um ícone”, o que veio a acontecer ainda em 2022, com grande sucesso. A exposição “Fogo – Água – Terra – Ar” foi vista por 135.000 visitantes, e teve concerto de abertura nas próprias Capelas Imperfeitas, com a voz de Cátia Alhandra e a guitarra de Tiago Valentim.
“Estabeleceu-se a partir daí uma relação extremamente frutuosa”, salienta Joaquim Ruivo. Nelson Ferreira é um artista plástico inovador e experimentalista, com uma visão estética ancorada num saber e mestria técnica invulgares, que por vezes nos deixa de olhos esbugalhados.
Após essa exposição, agendaram outra no ano seguinte, no espaço da primitiva cozinha conventual, em que o artista se propôs voltar ao passado, mas dando o salto para o futuro. Pintando ao ar livre, ao longo da noite, produziu várias perspetivas do Mosteiro, não com pigmentos comuns, mas com ingredientes secretos que refratam a luz, de tal modo que as pinturas só se tornavam visíveis quando orientadas diretamente para elas luz artificial.
Essa exposição, intitulada “Caligem”, confrontou os visitantes, depois da espantosa policromia dos ícones, com telas aparentemente em branco, que necessitavam da intervenção do espectador para serem percecionadas. Cada visita era sempre diferente, conforme o ângulo e a intensidade da luz. Uma técnica que o artista apelidou de “PlatiGleam” (do inglês gleam, brilhar, numa alusão à platina que brilha), até então completamente desconhecida.
A parceria foi renovada com uma nova exposição em 2024, na sala ao lado da cozinha conventual: “Paisagens Noturnas de Luz”. Nesta, o artista Nelson Ferreira convidou o cineasta Gianmarco Donaggio para uma instalação a “duas vozes”. Para além das obras “PlatiGleam”, Gianmarco estreou o projeto cinematográfico “Alba Nera”, inspirado nas técnicas pictóricas de Nelson Ferreira e no próprio Mosteiro, filme que viria a ser apresentado posteriormente na Cinemateca Portuguesa. Gianmarco Donaggio, nomeado Talento 2024 pela Berlinale, o maior festival de cinema do mundo, trouxe a esta colaboração uma visão cinematográfica singular.
No conjunto das três exposições, mais de 400 mil visitantes tiveram a oportunidade de apreciar a obra de Nelson Ferreira e, posteriormente, de Gianmarco Donaggio.

As exposições de Nelson contaram sempre com reações diferenciadas, por vezes na mesma exposição. Joaquim Ruivo recorda que na exposição “Caligem” os visitantes se admiravam primeiramente pela mestria técnica, ao verem reproduzidas as imagens sagradas das técnicas antigas, e logo a seguir ficavam surpreendidos com a necessidade de interagirem com a obra para ela se revelar.
Uma nota à parte: Nelson Ferreira tem sido um verdadeiro “embaixador” da cultura portuguesa e, mais especificamente, do Mosteiro da Batalha, sublinha Joaquim Ruivo, ele próprio reconhecido internacionalmente pelo seu trabalho na valorização do património. Em 2023, Joaquim Ruivo foi condecorado pela Embaixadora da Roménia em Portugal, Ioana Bivolaru, com a Ordem de Mérito Cultural, na classificação de Cavaleiro, por iniciativa do Presidente Klaus Iohannis.
No Oriente, Nelson Ferreira tem realizado formação artística, residências e workshops em paragens tão longínquas como a Indonésia, onde construiu uma ponte excecional com o Templo de Borobudur, o maior templo budista do mundo, com o qual o Mosteiro da Batalha mantinha um protocolo de colaboração que a pandemia tinha inviabilizado.
O artista foi convidado pela então diretora de Borobudur, Hetty Herawati, a desenvolver o mesmo projeto em Borobudur e noutros dois templos (Prambanan e Sewu), a partir da obra realizada no Mosteiro da Batalha. Essas novas pinturas PlatiGleam entraram na coleção permanente de Borobudur, visitado por 3,5 milhões de turistas por ano, e que construíu de propósito uma sala com 9 x 6m para acolher os três trípticos. Nelson levou ainda a sua técnica “PlatiGleam” a Angkor Wat, no Camboja, durante a primeira residência artística documentada na história do templo. Tem sido recebido com todas as honras institucionais, tendo sido nomeado “Embaixador do Templo de Borobudur” e, por inerência, também do Mosteiro da Batalha, acrescenta Joaquim Ruivo.
“Nelson Ferreira tem para mim as grandes qualidades que admiro num artista e na arte”, afirma o ex-Diretor. “Não só as que referi, mas também essa ideia de que a arte, e a cultura em geral, deve ter a capacidade de atuar e desempenhar um papel interventivo na sociedade. Tal como o cineasta Tarkovski, também Nelson Ferreira entende que todo o artista tem a missão especial de, através da sua arte, dar um contributo para um mundo mais humano e mais fraterno.”
Sobre esta parceria, Nelson Ferreira não hesita nas palavras: “O Joaquim Ruivo foi para mim muito mais do que o diretor de um monumento. Foi, junto com Emília Ferreira, o primeiro a ver o que eu ainda estava a descobrir em mim próprio. É um mentor, mas sobretudo um amigo com quem partilho a convicção de que a arte tem obrigações para com o mundo.”
“Nelson Ferreira demonstrou como ninguém que a Arte abre fronteiras, cria pontes e liga povos e culturas”, conclui Joaquim Ruivo, ex-Diretor do Mosteiro da Batalha, professor, homem de cultura e incansável defensor do património.
A obra tem de continuar a brilhar. E se, por vezes, teima em esconder-se, lá teremos de recorrer à luz dos nossos dispositivos, que nas horas de maior aperto nos guiam em direção às criações do artista.




