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Quarta-feira - 11 Fevereiro 2026

EXCLUSIVO – Elaine Oliveira: “A psicoterapia é um encontro de uma pessoa com ela própria”

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Fotografia de Elaine Oliveira

O que é a saúde mental? Como abordar este tema tabu com a comunidade lusófona? Para a psicoterapeuta Elaine Oliveira a resposta encontra-se na maneira de tratar os tópicos, ou seja, de não falar de doença mental mas da vida e dos seus desafios. O Jornal Comunidades Lusófonas esteve à conversa com a terapeuta para desmistificar a saúde mental e perceber a importância da psicoterapia para todos.

Quando a Elaine Oliveira veio para Toronto em 2013 tinha como plano de aprender o inglês e depois voltar para o Brasil. Mas esse plano acabou por mudar completamente. Pois, já vai fazer 5 anos que ajuda a melhorar a saúde mental de todos, especificamente da comunidade lusófona de Toronto.

Elaine formou-se em psicoterapia no Brasil em 2007 e começou a trabalhar já lá vão seis anos. Tinha a sua clínica e portanto não tinha necessidade de emigrar. Naquela altura, Elaine pensava que aprender inglês poderia ajudá-la a crescer na sua careira no Brasil. Aliás, ela explica não ter escolhido especificamente Toronto: “na altura era a cidade com o melhor custo-benefício para mim. Também porque vim no inverno e os preços eram ainda mais baixos; ninguém queria vir no inverno”, brinca Elaine.

“Cheguei sem falar inglês, sem conhecer ninguém e sem referência nenhuma. Pensei que ia ser capaz de aprender inglês rapidamente, mas não foi assim tão fácil como pensei e então resolvi estender o meu visto. Tinha 29 anos, estava solteira e para mim era lógico ficar em Toronto mais tempo para investir no meu futuro. Eu sabia que se tudo desse errado, podia voltar para a casa dos meus pais e continuar a minha carreira no Brasil”, conta.

Mas como na vida nada é previsível, o tempo foi passando e os meses transformaram-se em anos em Toronto. “Comecei a conhecer mais pessoas, encontrei trabalho e tive cada vez mais razões de ficar. O que me fez ficar em Toronto foi de ter gostado desta cidade. Emigrar foi como nascer de novo porque tive que aprender a falar, a comer, a me relacionar, etc.”, explica a Elaine antes de acrescentar um sorriso nos lábios: “O meu plano inicial era ficar só um mês. Mas, este tem sido o mês mais longo da minha vida porque já lá vão 12 anos que vivo nesta cidade!”

Como muitos emigrantes quando chegam, trabalhou em várias áreas que não tinham nada a ver com a psicoterapia. Durante algum tempo, trabalhou em dois ou até três trabalhos ao mesmo tempo para viver, sempre com a vontade de voltar um dia a exercer a psicologia. “Em 2018, tive a oportunidade de fazer uma equivalência do meu diploma brasileiro para um diploma canadiano. Fiz esse processo de equivalência e voltei aos estudos. Este momento coincidiu com o tempo em que tirei a minha licença de maternidade porque o programa era full-time e não podia largar os meus trabalhos para fazer esse programa de outra forma”, explica.

No total, ela tirou um ano e seis meses de licença parental para poder estudar. E esse sacrifício, tornou-se na oportunidade que lhe abriu as portas à psicoterapia em Toronto. “Estudava em tempo integral e ao mesmo tempo adaptava-me à vida com um recém-nascido, sem rede de apoio. Quando tinha de ir para a escola, levava a máquina para tirar o leite para o bebé. Naquela época, decidi abrir mão de algum tempo com o meu filho para poder proporcionar um melhor futuro e ter mais tempo para ele”, detalha Elaine.

2020: o início do êxito

Em 2020, Elaine Oliveira abriu a sua clínica The Better Care Wellness Clinic que hoje conta com seis psicoterapeutas e atende crianças, adolescentes, adultos, casais e pessoas idosas. Mas, se a clínica tem muito sucesso, não foi fácil no início. “Para mim, foi difícil arranjar os primeiros clientes porque ninguém me conhecia e não tinha nenhuma referência. No entanto comecei a divulgar o meu trabalho e conheci os meus primeiros clientes e a partir deles vieram mais”, relata. Para ela, a psicoterapia funciona principalmente graças aos clientes satisfeitos que trazem novos clientes. “Foi um crescimento muito orgânico e sólido. Até hoje, ainda recebo pessoas na clínica que me conheceram através dos meus primeiros clientes”, acrescenta.

Além da dificuldade inicial de criar uma clientela, a psicoterapeuta abriu a clínica em fevereiro de 2020 e teve de fechar as portas em março devido à pandemia. “A pandemia causou um impacto social muito negativo em vários aspetos, a demanda de cuidado com a saúde mental aumentou muito. Muitas pessoas chegaram perto do limite e perceberam que precisavam de ajuda. Foi um momento crítico que de uma forma me deu a oportunidade de ajudar muitas pessoas”, constata.

E efetivamente, até com uma clínica fechada, a psicoterapeuta consegui fazer consultas online e fazer crescer aos poucos o número de clientes que tinha. No princípio, os clientes só falavam inglês, os primeiros portugueses e brasileiros demoraram a chegar. E talvez a razão dessa demora vem do tabu em volta da saúde mental que persiste na comunidade lusófona. Algo que a Elaine combate através do programa “Haja Saúde na FPTV” uma quarta-feira por mês.

“As pessoas da comunidade que assistem ao programa são uma audiência mais conservadora e portanto esse público ainda têm muita essa mentalidade de que a saúde mental é para loucos. Pensam que falar dos problemas não resolve nada. No entanto, sinto uma grande recetividade por parte destas pessoas aos assuntos que trazemos para o programa”, explica a psicoterapeuta.

No programa onde ela participa há 5 anos, ela fala da vida e de temas como a solidão, os conflitos nos relacionamentos, os problemas de concentração na escola, os conflitos entre pais e filhos, a questão do emigrante e muito mais. “Tento trazer temas do dia-a-dia para conversarmos e abrir as pessoas à psicologia. Ainda há muito tabu e as pessoas ainda têm uma certa resistência, mas vejo que é possível ter conversas que ajudam muito”, conta.

Outra estratégia da psicoterapeuta para abrir as pessoas da comunidade é de não separar a saúde mental da saúde física e portanto abordar os temas de uma forma mais holística. “Para mim, não existe uma mente sã sem um corpo saudável. Por isso também trato dos temas com a linguagem do público com quem eu estou à conversa. Mas ainda há muito caminho para andar para desmistificar tanto a ideia de falar sobre a terapia como da medicação que em certos casos ajuda muito a melhorar o bem-estar”, detalha.

O trauma vs o PTSD

Uma confusão que muitas pessoas fazem é pensar que o trauma se refere unicamente ao transtorno de stresse pós-traumático (PTSD). E se em várias situações estes dois diagnósticos coincidem, é possível ter um sem ter o outro. Como explica Elaine Oliveira, o PTSD foi estudado, em primeiro, através dos soldados que voltavam da guerra, mas pode acontecer noutras situações.

“Durante a guerra, os soldados estavam constantemente alertas porque podiam perder a vida a qualquer momento e quando voltavam não conseguiam relaxar. Ou seja, aquele período continua a impactar o resto da vida destes soldados. E portanto, o PTSD faz referência a uma questão extrema do trauma que realmente muda uma pessoa. São casos onde, por exemplo, a integridade física de uma pessoa foi ameaçada ou mal tratada”, indica.

Por outro lado, o trauma é uma experiência que alguém teve e que marcou essa pessoa de forma negativa e continua a afetar o seu presente. “Isto tem a ver com a forma como uma pessoa vive uma experiência. Por exemplo, se uma criança foi abandonada pela sua mãe quando tinha quatro anos e

que aquele momento a traumatizou, é possível que essa pessoa quando adulta desenvolva um medo que as pessoas a abandonem e isso se reflita nos seus relacionamentos. Ou seja, aquela situação continua a afetar o presente, trazendo sintomas parecidos com os vividos na infância”, esclarece a psicoterapeuta.

Além desta confusão feita pelas pessoas que não percebem bem estes diagnósticos, há uma parte da população que ainda tem muita reticência em relação à psicoterapia: os homens. Segundo Elaine Oliveira, os homens não são socialmente ensinados ou incentivados a falar sobre os sentimentos e portanto têm mais dificuldade em pedir ajuda, aderir e fazer psicoterapia. “Por exemplo, quando uma menina cai, ela vai chorar e vai ser confortada pelos adultos. Mas, um menino a quem acontece a mesma coisa, é ensinado a levantar-se e engolir as lágrimas porque os rapazes não choram. Para as mulheres costuma ser mais fácil partilhar as emoções porque estamos habituadas a compartilhar com as nossas amigas, irmãs e mães sobre como nos sentimos e o que nos causa sofrimento. Mas os homens não têm esse hábito. Muitas vezes, eles pensam que têm que superar tudo sozinhos”, explica.

A maioria dos homens que chegam à clínica da Elaine dizem ter sido incentivados pelas esposas a ir a uma consulta. Mas, a experiência da terapeuta mostrou-lhe que quando os homens vêm a uma primeira consulta, eles decidem continuar porque entendem que podem beneficiar da psicoterapia na vida em geral e têm (às vezes pela primeira vez) um espaço onde podem partilhar as suas emoções, os seus medos e o sofrimento sem julgamento. Eles percebem que ao cuidar da saúde mental, acabam por ser uns melhores pais, maridos, trabalhadores, colegas, etc.

“Gosto muito de trabalhar com o público masculino porque vejo muito crescimento. O que acontece muitas vezes no início é que eles contam-me uma situação e depois quando lhes pergunto como eles se sentem, não têm palavras, não sabem como responder porque não têm repertório para nomear como se sentem. E quando aprendem a nomear o que é a frustração, a tristeza, a raiva ou o medo eles aprendem a lidar com aqueles sentimentos de uma forma mais saudável”, explica.

“A psicoterapia não é um encontro de uma pessoa com o terapeuta, mas sim um encontro dessa pessoa com ela própria. Digo sempre aos meus clientes que esse espaço é um espaço seguro, neutro, e a minha opinião e os meus valores não são relevantes. Eu, como profissional, sou como uma ferramenta para ajuda-los a lidar com os seus desafios”, conclui a Elaine com um sorriso no canto dos lábios.

Andreia Saraiva / Correspondente em Toronto (Canadá)
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