André Patrão é natural dos Açores – “ com muita sorte de nascer açoriano” – saiu da sua terra natal quando tinha 17 anos e foi para o continente onde fez licenciatura em Arquitetura na Universidade de Lisboa. Aos 20 anos foi para a Suécia (que seria a sua primeira aventura fora de Portugal), frequentou a Universidade de Lund, onde fez o mestrado em Urbanismo. Mas a sua carreira académica e profissional têm-no levado a muitas outras latitudes e geografias, são os diagramas na sua carreira académica e profissional, “the sky is the limit”.
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Já sentia o apelo à parte teórica, mais concretamente à teoria filosófica. Saiu da Suécia e foi para a Bélgica, onde frequentou licenciatura e mestrado em filosofia…um académico em andamento. Os estudos prosseguiram noutro patamar, foi para a Suíça fazer o Doutoramento na Universidade de EPFL em Lausane, aprofundar conhecimentos na combinação de investigação filosófica e arquitetura, “que tem uma longa tradição nesta última”. Explica.
A aventura Internacional continuou, e as viagens também, foi para os Estados Unidos fazer investigação na Universidade de Yale e depois regressou à Suíça, esteve em Zurique, na Universidade ETH. Não conformado com o que fazia seguiu para Atlanta, nos Estados Unidos e começou a trabalhar como Professor de Arquitetura, onde se encontra há pouco mais de um ano, na Emory University, uma Universidade bastante conceituada nos Estados Unidos e não só.
Arquitetura e Filosofia, a complementaridade

A mistura destes dois ramos foi algo que sempre atraiu André Patrão, não só na Universidade Emory, mas no sistema de ensino americano: a interdisciplinaridade.
“Emory, especificamente, tem um sistema de artes liberais muito bom,” o que significa que recebe alunos de todas as áreas. A especialização começa mais tarde, os alunos que pretendam ser médicos têm aulas nas Humanidades, nas artes, na sua formação, desta forma permite uma visão mais ampla do mundo e isso reflete-se tanto na investigação como na educação.
André é Professor de Introdução à Arquitetura, dá aulas práticas e teóricas que combinam a reflexão teórica e filosófica da arquitetura. Tem alunos de várias áreas de conhecimento, desde estudantes de arquitetura, urbanistas e outros que vão por caminhos completamente diferentes.
O desafio é este, ter instrumentos em que a arquitetura pode dar aos alunos que vão para outras carreiras profissionais. O que é que há de especial na arquitetura, no conhecimento da arquitetura, na forma de ver o mundo, na forma de interagir com o mundo que pode ser útil, que pode ser formativo, mesmo para quem não seja arquiteto no futuro, “tem sido um desafio fantástico”, revela André.

Há uma longa tradição, especialmente na arquitetura europeia. A Americana de interação entre arquitetura e filosofia, especialmente entre os anos 60 e 90, deixou uma marca muito forte não só na teoria de arquitetura, como ainda fazemos hoje, também na prática.
A Arquitetura faz-nos voar o pensamento, não são apenas edifícios ou salas, vai muito mais além. Por isso, muitos dos grandes arquitetos que conhecemos desse período também escreviam sobre arquitetura. Pensavam, o que é que nós estamos a fazer? Como é que nós podemos executar estes ideais? É uma ligação entre ideias teóricas perto do abstrato e depois a prática como é que o espaço influencia a nossa vida? Como é que o espaço refletem certas ideias? Todas estas questões passam pelas cabeças dos comandantes da Arquitetura.
Não sendo arquitetos, mas circulando no espaço, “conseguimos ler a história, a cultura, os fenómenos no meio construído na arquitetura, no urbanismo que nos dizem muito sobre o lugar, as pessoas, as vivências. Isso dá toda essa dimensão invisível, implícita na arquitetura e tanto na sua investigação como nas aulas, “nós trazemos essa realidade invisível à superfície para vermos, percebermos, sabermos ler e depois como é que havemos de reagir. A realidade está lá, quer queiramos quer não e por isso mais vale estar consciente dela e saber como lidar com essas com essas dimensões teóricas.” Explica André Patrão.
Qual é o movimento arquitetónico que aprecia mais?
Principalmente do século XX e XXI, onde se especializou mais. Também aprecia casos muito interessantes de arquitetura e filosofia da Idade Média, mas o seu enfoque é a viragem para o século XX até aos dias de hoje.
Como é que vê a arquitetura portuguesa neste momento? Como é que a classifica e qual é o seu arquiteto preferido a nível nacional e Internacional?
A arquitetura portuguesa tem uma reputação fenomenal Internacional, não só os grandes nomes conhecidos da arquitetura portuguesa, mas a própria formação de arquitetos portugueses quando saem da universidade e procuram emprego num atelier, tem muito mercado porque a qualidade da arquitetura portuguesa é altamente reconhecida e é uma arquitetura que tem sabido reinventar-se mesmo à volta de uma tradição típica portuguesa. Temos casos concretos como Siza Vieira, reconhecido no mundo inteiro e Souto de Moura também. Mas a arquitetura portuguesa não se esgota a estes dois senhores.
Siza e o Souto Moura foram agraciados com o Prémio Pritzker, que é o equivalente do Nobel de Arquitetura. Siza foi o primeiro e depois Souto de Moura e isso permitiu e expôs muita visibilidade internacional à escola do Porto.
Mas os arquitetos portugueses nos dias que correm não se limitam à “retilineidade” de Siza e Souto Moura, mas não “desconsideram” o que foi e tem sido feito. Há sempre em diálogo, com a longa tradição de arquitetura portuguesa, que é excelente e vai muito para além… séculos e séculos antes de Moura e Siza, mas sempre a encontrar um vocabulário novo, a adaptar-se às circunstâncias diferentes e valorizar o nível do detalhe, do cuidado, da beleza, da atenção ao pormenor, que tem muito pouco rival no resto do mundo.
Porque escolheu Atlanta para trabalhar e viver?
André já viveu em Nova Iorque e aprecia imenso a cidade e a arquitetura, no fundo a sua vivência. “A Arquitetura em Nova Iorque é inesgotável. Os Estados Unidos tem muito para oferecer e especialmente no século XX, era o centro do mundo da arquitetura mais inovadora e extraordinária à escala global.
Antes de Nova Iorque ser Nova Iorque, Chicago ia mais além e os edifícios já se impunham lá no céu. Nova Iorque seguiu-lhe os passos e pretendiam almejar edifícios ainda mais altos do que em Chicago e começaram a proliferar por toda a ilha de Manhattan, com todos aqueles edifícios que nos faz por a cabeça à roda para ver qual é o edifício mais alto.
Por todo o país há lugares com arquitetura moderna e pós-moderna, que é realmente icónica e arquitetos oriundos de todo o lado, não apenas americanos, os europeus que escaparam da Europa depois e durante a Segunda Guerra Mundial. O mundo andava num turbilhão, mas a criatividade não tinha amarras e era necessário o que se passava do lado de cá. E muitos arquitetos emigraram para os Estados Unidos na segunda metade do século XX. Os Estados Unidos concentravam um grupo fantástico de arquitetos e continua a ter. Até Siza Vieira, tem uma obra em Nova Iorque única neste momento nos Estados Unidos.
André Patrão diz que Atlanta é uma das grandes cidades americanas, faz parte desta cultura, mas também tem arquitetura própria e desse período, há um arquiteto em particular, que se tornou muito conhecido, John Portman, americano que tinha uma particularidade, não trabalhava só como arquiteto, mas era também proprietário. Comprava, investia em lotes de terreno e depois construía o seu projeto lá, de seguida vendia-o. Ele era cliente e arquiteto e podia construir coisas absolutamente extraordinárias que noutros contextos seriam impossíveis. Num dos hotéis que construiu em Atlanta, fazem-se filmagens de séries e filmes de ficção científica, “o espaço é incrível”. Revela André.
Uma mensagem que gostaria de deixar aos portugueses, aos arquitetos portugueses, aos artistas de maneira geral, a todos os portugueses. Como é que somos vistos todos americanos em Atlanta?
Atlanta tem o aeroporto mais movimentado do mundo. Tem a sede da Coca-Cola e da CNN. Em Emory, um dos professores daquela universidade foi um ex-Presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, que morreu no ano passado, “é uma grande cidade”, reforça o arquiteto português.
É um grande polo americano e muito popular. Não está na Costa Este, não tem a mesma representação portuguesa como Nova Iorque, Rhode Island, Massachusetts, Havai, especificamente açorianos.
“Estou a começar, a reforçar a chegada dos portugueses a Atlanta. E a mensagem aos artistas na sua generalidade e arquitetos portugueses no estrangeiro, eu só tenho a agradecer a todos eles. Tenho a agradecer a reputação que trouxeram de Portugal pela forma, pelo seu profissionalismo, pelo seu modo de vida, por aquilo que trazem aos países onde vão e aquilo que aprendem dos países para onde vão e o que levam de volta a Portugal. Eu agradeço porque beneficio disso: da imagem que os portugueses têm no mundo, graças a todas as pessoas que contribuem para essa imagem e espero estar à altura. Faço esforços diários para manter a fasquia alta, que se criou e continua a dar sempre boa imagem de Portugal, tanto na minha vida pessoal como na minha vida profissional.” Finaliza o Arquiteto/Professor, André Patrão.




