Mergulhado no cinzentismo da ditadura em Portugal, não era permitido ao seu povo a vontade de crescer e ser um país mais desenvolvido e melhor nutrido, a fome era um habitué aos mais desfavorecidos, que na sua globalidade eram a maioria. Para sair deste marasmo em que o país se encontrava António Matinho, que conta agora com 90 anos de idade saiu da terra natal, depois de cumprir o serviço militar na zona do Lumiar em Lisboa, uma zona rural nos arredores da capital, com grandes quintas, decidiu e foi para os Estados Unidos, onde a liberdade não se atinha apenas à estátua!
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Decidiu ir para os Estados Unidos decorria o ano 1958. Tudo era numa novidade para António Matinho e quando lá chegou envolveu-se nos estudos da língua inglesa durante dois anos. O casamento veio mais ou menos nessa época e era filha do fundador e proprietário do jornal Luso-Americano, tendo sido inaugurado em 1928. Desde então, até hoje nunca deixou de publicar e estar à venda nas bancas, à exceção do período de depressão económica que existiu pelo mundo inteiro, a crise dos anos 20. Salvo essa exceção, o bi-semanário tem estado nas bancas há quase um século, mais precisamente 98 anos. “e vamos continuar a fazê-lo”. Defende o atual proprietário.
Newark à época era uma zona mista, havia fábricas, habitações e terrenos ao “abandono”. Na década de 60, 70, 80, os portugueses começaram a instalar-se nessa zona no Ironbound. Esta zona da cidade melhorou significativamente desde a chegada dos portugueses. “E melhoraram-na de uma forma excecional, porque mudou radicalmente. Era uma área muito pobre, e pouco desejada da cidade. No entanto, foi aqui que os portugueses arranjaram trabalho e começaram a sua vida dando um impulso qualitativo e de uma forma excecional das suas vidas”, salienta António Matinho.
O Jornal também acompanhou essa evolução, pois os leitores começaram a acompanhar as boas novas de lá e de cá. Desde a década de 70, 80,90 e até mesmo 2000, 2010, o jornal tinham muitas tiragens acompanhado com as vendas, “era um movimento enorme. Chegámos a ter a vinte e tal jornalistas a trabalhar no jornal”. Hoje não são tantos porque a comunidade portuguesa está a mover-se para outros lugares nos Estados Unidos, sintomas de pulsar de vidas que estes portugueses pretendem procurar noutras áreas daquele país, é um fator, o outro é um desaceleramento da emigração portuguesa para os Estados Unidos, que tem baixado significativamente e não se compagina com as décadas áureas de 1960 e 1970.
No Ironbound havia muitas fábricas e algumas habitações. Era uma combinação “ainda me recordo de haver por aí umas propriedades na zona onde viviam as pessoas com menos possibilidades financeiras do que outras áreas da cidade”, recorda o proprietário do Jornal Luso-Americano. No entanto havia muito trabalho e as comunidades portuguesas aproveitavam as oportunidades e trabalhavam nessas fábricas, pois havia muito movimento industrial, que permaneceu aos últimos anos da década de 1920, mesmo antes da depressão, muita gente da Nova Inglaterra e portugueses que estavam lá radicados, mudaram-se para New Jersey pelo facto de haver ali uma revolução ou grande movimento no setor da indústria.
A transformação do Ironbound
Segundo nos relatou o Senhor António Matinho, havia um café, mas pensa que não pertencia a nenhum português, o proprietário chama-se Peter, estava situado na Ferry Street, a estrada principal que resga de uma ponta até à igreja das cinco esquinas, bem lá ao fundo, onde neste momento está repleto de lojas cafés e restaurantes portugueses!
Mas recuando um pouco no tempo, na era do senhor Peter, o café era mais frequentado por trabalhadores, onde se tomava um café e comia-se. Hoje tudo mudou, florescem vários negócios, cujos proprietários são maioritariamente portugueses, onde também se pode comer uns bons pasteis de nata, devido ao elevado número de cafés que ali se encontram e tudo que é português se pode matar as saudades da gula.
Estas lojas portuguesas começaram a abrir logo após o terminus da Segunda Guerra Mundial. Os portugueses começaram a envolver na compra de propriedades e a estabelecer-se no Ironbond. Até se transformar naquilo que é hoje a parte do bairro leste de Newark.
Quando se deu a explosão demográfica portuguesa no Ironbound?
“Temos que remontar para a década de 1960, porque foi aquele período de tempo que houve a chamada: emigração aberta. Qualquer residente ou português podia ir para os Estados Unidos, só era preciso “quase dizer”: olha eu tenho um amigo! Telefonavam e imediatamente vinham. Com tamanha explosão demográfica o jornal também veio beneficiar na sua tiragem, reflete o senhor António Matinho no auge e lucidez dos seus 90 anos!
O jornal noticiava uma espécie de combinação, dedicavam espaço à situação às notícias em Portugal e às notícias nos Estados Unidos. Com o decorrer dos anos e com tantas mudanças de vivências da época de 1960 até muita coisa sofreu alterações profundas na comunidade portuguesa em Newark, e até mesmo nos Estados Unidos. O jornal está um pouco mais dedicado à vida comunitária dos portugueses nos Estados Unidos e talvez menos com o movimento dos acontecimentos em Portugal. Agora as pessoas têm mais acesso à informação, as novas tecnologias vieram alterar velhos paradigmas. Os portugueses de agora estão mais letrados, esclarecidos, com boas formações académicas e escolhem a internet com vários motores de busca e um sem fim de órgãos de comunicação online. Só para termos uma ideia, durante os anos 60, 70, 80 saiam das rotativas 30/40 mil jornais, presentemente saem metade, e trabalham 17 jornalistas.
Quais são as notícias mais anunciadas?
Os acontecimentos comunitários, o envolvimento que tem sido espantoso e uma realidade de admirar com o envolvimento dos portugueses na vida política dos Estados. E isso está a ser seguido, explorado, esmiuçado e as pessoas estão a aceitar isso. “Estamos bastante envolvidos nessa área.”
Também noticiam assuntos políticos em Portugal, como foi o caso recente das eleições presidenciais, houve muito interesse em participar nas eleições, os portugueses radicados aqui, expressaram os seus desejos e muitos foram votar. No entanto, aqui também lhes interessa, porque “temos muitos portugueses envolvidos em diferentes posições, não só da Câmara Municipal, como Estadual e até Federal, o que requer um pouco, diria mesmo mais interesse na vida política Norte-Americana, do que a política em Portugal, mas isso é natural”. Termina António Matinho.





