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Sexta-feira - 19 Abril 2024

EXCLUSIVO: Escrever “Short Stories” passou a ser um trabalho a tempo inteiro

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Foto: João Lemos

Sandra Nobre é uma profissional da Comunicação, já ganhou alguns prémios, e devido ao stress que os matutinos obrigam, começou a questionar-se se era mesmo “aquilo” que queria continuar a fazer. Esteve algum tempo a viajar e a escrever o que via nas viagens. O Storytellig, estava talhado para a sua nova profissão. Escrever livros personalizados onde conta as histórias reais que as pessoas lhes contam. Já fez algumas para emigrantes que se encontram em vários países. E é nesse caminho, quer da diáspora, quer em Portugal, que vai continuar a trilhar, o resto logo se vê.

É licenciada em Ciências da Comunicação e tem, ao longo dos anos, aprofundado conhecimentos em diferentes áreas, como o storytelling, escrita para cinema e televisão e gestão de marcas de luxo. “Mas o que mais contribuiu para o que faço é a curiosidade com que olho para o mundo todos os dias e a criatividade com que gosto de enfrentar todos os desafios.”

Depois de duas décadas no jornalismo, “queria escrever sem ter a pressão do deadline do fecho de edição”. Ficou durante algum tempo como freelancer, a viajar e escrever sobre essas aventuras, outra grande paixão. Certo dia, “estava a almoçar e a televisão noticiava que um fotojornalista português vencera o World Press Photo e estava desempregado e achei que, um dia, podia estar naquele papel e de nada me serviam os prémios de jornalismo já ganhos”.

Foi em Janeiro de 2013 e aproximava-se o Dia dos Namorados, então pensou em escrever histórias de amor e encaderná-las como se fossem autênticas joias. Divulgou a ideia nas redes sociais. Nesse mesmo dia, tive a primeira encomenda. Ao segundo dia, recebeu o telefonema da diretora de um hotel, que achou que podia ser uma boa proposta para os seus clientes e convidou-a para uma reunião.

“Eu não tinha ainda resposta para as suas questões, mas tirei notas”. Ao terceiro dia, foi desafiada a participar no Congresso do Amor, na Quinta das Lágrimas, no mês seguinte. Já não havia como recuar. No Dia dos Namorados, “lá estava eu no congresso, a falar das minhas Short Stories e somava histórias para escrever. Nunca mais parei”.

Entretanto, surgiram desafios, como escrever histórias para acompanhar um desfile de moda do designer Filipe Faísca, na ModaLisboa, desenvolver o storytelling para eventos, escrever histórias de produtos de luxo. “As histórias passaram a ser a minha vida”.


Os seus maiores clientes são a maioria portugueses, clientes particulares que querem guardar as memórias de família, pedem-lhe a biografia de pais e avós, mas também muitas histórias de amor e livros infantis. Depois, “tenho os clientes empresariais, que percebem o valor da história do seu negócio, do seu projeto ou do seu produto”. Cada vez mais relacionamos com o que nos emociona e as histórias têm esse poder de nos envolver, de nos encantar, de criar laços, porque, quase sempre, escolhemos primeiro com o coração.

Estúdio da Sandra Nobre, Short Stories, em Lisboa.

Já escreveu livros para portugueses em Espanha, França, Inglaterra, Suíça, Alemanha, Angola, Moçambique, Brasil e Canadá. E um dos livros teve como destino a Austrália, esse foi uma aventura, porque andou perdido até chegar às mãos do destinatário quatro meses depois.

Escreveu um livro para uma avó dar a conhecer Portugal aos netos, as memórias que guardava da sua infância e a importância da palavra “saudade” na sua vida. Outro a recuperar os desafios e as conquistas, de um português, desde que chegou a Moçambique, entre conflitos armados e catástrofes naturais, até se tornar um empresário de renome, distinguido pelo Estado português pelo exemplo de empreendedorismo e coragem.

A história das histórias

Cada livro é como se fosse uma joia de família – também pela forma como são produzidos, encadernados por mestres deste ofício e com os títulos dourados a folha de ouro – e há sempre muitos segredos envolvidos, pelo que a responsabilidade é grande. Não se trata de um mero exercício de escrita criativa, são vidas retratadas e importa saber o impacto que a história vai ter em quem o ler, por isso, são tão pessoais.

Já fez pedidos de casamento através das Short Stories e fico tão nervosa como se fosse comigo até saber a resposta. “Escrever sobre alguém que já partiu é, igualmente, emotivo, é a memória que fica e não esqueço o Nelson, a D. Júlia, a Kika, a Ana… Não é menos desafiante escrever sobre realidades que não conheci, quando tenho alguém com quase um século de vida a contar-me a sua história, num tempo em que se atravessava a fronteira a salto em busca de uma vida melhor ou quando as histórias de amor começavam em cartas. Cada livro tira-me o sono, arranca-me lágrimas e sorrisos.”

Cada livro tem um rosto, um nome, e esse é o maior dos desafios, porque não é ficção, são vidas reais e todas as palavras contam. Discretamente, passou a fazer parte da vida dessas pessoas, tornando-se cúmplice quando escreve em segredo para surpreender alguém, partilha da felicidade de cada um quando recebe o livro. Por isso, “digo amiúde que mais do que um ofício, isto é um modo de vida, uma estranha forma de vida…”

As Short Stories começaram há 11 anos, sem outros planos a não ser escrever. Algumas histórias ganharam vida própria e tornaram-se maiores. Em breve, vamos ouvir falar de um desses projetos, onde cabem muitas histórias de outros tempos.

Entretanto, a coleção cresceu para cadernos personalizados e outros produtos feitos com artesãos, como os Lenços de Namorados bordados com as minhas histórias, para que estas artes não se percam (www.shortstories.pt/store).

“Quando olho para o caminho percorrido e todas as histórias que vieram ao meu encontro, sei que valeu a pena pelo tanto que me acrescentaram, me deram a conhecer e me fizeram olhar para o mundo com outros olhos”. Nos últimos anos, tem explorado a escrita de cinema e de televisão e esse é um caminho que quer explorar. “Tantas histórias que davam filmes e séries…”

Mas também tem tentado replicar este privilégio de ouvir as histórias em eventos de networking – Girls Just Wanna Have Fun e, agora, o Blind Date –, em que cada participante conta a sua experiência pessoal e profissional e, mais que não seja, “ouvimo-nos, partilhamos, e se nos inspirar, ficamos todos a ganhar”. “Sou curiosa por natureza, sonho a dormir e acordada e gosto de explorar novos formatos, nem eu sei o que se segue”. Como no “Cântico Negro”, de José Régio: “Não sei para onde vou / Sei que não vou por aí!”

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