No ano em que se comemora o bicentenário da morte de Camilo, o debate não cessa. Afinal quem era este escritor, simultaneamente conservador e crítico das convenções sociais, ultra romântico e descrente do amor? O fantasma de Camilo continua a pairar e a ser alvo de novas revelações.
Camilo Castelo Branco permanece um dos maiores mistérios da literatura portuguesa. A sua imensa obra – os especialistas apontam um total de mais uma centena de obras, além de crônicas de jornal – não só é extensa como é heterogênea.
Segundo um dos maiores especialistas camilianos, Alexandre Cabral, estima-se que Camilo escreveu mais de 30 mil páginas escritas correspondentes a 133 obras originais, duas mil páginas de polémicas, 2 600 páginas de escritos avulsos, 569 páginas das obras alheias que verteu para português, e 15 mil páginas de correspondência, além de outros textos.
Uma quantidade extraordinária de produção literária – talvez no século XIX só o possamos comparar a Balzac, outro escritor que se evidenciou no folhetim e no romance – mas além do número, o escritor nascido em 1825, em Lisboa, revela-se muito versátil, escrevendo desde crónicas e críticos com um estilo mordaz até a romances e contos, comédias, folhetins ou poemas .
Geralmente enquadramos Camilo no gênero romântico, mas o romantismo de Camilo é diferente de qualquer outro. Jacinto Prado Coelho, outro especialista da sua obra, referia que existia ao “ lado do seu alto idealismo, um realismo sui generis de vocação pessoal que parece na razão direta da autenticidade do seu romantismo”.
Se o compararmos com outras grandes figuras do romantismo português como Alexandre Herculano ou Almeida Garrett, constatamos que as suas obras são mais complexas, mais densas. Embora formalmente são românticas, possuem um olhar crítico sobre a sociedade que o aproxima a um certo realismo, o que não é estranho dado que se interessou e leu, por exemplo, autores como Émile Zola
Um romance como Amor de perdição parece-nos, dois séculos depois, o epítome do romantismo: cheio de personagens fadadas para
fracassar no amor, separadas pelo destino funesto, condenadas a uma pena capital pela ousadia de querer amar. Temos a tentação de usar esta obra como testamento literário de Camilo, como expressão de um estilo reconhecível e, de certo modo, domesticável ao juízo dos leitores e à análise dos críticos.
No entanto, e essa é a beleza de Camilo, outras obras dele vêm imediatamente confundir-nos e mostrar a profundidade da obra camiliana. Um exemplo óbvio é um livro solar, que bem poderia ser escrito pelo seu grande rival literário, Eça de Queiroz, chamado “ A Queda de um anjo”.
Calisto Elói, o protagonista, é a antítese da personagem torturada que encontramos no Simão de Amor de Perdição . É um homem com raízes rurais, que vive aprisionado num casamento infeliz, e que, quando chega ao Parlamento, em Lisboa, vem com um pensamento anquilosado no tempo, sujeito ao conservadorismo mais retrógrado.
O escritor que associamos instintivamente ao campo, a cenários literários que se limitam ao Minho e ao Alto Douro, troca-nos as voltas. Não só Calisto muda o vestuário, adere à moda, como se torna urbano, passa para o grupo liberal, abdica de uma existência pré-determinada e abraça o direito a ser feliz .
É como se no interior da sua obra, coexistissem dois Camilos: um que retrata magistralmente o fatalismo do homem português, incapaz de assumir o seu destino, e outro que se desfaz dos atavismos e assume integralmente a liberdade como desejo supremo.
Talvez “ A queda de um anjo” seja o livro que mais nos aproxima da personalidade do seu autor. Com efeito, o Camilo que, ainda adolescente, teve duas relações breves, e que, em 1850, protagonizou um caso com uma mulher casada, Ana Plácido, escandalizando a sociedade portuense, e que foi preso , é um aventureiro, um dândi, uma figura com o seu lado anarquista que parece desfasada do seu tempo, um escritor e um homem que transcendeu a sua época.
As celebrações do bicentenário do nascimento de Camilo, que se iniciaram em 2025 e se prolongarão até 2026, são reveladoras dessa transcendência intemporal. Entre outras iniciativas, destaca-se o projeto Camilo 200, coordenada pela CCDR-Norte, que junta cerca de 30 Instituições para criar uma agenda partilhada de eventos artísticos, culturais, científicos sobre a vida do autor.
Também se irão desenvolver outros eventos ligados ao escritor como exposições de objetos pessoais, cartas, e serão organizadas mesas redondas em locais como o Museu do Porto para falar da sua vida. As visitas e roteiros literários com temáticas como “ Amor de Perdição” ou “ Cenários portuenses de Camilo” são outras iniciativas que nos aproximam aos lugares que se inspiraram ou onde se escreveram obras como “ Amor de Perdição” – a cadeia da Relação do Porto.
O Universo de Camilo é infindável. Cabe-nos explorá-lo em busca de novas revelações – essa é a sua grande marca como grande autor, a sua capacidade para nos surpreender com novas facetas.
Rui Marques




