A multinacional IBM está em Portugal há 87 anos, e de lá para cá muita coisa mudou. Estivemos à fala com a Engenheira Hélia Jorge, ex-funcionária desta empresa Norte-Americana, durante 32 anos. Passou por vários cargos, e terminou como Diretora Comercial, função que desempenhou durante 12 anos. Formou-se em Matemática e um curso em Engenharia Informática, e passados poucos meses entrou para a IBM Portugal. Confessa que não sabia muito bem o que era. Apenas sabia que era uma grande empresa de computadores, e aos 22 anos, era “um mundo”.
Começou como técnica, onde trabalhou 10 anos nos grandes computadores. Esteve mais 10 anos como Diretora Técnica de Serviços e Suporte Técnico.
Depois passou para a área Comercial, onde foi Diretora durante 12 anos, totalizando 32 anos na IBM. Costuma dizer que esteve 2 anos a mais, porque os “meus ciclos de vida são de 10 anos.” Partilha Hélia. Foi 10 anos Técnica, 10 anos Diretora Técnica e, 12 anos Diretora Comercial.
Tinha como objetivo trabalhar e pré-reformar-se aos 55 anos, para fazer outras coisas. “Gosto de fazer muitas coisas diferentes. Gostei da minha vida e da minha carreira, mas queria fazer outras coisas e foi o que fiz. Em Abril de 2016, antes mesmo de fazer os 56 anos, saí da IBM e abriu-se-me um outro mundo.” Salienta Hélia.
Como é trabalhar numa multinacional Norte-Americana?
“Tudo que seja generalizado, peca por isso”, vinca a ex-funcionária da IBM, “mas normalmente as empresas americanas, não digo multinacionais de uma forma geral”, porque nunca trabalhou numa multinacional francesa, ou de outro país. As multinacionais americanas são mais informais, não são tão rígidas. Em termos profissionais era muito fácil mudar de funções dentro da IBM, “eu não mudei assim tanto, fui mudando, havia essa possibilidade, porque se não se gostava de um trabalho, havia muitas possibilidades de desempenhar outras funções”.
Para exemplificar, revelou que houve pessoas que tiveram cargos de Direção e que depois deixaram de ter. Na cultura da IBM Portugal, ter cargos de direção não é o último reduto, “as pessoas devem fazer o que gostam, sempre defendi isso, e se as pessoas experimentarem e não gostarem, vão para outra função qualquer e está tudo bem”, as empresas portuguesas “são normalmente mais rígidas, mas generalizar é mau”, refere Hélia.
Há empresas que são mais rígidas que outras. Para Hélia, que trabalhava muito com clientes, percebia que a banca é um mundo, os media são outro, são mais informais, as indústrias do Norte são muitas vezes familiares. Há uma diferença de empresa para empresa, do privado e do público, mas de uma maneira geral as multinacionais americanas são mais informais, nomeadamente a IBM. “E sempre me identifiquei mais nessa linha de trabalho informal.” Refere a ex-funcionária.
Como é que os Americanos viam os portugueses em termos laborais?
Os americanos, para Hélia, vêm os portugueses como a maior parte dos países vê os portugueses, como trabalhadores incansáveis. Os portugueses são pessoas que têm uma grande capacidade de trabalho, que podem chegar longe, não só no sentido hierárquico. “São muito desembaraçados, se alguma coisa não funciona, nós não vamos parar o processo, nós resolvemos o problema”, revela.
Pensa que genericamente em todos os países com quem contactou os portugueses destacavam-se sempre, por serem pessoas que não seguem rigidamente um processo. Isso podia ser uma coisa boa ou má, mas os portugueses aprendem depressa e resolvem os problemas muito rapidamente.
Sentia-se de alguma maneira, uma espécie de “emigrante” no seu próprio país. Como é que era essa ligação?
“Nunca me senti emigrante no meu próprio país. Isso não existia. Os nossos presidentes foram quase sempre portugueses. E a grande população da IBM também.”
“Aliás colaborei muito como técnica, Diretora Técnica, e Diretora Comercial, com muitos colegas de outros países, e nunca me senti emigrante, nós não éramos emigrantes, nós éramos trabalhadores da IBM do mundo, que por acaso estáva em Portugal”, enfatiza Hélia Jorge.
Havia mais nacionalidades ou eram apenas portugueses?
Inicialmente eram quase só portugueses. Mas a partir de uma certa altura em que a IBM cresceu, quer em número de pessoas, quer em termos de negócio. “Fizemos outsourcing e incorporámos outras empresas portuguesas, e precisamos de gente fora do país. Precisámos de consultores, de técnicos. Pontualmente, quando havia um problema técnico no cliente, que extravasava as nossa competências locais, tínhamos equipas de todo o mundo a trabalhar cá.”
“Nós não sentimos como portugueses e americanos, eramos portugueses, holandeses, espanhóis, franceses e turcos, era o mundo ali.” Recorda Hélia Jorge. Estávamos organizados por países, regiões, continentes, europa, e só no fim a casa mãe americana.” Exemplifica.
Nunca lhe surgiu o bichinho de querer emigrar, uma vez que conhece a experiência de trabalhar numa empresas multinacional?
“Não”, responde prontamente a ex-funcionária, embora alguns colegas seus o tivessem feito e felizes com isso, mas para Hélia não era o seu foco. O máximo que esteve fora a trabalhar foi dois meses na Bélgica. Nunca quis emigrar, tem raízes fortes, “era importante para mim, podia tê-lo feito e até se quisesse crescer na carreira, teria que o fazer.” Mas Hélia não se revia nesse papel.
“Não o fiz por uma questão de hierarquia de valores, não é para mim, os valores da família e o meu País, eu gosto bastante do meu País. Nunca tive vontade de trabalhar noutro país, apesar de ter tido algumas propostas”. Esclarece.
Uma mensagem aos nossos emigrantes por esse mundo fora
“Os nossos emigrantes portugueses devem ser eles mesmo. Eu acho que a aculturação tem que ser sempre feita com algum cuidado. Nós temos que nos adaptar quando estamos fora. Embora eu não seja a melhor pessoa para falar sobre isso, nunca emigrei, acho que nós temos que nos adaptar, e adaptar significa, enquadrarmo-nos nos costumes dos outros. Mas sem perder a nossa identidade. Somos muito ricos enquanto povo, e enquanto portugueses. Eu acho que manter essa identidade e mostrá-la ao mundo é importante. E se formos a qualquer lado, ninguém vai dizer mal dos portugueses.” Finaliza Hélia Jorge.




