No decurso do nosso périplo “A Semana Cultural” e muito centrados na poesia e poetas lusos, chegámos a Vila Viçosa em busca de mais informação sobre a poeta, Menina da Poesia que viveu fora do seu tempo, de seu nome: Florbela Espanca. Não nos recordamos muito dela na escola, por não figurar no plano nacional de leitura, mas a sua mestria com as letras falam por si. Poetisa controversa e cheia de “mistérios”, casou três vezes, vestiu calças nos anos 20 e fumava à janela, para quiçá, ir buscar inspiração no fumo que vagueava à sua frente. O Jornal Comunidades Lusófonas falou com Tiago Passão Salgueiro, Vereador de Vila Viçosa que partilhou de forma aprofundada sobre a vida e obra da Calipolense, que viveu num tempo envolto e dedos apontados de preconceitos durante a sua existência.
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Quando falamos de Florbela Espanca, falamos também de poesia e muito mistério. O município está empenhado a dar que falar sobre a poetisa de Vila Viçosa. “Estamos a desenvolver um projeto cultural muito interessante que tem a ver com o circuito Florbeliano e dar a conhecer o que foram as
suas vivências, em Vila Viçosa, desde o seu nascimento, de tenra idade até ao período da adolescência, em que parte da família vai para Évora, para a jovem continuar os seus estudos”.
O município de Vila Viçosa está a desenvolver um trabalho para tentar perceber esta dupla vertente como é que a comunidade Calipolense conservadora e muito religiosa olhou para Florbela ao longo da sua vida e como a poeta se sentia integrada em Vila Viçosa?
A família com forte tradição cultural, culminando com a reflexão sobre a vida e obra da poetisa, que na opinião do Vereador, tem sido um pouco esquecida pelos espaços culturais na sociedade Portuguesa bem como o contributo que deu no âmbito da emancipação feminina. Florbela Espanca “continua a ser um nome bastante desvalorizado apesar das tentativas que nós temos feito neste circuito “Florbeliano”. A criação do projeto museológico da família Espanca, que
ainda está em fase inicial. O que pretendemos é reavivar essa Memória Florbeliana e dar a conhecer a todos aqueles que nos visitam a importância que a poeta teve e continua a ter ao nível da literatura portuguesa.
Florbela nasceu 1894, fruto de uma relação extraconjugal do pai, João Maria Espanca, com Maria Lobo. Mais o irmão foram integrados na família que o João Maria Espanca tinha com a Mariana Inglesa.
Este nascimento fora do casamento convencional, deixou marcas em Florbela e na sua obra literária.
Casou três vezes. Teve uma vida sentimental um pouco atribulada. Esteve muito presente em Vila Viçosa e esse espaço de acolhimento da Vila foi uma fonte de inspiração, regressou periodicamente às suas origens para acolher o apoio da família, sobretudo do seu pai, com qual existiu sempre uma
relação muito próxima, quer do ponto de vista económico, quer afetivo.
Florbela teve uma infância feliz em Vila Viçosa. Sempre rodeada das artes e letras, nomeadamente o seu pai e tios, que eram ligados à música, poesia, cinema, pintura, etc. Florbela cresceu a beber essa inspiração familiar, nesse meio em que o pai, João Maria Espanca, foi o precursor do cinema no Alentejo. Também era fotógrafo, pintor naïf , organizava exposições, era músico e todas essas influências enriqueceram culturalmente Florbela Espanca, tendo desenvolvido o seu amor pela poesia e por Vila Viçosa, “terra inspiradora, localizada no coração do Alentejo, uma referência até à sua morte em 1930, de uma forma trágica”, salienta o Vereador.
O valor da poeta
O município de Vila Viçosa pretende recolher ao longo dos anos, vários testemunhos de pessoas que lidaram de perto com Florbela e com a família. Contam também com o apoio neste projeto museológico o circuito “Florbeniano” com cerca de quinze pontos visitáveis no espaço urbano de
Vila Viçosa, locais onde Florbela fez a sua primeira aprendizagem a nível das letras, na escola primária. Também há um busto feito pela mão do escultor Raul Xavier, na Praça da República, em Vila Viçosa, bem como um monumento funerário no cemitério. Apesar de ter falecido em
Matosinhos, a 17 de maio de 1964 realizou-se a transladação dos seus restos mortais desde Matosinhos até Vila Viçosa. Voltou para sua Terra Natal. Vários monumentos no espaço urbano, nomeadamente o “Banco da Poesia” e o mural de Florbela Espanca remetem para esse universo – um pouco do percurso que ela teve no Alentejo.
Florbela Espanca foi inspiradora para muitas Mulheres
“Florbela tem sido um pouco desvalorizada”, no seio da literatura lusófona, salienta o Vereador. Os investigadores brasileiros é que têm feito pesquisas sobre a Florbela. Há dezenas, senão centenas de teses de mestrado e doutoramento no Brasil sobre a obra Florbeniana, infelizmente, – por um lado – por ser mulher e talvez pelo seu percurso atribulado do ponto de vista sentimental, porque casou três vezes. À época a sociedade conservadora dos anos 1930 em que o peso de uma mulher divorciada era bastante difícil de ultrapassar, Florbela Espanca assumiu esse risco e procurou encontrar uma certa estabilidade emocional que nunca conseguiu.
“Fizemos algumas recolhas de depoimentos em Vila Viçosa de pessoas que privaram com a família e que a conheceram. O Vereador ainda se lembra do doutor Alexandre, que conheceu nos anos 80 e privou com Florbela Espanca. Era uma mulher muito à frente do seu tempo. Vestia calças nos anos 20, fumava, e fazia tudo o que a sociedade à época reprovava.
“Até me estranha um pouco os movimentos de emancipação femininos e dos direitos das mulheres não tenham visto em Florbela como uma fonte de inspiração” revela o vereador.
O que é que o Ministério da Cultura ao longo dos anos tem feito?
A obra de Florbela não faz parte do plano nacional de leitura nas escolas, como nos indicou o vereador e apesar das nossas tentativas de colocar algumas das suas obras precisamente nessa plataforma, não temos conseguido.
Também temos feito através do município várias solicitações nesse sentido. Todas as iniciativas culturais que têm sido desenvolvidas têm sido feitas pelo município e por algumas entidades privadas, nomeadamente o grupo “Amigos de Vila Viçosa”, uma instituição local, que é guardiã do legado do acervo de Florbela Espanca, nomeadamente os seus diários, as cartas, algumas fotografias.
Esta instituição tem desenvolvido com o município várias iniciativas de valorização cultural do nome de Florbela Espanca, mas é uma luta constante, refere o Vereador e o que tem existido é o interesse de investigadores brasileiros relativamente à obra de Florbela Espanca.
Em 2019, organizamos um evento e a maior parte dos oradores eram sobretudo do Brasil. Investigadores que se dedicavam a pesquisar sobre a arte Florbela Espanca e fazer a sua interpretação literária sobre o tema. Isto é muito sintomático sobre aquilo que realmente se passa nos nossos dias e tem sido sobretudo o município de Vila Viçosa cumprir algumas etapas. Nesse
sentido, a valorização da obra Florbeliana, avançou o autarca.
Pontualmente somos procurados por investigadores que querem publicar as suas obras relacionadas com Florbela Espanca e alguns pedidos de apoio para traduções. Só para dar um exemplo, apoiámos uma tradução para alemão, uma investigadora alemã que se dedicou a estudar a obra de Florbela Espanca.
As homenagens à poeta celebram-se todos os anos no dia 8 de Dezembro, uma cerimónia a Florbela, com uma componente cultural. Há vários músicos que também se inspiraram no nome de Florbela para produzirem as suas criações musicais e temos dado esse apoio. Agora, juntamente
com a editora Shantarin, vamos fazer também apresentação no dia 10 de Abril aqui em Vila Viçosa sonetos e a poesia de Florbela Espanca.
Neste momento estão a desenvolver a candidatura de Vila Viçosa a património mundial da UNESCO, cujo processo se encontra no centro do património Mundial em Paris. O estado português escolheu a candidatura de Vila Viçosa para ser apresentada à UNESCO e a Florbela Espanca com a sua obra, fazem parte desta documentação que foi entregue, dando conta desse ambiente erudito que sempre viveu em Vila Viçosa que é, no fundo, o principal eixo da candidatura.
O processo foi longo e muito exigente do ponto de vista técnico. Desde 2016 que Vila Viçosa fazia parte de uma lista indicativa prévia portuguesa à UNESCO e nós tivemos que valorizar o dossier de candidatura que foi entregue este ano à Comissão Nacional Portuguesa. O dossier era composto por três documentos de candidatura: estudos históricos, plano de gestão e o Estado português apropriou-se dessa candidatura, passando de local a nacional. Já foi tudo enviado para Paris e esperamos que a UNESCO tome uma decisão em 2027. O grande impulsionador da candidatura em 1999-2000, foi do arquiteto Nuno Portas.
Uma Mensagem que queira dar aos nossos emigrantes
A Mensagem que deixa é de esperança, um abraço solidário a todos os emigrantes que nos representam, não só o seu povo como também Portugal um pouco por todo o mundo. Para o Vereador, será sempre um orgulho e uma satisfação recebê-los em Vila Viçosa. O convite fica feito para conhecerem o nosso património, como o Paço Ducal ou o Castelo. Somos uma referência a
nível global. Vila Viçosa tem dado um contributo também importante à sua história no mundo, porque muitos Calipolenses partiram para outros contextos bem longínquos e deixaram a sua marca, mas nunca perderam a ligação a Vila Viçosa, bem como os portugueses que estão na diáspora não perdem essa
ligação a Portugal.
Aquilo que quero dizer é que eu, enquanto português, também sinto orgulho sobre o nosso passado e a nossa história e admiro bastante os emigrantes que se encontram a lutar pela vida longe do seu país. É de enaltecer e de louvar.
O convite fica feito. Parabéns também ao Jornal Comunidades Lusófonas, pela vossa iniciativa e ao vosso projeto e todo o contributo que têm dado, de aproximação entre os emigrantes e Portugal e dizer que temos aqui em Vila Viçosa sempre as portas abertas para os nossos compatriotas que estão
espalhados pelo mundo. Conclui o autarca.

Triste Flor Alentejana
Bela poética Flor Alentejana.
Fina Alma como Porcelana.
Asas Sonhadoras a voaram.
Palavras para sempre a entoaram.
Ouvi Palavras a chamarem.
Pegadas de Tinta contarem.
Caminhos, Biografias e Monumentos.
Na Escuridão –
Recordações de Luminosos Momentos.
Procuravas a Felicidade –
Deixaste Poemas para a Humanidade.
Alma triste a voar –
O Mundo conseguiste poetizar.
Olhei para as Bailarinas – mas não dançaram com Tristeza. Após a chegada de
Portalegre as Viajantes encontraram-se perante a Casa e o Circuito dedicado à Poetisa
Alentejana Florbela Espanca. Escreveu para o Auge do Céu dos Poetas, mas viveu na Terra amargas Lágrimas.
Ao fim do Circuito a Poesia, quase com uma Voz triste de Lágrimas, não recitou, mas falou como se estivesse a declamar um Poema: “Vila Viçosa – Vila Majestosa, Princesa do Alentejo. Uma Vila repleta de Poesia: da Escrita aos Monumentos como o Paço Ducal, o Castelo ou Santuário da Nossa Senhora da Conceição. Poesia e Tragédia: Foi da Vila Alentejana que outrora partiu a Família Real para Lisboa, onde a Morte escreveu uma Página Preta para a História de Portugal: o Regicídio em 1908 no Terreiro do Paço. Do Paço Ducal para o Terreiro do Paço. Uma Princesa e a Rainha Lisboa. Somos o País.
Poesia e Prosa, Isalita Pereira
Entrevista Exclusiva: Lígia Mourão




