Fernando Moutinho nasceu em Angola na altura da guerra colonial em África. “Foi um bocado dramática toda aquela situação porque as pessoas tiveram que sair e deixar tudo o que tinha construído” e “eu acompanhei e vi” todo esse drama. “Tivemos que sair de Angola, e rumar para Portugal.” Alguns foram para o Brasil, ou para outros países. “Foi entregue da forma como foi e volvidos 50 anos, as melhorias não se veem absolutamente nenhumas”.

“Porque o povo angolano continua a sofrer e a viver na pobreza”. De Angola fomos para Amarante. E a partir daí, fez a escola e mais tarde mudaram-se para Anadia, onde frequentou o secundário, já na Universidade, optou por estudar direito, na Católica do Porto. Entretanto foi para a tropa, pois era obrigatório à época. Depois do serviço militar foi para fora, para Atlanta, nos Estados Unidos.

Começou a estudar a parte de aviação. Depois foi para Macau, onde iniciou a carreira, na altura tinha concorrido à TAP. Mas a companhia aérea Portuguesa queria que ficasse em Portugal, mas já se tinha comprometido ir para Macau e acabou por ir, onde esteve quase 17 anos.
Em 2012 foi para Hong Kong. Tendo em 2015 ido para o Catar, onde está quase há 10 anos. É piloto de avião na Qatar Airways. Desempenha função de Comandante. Fazem voos para variadíssimos lugares do mundo. Desde a Austrália, Estados Unidos, América do Sul, Europa. Variadíssimos lugares. “Sou piloto há uns 27 anos, mais ou menos.”
Nestes 27 anos, algum dia teve algum susto que se lembre?
“Susto, não é bem susto, mas nesta conjuntura de aviação, qualquer piloto que diga que nunca teve algum problema ou que realmente não tenha sido uma coisa sensível, naturalmente deve estar a mentir, porque todos nós, de uma forma geral, já tivemos.” “Lembro-me de uma situação, nomeadamente em Macau, e em Hong Kong”. Normalmente, mais no Verão, há muito mau tempo. E naquela altura estava mesmo muito mau tempo nesse dia. “Tinha vindo de Xangai e quando cheguei a Hong Kong o tempo estava péssimo, e os aeroportos já estavam fechados.” E não se podia ir para lado nenhum, e o combustível também era limitativo. Embora “nós tivéssemos posto mais combustível, o tempo estava mau porque “estávamos a passar por um Tufão de grau elevado”. O vento era tão forte que partia as janelas e arrastava os carros.
De Macau para o Catar
Por uma razão simples, porque estaria mais perto de Portugal. E essa foi a principal razão que o levou a mudar para o Catar. “Gosto de estar aqui” afirma Fernando, é seguro, tranquilo, “arriscaria a dizer que é o país mais seguro do mundo”. “Nunca vi um país como este. Em termos de segurança, realmente as pessoas andam à vontade.”
“Passei por duas situações semelhantes, uma num Centro Comercial, que me esqueci da carteira e passadas duas horas quando voltei lá estava no mesmo sítio, e numa outra situação quando fui levantar dinheiro na caixa multibanco, também me esqueci da carteira e dos óculos, e quando lá voltei passadas umas horas, estavam no mesmo lugar”. “São dois exemplos curiosos”.
“Em Portugal vive-se na sensação de que não há muita punição em caso de crime, e muitas vezes é triste ver isso de uma forma continuada, e nada acontecer, porque aqui se acontecesse esse tipo de coisas, iriam para a cadeia e seriam expulsos do país”.

A formação de aviação nos Estados Unidos
“Estive inicialmente seis meses e depois fui mais três anos.” Porque depois da parte teórica, vem a parte prática, da aviação. As pessoas começam, a trabalhar e é preciso adquirir essa experiência prática, é fundamental. “E parece fácil, mas não é.”
Fazer essa formação prática nos Estados Unidos, é mais económico. Não é só por esse aspeto, é que nos Estados Unidos as coisas são bem mais facilitadas. Se se quiser falar com o Presidente da Câmara hoje, fala-se com o Presidente da Câmara. Não é preciso estar a marcar. Chega-se ao departamento e pura e simplesmente solicita-se uma sessão para falar.
Outro exemplo: tirar a carta de condução. Também é extremamente fácil, todas essas coisas estão mais abertas e tudo está mais facilitado. Em Portugal encontramos uma série de obstáculos em tudo, há muita burocracia, “não entendo, sinceramente, ainda hoje não entendo”.
Até profissionalmente estamos a praticar salários muito baixos em profissões importantes para a sociedade como é o caso dos professores, e dos profissionais de saúde, mas há outras profissões. “Como é o caso dos nossos médicos que ganham 1500 euros? Como é que o Professor ganha 1000 euros ou 1200 euros? Profissionais que dão formação às novas gerações às gerações futuras. “Para mim é um contrassenso. Não faz sentido um político ganhar tanto dinheiro e um professor ganhar o ridículo que ganha, é um contrassenso”. Por exemplo, “tenho amigos nos Estados Unidos, em que me dizem que um enfermeiro ganha 28 mil dólares. “É um salário compatível com as suas funções”. Evidencia Fernando Moutinho.
Portugal ao final de sei lá 30 anos, não melhorou em nada, rigorosamente nada! “E isso choca-me profundamente, porque nós estamos a perder cada vez mais quadros de excelentes profissionais que outros países absorvem, como é evidente.” Sinto uma profunda tristeza. Fala-se muito em melhorias, “mas as melhorias não estão lá”. “Os nossos reformados sofrem porque querem uma consulta e só a conseguem passados meses. “As pessoas com menos idade que querem marcar uma consulta num hospital também “estão na mesma situação”, precisam de um mês, dois meses, três meses, cinco meses para marcar uma consulta, e serem atendidos com dignidade, e essa dignidade não está lá!” Desabafa o piloto.
Imigração
“Eu acho muito bem”. Que o país acolha as pessoas que realmente precisam de ser acolhidas que vêm de outros países, “acho muito bem, mas também acho bem que se faça uma triagem, porque no meio de muitas pessoas também vão outras pessoas que não são tão boas”. E levanta a questão: “Porque é que nestes países eles não vêm para aqui?”
“Há dias vi uma entrevista, de um senhor desta zona dos Emirados Árabes, que faz parte do governo, e ele dizia: “Os Países europeus acham que sabem muito mais da nossa cultura e da nossa política”. “Nós não os queremos cá por esse motivo”. “E ela é válida”. É que quem vem no meio dessas pessoas, há pessoas não gratas e que vêm para criar problemas ao nosso país!” Este é apenas um exemplo.
Portugueses no Catar e como são vistos
Não tem uma ideia de quantos existem no Catar, mas adianta um número, “eu diria, talvez uns 2000. E em profissões diversificadas. Professores, Médicos, Fisioterapeutas, Pilotos, Enfermeiros. Das mais variadíssimas profissões, também há treinadores de futebol. “De tudo um pouco.”
Os portugueses têm muito boas referências, “temos uma comunidade pequena, mas é uma comunidade calma, tranquila.”
A maioria com quem “eu tenho falado, tem muito boas referências de Portugal”, e quando vão falam muito bem do país, das pessoas que são muito simpáticas, muito agradáveis, também falam muito “da nossa comida”. Que é um país muito bonito, muito agradável. Sempre com boas referências, “nós temos uma imagem boa”. Alguns já compraram casa para residir e alguns até movimentaram as famílias para aí.”
São pessoas com posses completamente diferentes. Mas gostam de comprar no Alentejo, no interior. Porque gostam da parte de verde, porque aqui é muito árido, mais seco. Gostam muito da natureza, adoram a nossa civilização, as nossas gentes. “Somos muito simpáticos”, muito agradáveis. “Sempre muito positiva a informação que eu tenho” é de que realmente, “o nosso povo é muito simpático, muito agradável.”







