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Domingo - 8 Fevereiro 2026

EXCLUSIVO: A Academia do Bacalhau de Kinshasa: Para um bem maior de e para os Portugueses que não conseguiram o sucesso

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Para quem nunca ouviu falar das Academias do Bacalhau, Nuno Crisóstomo, antigo funcionário da UNICEF faz-nos uma apresentação sobre o que são e o que fazem pelo mundo inteiro. As Academias do Bacalhau são um pouco como o Lions Club, ou o Rotary Club, são Organizações Beneficência locais, e que apoiam a comunidades locais onde existem. Neste momento cerca de 70 espalhadas por Portugal e pelo resto mundo, nos cinco continentes, e tem uma afiliação dirigida pela Academia Mãe em Joanesburgo, a maior cidade da África do Sul, e foi a primeira a ser fundada ainda nos anos 60.

Nuno Crisóstomo é membro fundador da Academia do Bacalhau de Kinshasa, na República Democrática do Congo. “Continuo ligado à Academia de Kinshasa, depois colaboro com as academias de uma forma Ad Hoc quando me pedem. Por isso em Dezembro 2023 estive na Cidade do Cabo, na África do Sul, a colaborar com Academia do Bacalhau da Cidade do Cabo, porque é onde vai ser o próximo Congresso anual no mês de Outubro 2024.”

A sua filiação com a Academia começou em Kinshasa em 2018 em que o então Embaixador de Portugal teve a ideia de propor à Comunidade Portuguesa no Congo, a formação de uma Academia do Bacalhau. O Embaixador de Portugal em Kinshasa na altura, tinha vindo do Consulado Geral de Portugal na Beira, em Moçambique, onde tinha sido Cônsul-Geral, e ficou tão agradado com o funcionamento da Academia do Bacalhau na Beira que resolveu propor a formação de uma academia em Kinshasa.

Os membros da Comunidade Portuguesa em Kinshasa, levaram o projeto avante, nomeadamente sob a liderança do primeiro Presidente da Academia do Bacalhau de Kinshasa, o senhor Abel Parente, que é um compatriota radicado há muitos anos no Congo e na África Central, e fundou a Academia em 2018. Foi assim que começou, “a minha filiação formal com a Academia do Bacalhau, mas já tinha contactos com a Academia do Bacalhau de Maputo, em Moçambique desde há cerca de 30 anos.”

Qual o papel da Academia?

“Sou um dos fundadores da Academia do Bacalhau de Kinshasa que é uma associação de caridade que ajuda membros desvalidos da Comunidade Portuguesa do Congo. Compatriotas portugueses que que não têm tido sorte, pois na diáspora portuguesa, não existem só casos de sucesso, infelizmente, há casos de necessidade.” Pessoas em final de carreira, em final de vida, com reformas pequenas ou sem reformas, especialmente em países que têm passado por grandes convulsões como é o caso do Congo.

A Academia do Bacalhau, está também a apoiar obras de caridade em que a própria diáspora Portuguesa está envolvida, por exemplo, no Congo, ainda existem alguns religiosos de origem Portuguesa, tanto freiras como padres, de maneira que a Academia do Bacalhau apoia essas pessoas na sua missão de ajudar os povos Congoleses que também têm muita necessidade de ajuda.

As ajudas são obtidas através de campanhas de recolha de fundos, de donativos em termos de géneros alimentícios, de roupa ou de materiais escolares.

Toda uma gama de atividades, de apoio à comunidade Portuguesa, às pessoas necessitadas da comunidade Portuguesa e às instituições ligadas à diáspora Portuguesa que existem no país, neste caso na República Democrática do Congo. Em Moçambique, um dos principais apoios que as Academias do Bacalhau fornecem é à Casa do Gaiato de Maputo, uma instituição Portuguesa que também está implementada em Moçambique, que trabalha essencialmente com crianças de rua, órfãos, crianças necessitadas.

Neste momento há cerca de 70 Academias espalhadas pelo mundo. Mas a missão essencialmente é dar apoio às pessoas de desfavorecidas da Comunidade Portuguesa e a instituições de caridade locais. Tem o seu aspeto de convívio e de cultura da gastronomia Portuguesa, geralmente com os momentos de convívio mensais fazerem-se à volta de um almoço ou de um jantar de bacalhau, daí o nome da Academia.

Os membros, tratam-se por Comadres, ou Compadres. Reúnem-se uma vez por ano nos Congressos anuais, alternando a organização destes congressos entre as Academias do Bacalhau existentes em Portugal e as Academias espalhadas pelo mundo. Nos congressos, para além das sessões ordinárias, em que se discute o funcionamento das academias à volta do mundo, existe também a parte social, com partidas de golfe e visitas de estudo, a projetos que a Academia suporta localmente ou instituições que existem na comunidade Portuguesa local.

Há também essa parte lúdica, durante o Congresso anual e os jantares ou almoços mensais. Fica ao critério do Presidente de cada Academia, que tem autonomia para gerir essa parte.

Em relação ao número de pessoas que fazem parte “acho que flutuou muito. Eu sei, por exemplo, que em Kinshasa começámos à volta de 30 pessoas em 2018, numa comunidade que neste momento está bastante reduzida. A Comunidade do Congo deste momento deve ter recenseados cerca de 800 pessoas, quando há 40 anos atrás, tinha 250 000 pessoas.”

Nos anos 70 chegou-se às 250 000 pessoas, também por causa das guerra civis em Angola, que tem uma fronteira de mais de 1000 quilómetros com o Congo. E com a guerra civil em Moçambique, que apesar de não ter fronteira direta com o Congo. A fronteira de Moçambique fica a 100 km da bacia do cobre congolês, são 100 quilómetros através da Zâmbia. Muita gente que saiu de Moçambique, muitos portugueses fugiram devido à guerra civil em Moçambique que teve o seu início em 1976, e se refugiaram, no Sul do Congo nas áreas da antiga província do Katanga.

Depois com o fim das guerras civis em Moçambique, em Angola, os chamados movimentos pendulares, as pessoas voltaram para Angola e voltaram para Moçambique, porque também, infelizmente, a partir do final dos anos 90, com a guerra civil do Congo, foi uma debandada muito grande. Começou com as nacionalizações dos anos 70, e depois a partir de 1997 a guerra civil no Congo foi a razão final. Neste momento mantêm-se cerca de 800 pessoas portugueses, no Congo, mas flutua muito, por isso é que é os membros, das academias do bacalhau, depende muito de como a Comunidade está implementada.

As academias maiores são realmente as academias da África do Sul, onde existem ainda muitas centenas de milhares de Portugueses e onde as academias estão bem enraizadas, devido também ao facto de aí terem sido onde fundadas as primeiras. Seguem-se as comunidades onde a diáspora atualmente numerosa, como é o caso da França, no caso da Venezuela, e o caso da Suíça, onde a diáspora hoje-em-dia continua muito forte.

Cada academia tem a sua própria estrutura, e depende muito dos seus membros, normalmente o que se passa por exemplo, no caso, de Kinshasa, são os comerciantes e industriais Portugueses membros da Academia que se encarregam do armazenamento e que fazem a gestão dos bens que são solicitados e que depois são oferecidos pelos membros da Academia do Bacalhau, pelas comadres e pelos compadres da Academia do Bacalhau. Não há um armazém central. É gerido localmente, país, por país.

Como cada academia tem a sua autonomia, há sempre projetos locais. “Eu diria que quase 100% dos projetos são locais, tem surgido ideias, um pouco a exemplo do que o Rotary Club e o Lions Club e outras Associações do género têm feito com várias organizações, nomeadamente com a UNICEF para apoiar as suas campanhas. Por exemplo, o Rotary e o Lions têm estado muito envolvidos, há dezenas de anos na eliminação da Poliomielite, com campanhas para a sensibilização e angariação de fundos, para a compra e a distribuição de vacinas contra esta doença que está praticamente erradicada no mundo.

Tem havido propostas de dentro dos membros da Academia do Bacalhau de fazer algo do género mas por enquanto, ainda não foi lançado, mas estão-se a desenvolver essas ideias. Aproveitando a implantação mundial das academias e o peso que começam a ter para avançar com isso para a frente.

Normalmente, estas ideias são debatidas no Congresso anual, onde se tenta ter membros convidados do governo, o Secretário ou a Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, estão sempre presentes. Os quatro deputados pela emigração, os deputados dos círculos eleitorais da Europa, ou de fora da Europa, marcam sempre presença nos congressos.

Neste momento, são dois Deputados do partido Movimento Chega, um Deputado do Partido Socialista e um deputado da Aliança Democrática. O Senhor Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, neste momento o Senhor José Cesário, tem sido uma pessoa que tem acarinhado muito as “Academias do Bacalhau, não desfazendo dos outros secretários de Estado.”

Qualquer que tenha sido o partido, todos os políticos sempre estiveram presentes nos congressos das Academias do Bacalhau. “O governo tem marcado sempre presença junto das Academias do Bacalhau, todos os partidos têm acarinhado, todos os membros de todos os governos têm acarinhado, e apoiado a Academia do Bacalhau na medida do possível, apesar das Academias do Bacalhau serem apartidárias, pois os objetivos são caritativos, de apoio à diáspora, à comunidade Portuguesa que necessita auxílio e às comunidades locais onde os portuguesas estão inseridos.

Lígia Mourão
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