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Terça-feira - 19 Maio 2026

EXCLUSIVO: A voz da comunidade lusófona no Canadá

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Clementina Santos mudou-se para o Canadá com o marido em 1977, inicialmente a procura de um emprego não foi fácil. Porém tudo muda quando começou a fazer voluntariado num centro comunitário e multiétnico, em Montreal, no qual a sua vontade e a experiência adquirida durante essa fase permitiu-lhe ajudar os outros imigrantes que frequentavam o centro. Foi a primeira mulher da região de Montreal a fazer parte do Conselho das Comunidades Portuguesas, eleita para o cargo em abril de 2008 e terminou o mandato em setembro de 2015.

O seu percurso profissional foi na área da educação em Lisboa, e como o marido estava no Canadá, embarcou para lá, com bilhete de turista e no desconhecido aventurou-se juntamente com o seu marido. Mas a vida do emigrante, na sua maioria é começar por baixo, em empregos muito difíceis e duros.

Quando chegou ao Canadá, Clementina Santos logo se apercebe que o pouco de francês e inglês que sabia não era o suficiente, “eu ouvia a televisão, os títulos dos jornais e conseguia-me orientar e perceber o que se estava a passar, mas na rua eu não entendia absolutamente nada, ninguém” comenta. Então decide inscrever-se na escola, onde para além de ter aprendido o francês também aprendeu Quebeque e ainda “um pouco de tudo, para que nós pudéssemos evoluir e fazer escolhas”. Afirma que o professor apresentou-lhes a arte e literatura do país e também que a sua ajuda lhes facilitou as escolhas no futuro.

Embora tenha conseguido aumentar as suas habilitações, a procura de trabalho foi difícil, pois a formação que tinha, o segundo ano do liceu e um curso de auxiliar de educação, não facilitavam na procura. Tentou trabalho junto às fabricas de têxteis, inicialmente falavam que iam guardar o seu nome, mas nunca a chamavam, dizendo que: “ se tu estás aqui, é só até conseguires arranjar alguma coisa”.

Entretanto, uma vizinha que soube que ela estava à procura de emprego ajudou-a a encontrar o seu primeiro trabalho numa fábrica de sacos de viagem e de hóquei. No início disse que foi “uma maravilha”, porém a adaptação foi um problema. Refere que todas as manhãs tinha que pegar num cartão verde ou vermelho que ditavam se podia ou não ir à casa de banho durante os intervalos.

O posto de trabalho, também ficou muito aquém das expetativas. Clementina ocupou o lugar da sobrinha da vizinha que trabalhava com uma máquina de costura industrial usada para coser os sacos de viagens. Quando precisava de coser o fundo era, para ela, muito complicado e exigente a nível de força, pois não conseguia levantar a patilha da máquina. O trabalho era tão pesado que o comparava a uma “sentença”, referindo que “não vim para o Canadá por ter cometido nenhum crime, acho que não tenho que estar a sofrer uma condenação destas”.

O gerente ainda tentou mantê-la a trabalhar noutro posto, desta vez nos sacos de viagem que não podiam ser cozidos e eram colados, tinha de os limpar com um produto com diluente, mas não o foi capaz de aguentar o cheiro acabando por desmaiar. O gerente ao aperceber-se da sua ausência foi procura-lá encontrando-a inanimada, acreditava que Clementina tivesse desmaiado por acreditar que ela estivesse grávida. “Eu cá a pensar, não estou grávida coisa nenhuma, eu não posso é aguentar estes cheiros, porque estou num sítio sem portas e janelas abertas e, claro não deu”, acaba por referir a realidade da altura.

Depois da experiência na fábrica e com a chegada do verão foi para um armazém de uma grande loja, a Simpsons Sears, onde a sua função era colocar as etiquetas nas roupas. Antes de começar a trabalhar teve uma formação para identificar os diferentes códigos das roupas de forma a não haver erros na colocação das etiquetas. Só ficou lá três meses para assegurar as férias das empregadas regulares. Descreve o trabalho no armazém como “experiência muito mais agradável”.

Considera que o seu primeiro emprego foi numa cooperativa de óleo de aquecimento para as residências que comprava e depois distribuía. Refere que foi essa a sua primeira experiência que estava “mais perto dos meus interesses e daquilo que eu gostava de fazer”.

Por fim Clementina Santos vai trabalhar para o Centro Comunitário e Multiétnico, onde realmente desenvolveu toda a capacidade e gosto que tinha para organizar atividades socioculturais, foi aliás, o curso que consegui adquirir. Também organizava cursos de línguas que esperava que fossem tão “eficazes como aquele que eu tinha tido”, cursos de alfabetização, “porque havia muitas pessoas de origem portuguesa que eram analfabetos, tinham sido os pioneiros da imigração dos anos 50 e, portanto, precisavam desse tipo de apoio”. Explica.

Também queria sensibilizar as pessoas à importância de pôr as crianças a socializar num jardim infantil, em vez de serem “guardadas pela avó, pela vizinha, pela comadre, e fizemos um trabalho grande a esse nível”. No Centro também tinha um jornal editado nas 5 línguas lá mais presentes, onde também havia as páginas da Comunidade portuguesa, onde Clementina Santos começou um trabalho.

Considera que o Centro foi um “voo maior que aqueles que estava habituada e onde me realizei completamente como pessoa. Ter a impressão de fazer a diferença na vida de uma pessoa”. Esteve lá a trabalhar durante nove anos, até as subvenções governamentais não serem suficientes.

Na mesma altura, conheceu um outro organismo, do qual ainda faz parte, a Rádio Centre-Ville que na época emitia em 5 línguas. A rádio nasceu da vontade um grupo que se organizou e “achou que era necessário que os “sem voz”, digamos assim, tivessem oportunidade de ter uma voz radiofónica”.

Começou como colaboradora, porém com a grande afluência de pessoas afasta-se. Regressa em 2011 quando é chamada pela rádio, que afirmava estar “em perigo, porque a equipa lusófona tinha desaparecido”, agora voltava com o cargo de produtora da emissão portuguesa, aceitando fazer dois dias por semana, nos quais apresentava rubricas diferentes.

Entretanto passa a ser membro do Conselho de Administração, como membro do Comité coordenador das emissões, para juntar todas as comunidades culturais e desde 2016 está no Conselho de Administração, e desde 2017, como Presidente do Conselho dessa mesma rádio.

Agora a sua luta na rádio é convencer Concelho da Radiodifusão e Televisão Canadiana (CRTC) a alterar a percentagem das emissões das outras línguas que não o francês e o inglês, pois a licença que têm obriga a apresentação de 60% de produto canadiano e os restantes 40% têm de ser distribuídos pelas 5 principais comunidades que já lá operavam e por outras comunidades linguísticas que estão em minoria.

Atualmente Clementina está aposentada, e explica que a profissão que “guardou” por mais tempo foi a de animadora sociocultural, tradutora e intérprete junto do Ministério da Justiça do Quebeque, onde trabalhou nos tribunais quando era necessário traduzir do português ao francês ou do francês para português e também na aquisição das cartas de condução, embora estivesse ligada ao Ministério dos Transportes, traduzia o exame para os alunos. Trabalho nessa área durante mais de 30 anos, entre 1980 e mais ou menos 2011.

O que faz quando está quando sente saudades de Portugal, gastronomia, cultura, livros, música, arte?

A antiga conselheira do CCP (Conselho das Comunidades Portuguesas), afirma que procura sempre estar atenta com os eventos culturais portugueses que se realizam no Quebeque e arredores, além de tentar sempre sensibilizar os seus conterrâneos a participarem tanto nos eventos organizados por portugueses como pelos locais.

“A saudades da família está em Portugal” afirma que “vem cá, todos anos às vezes mais do que uma vez por ano e nestes 50 anos tenho vindo pelo menos uma vez por ano”.

Jornal Comunidades Lusófonas
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