Manuela Pimenta licenciou-se em Ciências Farmacêuticas na Universidade Egas Moniz, em Lisboa e é especialista em Análises Clínicas, Farmácia Comunitária e Genética Humana. Comporta três especialidades e decidiu seguir as pisadas do pai e da mãe. Ambos farmacêuticos e especialistas em Análises Clínicas. Trabalha no laboratório do pai e é diretora técnica de uma farmácia em Ponte de Lima, de Comunidade. O irmão também se licenciou em Ciências Farmacêuticas, uma família inteira dedicada aos outros.
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Manuela começou a ir à Guiné-Bissau através do pai, que estava a desenvolver projetos a nível pediátrico em Bôr, nos arredores de Bissau, que financiou também uma maternidade e a “Casa das Mães” na Guiné, em Cacheu. Manuela Pimenta foi à inauguração da “Casa das Mães” e acabou por chegar atrasada, mas logo se empenhou numa série de iniciativas.

Começou a desenvolver na Guiné a tese de mestrado, que estava a frequentar em Portugal, na faculdade de farmácia da Universidade de Lisboa. Em Bissau estava a fazer a tese no hospital de Bôr e pretendia estudar os parasitas mais prevalentes nas mulheres e nas crianças infetadas com HIV. “Os parasitas intestinais, sanguíneos e a anemia estavam a dizimá-los. Não só a infeção HIV, mas também a anemia e a malária”, revela a mestranda. A partir daí nunca mais parou e sempre em conjunto com o pai, no laboratório, começaram a ensinar a melhor maneira de trabalhar, validar resultados, interpretá-los e foi desta forma que nasceu a “Hemato Pa Bô”.
O projeto teve início em 2022 quando foi feita a primeira formação a sério, embora “tivesse começado comigo, sozinha, quando comecei a ensiná-los no laboratório. Depois, juntamente com Filipa Fernandes demos formação aos técnicos e aos médicos de lá.” Refere Manuela.
A Associação só começou oficialmente em março de 2025. Foi muito gradual, o pai de Manuela foi acompanhando, mas na altura era um bocado cético. Mais tarde, tornou-se num grande apoiante e dizia sempre para nunca abandonarem o projeto porque fazia a diferença naquela comunidade médica e científica, porque eles começavam a olhar para os resultados de outra maneira e conseguiam solucionar todos os problemas.
Onde estão instalados?
Em Cacheu, estão lá várias obras, eles, o Rotary Club de Viana do Castelo e a Associação de Cooperação com a Guiné-Bissau (ACGB), que construíram lá uma maternidade e ao
lado a “Casa das Mães”, para que as grávidas que moram longe ou têm uma gravidez de risco não morram no caminho até à maternidade. Por questões de segurança e prevenção ficam lá alojadas até ao dia do parto.
Também construíram, o centro, que foi inaugurado este ano, o centro escolar, um Jardim de infância, que vai desde os 3, 4 e 5 anos. Mas pretendem evoluir até à escola primária, (logo que tenham verbas) os pais pedem, pois as excelentes condições vão ao encontro das necessidades das crianças.
Também damos apoio ao Labor, que é o laboratório de análises clínicas do hospital de Bôr, nos arredores de Bissau.
Quantas pessoas já ajudaram? Tem números?
“Números? não é propriamente o meu forte”, revela Manuela, mas formações já foram três, conseguiram dar formação a 51 profissionais de saúde. Médicos e técnicos de laboratório e uma equipa de enfermeiros. “São os meus super-heróis”, diz com orgulho Manuela.
Desde 2012 que em Cacheu, segundo a enfermeira parteira que lá estava, não morreu nenhuma mãe, ou criança. “E eu acho que o número zero tem muito impacto”, salienta.
E isso acontece porque há seguimento da gravidez, há encaminhamento quando se detetam gravidezes de risco, pois na Guiné as grávidas morrem por hemorragias, sepsis e hipertensão gestacional/pré-eclampsia, então é necessário ter em consideração estas situações.
Para se prevenir estes 3 grandes main killers: a infeção generalizada, septicemia, hipertensão gestacional e edemas, é preciso fazer uma boa vigilância das grávidas– não significa com isto que não haja mortes durante a gravidez, mas o números de mortes são bem menores quando há vigilância e acompanhamento. Os bebés também morrem muito por tétano neonatal e complicações no parto, por asfixia pelo cordão umbilical.
Os bebés são acompanhados no primeiro ano de vida, que é o mais implacável para estas crianças. A vacinação, as primeiras consultas, têm o apoio de uma ONG que é a Viana, a Associação de Cooperação para a Guiné-Bissau, que tem um programa de apadrinhamento à distância. “Há padrinhos aqui que dão ajuda financeira para estas crianças tenham o básico no primeiro ano de vida, que é o mais importante e toda esta vigilância tem funcionado muito bem”, revela Manuela.
Como é a escolaridade na Guiné-Bissau?
“Ainda não somos uma ONG, somos uma associação, somos ainda só 9 pessoas, mas já temos muito passado de cooperação, estamos a trabalhar as nossas competências para depois concorrermos para ser uma ONG ou ONGD”, refere.
“Para já, fizemos mais enquanto projeto do que como associação. Quem está a tratar do Centro Escolar é o Rotary Club Viana do Castelo, onde também Manuela Pimenta faz parte e a ACGB, a Associação de Cooperação com a Guiné-Bissau, que têm todos os protocolos com a direção da escola. O Professor José Luís e eu arranjámos um grande financiador para esta escola, o ex-Cônsul Robert Illing. O sonho do seu filho era construir
uma escola na Guiné, mas faleceu antes de cumprir esse sonho. “Explicamos-lhe o nosso objetivo e que era necessário reconstruir uma escola, o Jardim Girassol,” revela Manuela e que tinha desabado com as chuvas e ele disse: olha o sonho do meu filho era esse, portanto eu vou-vos ajudar. Fez um grande donativo e o projeto do centro escolar avançou e ficou com o nome de Alexander Illing.
Quais os projetos de futuro?
Temos duas grandes áreas: o ensino da medicina laboratorial e a redução da mortalidade materno-infantil. “No fundo, eram os grandes pilares do meu pai e que também é o nosso sócio honorário número um e muito lhe devemos. Queremos continuar nestas duas vertentes: dar formação, mas vamos ter que aguardar um pouco porque as coisas estão um pouco difíceis. Mas vamos combinar com o diretor-geral do hospital de Bôr para nos ceder a sala multiusos para continuarmos a dar formação aos profissionais.
O nosso objetivo é dar formação em hematologia, imunologia, doenças infeciosas e também criar perfis analíticos para o acompanhamento das grávidas, porque quando uma grávida é bem acompanhada a nível laboratorial, poupam-se duas vidas. Isso já está provado, se descobrimos que a grávida está anémica, temos de começar logo a tratá-la, se está hipertensa, medicar e vigiar. As grávidas e as crianças e a medicina laboratorial serão sempre os nossos pilares. Vamos agora lançar um projeto que se chama Zeru Anemia, para tentar controlar a anemia, um flagelo na Guiné a nível da população, em geral. Não é só nas crianças, mas também nas grávidas e em toda a gente, na sua generalidade”, termina Manuela Pimenta.




