Poema de José Régio não editado (exclusivo ao Jornal Comunidades Lusófonas)
Canção de Portalegre
De Portalegre cantando,
Meu canto é doce e é amargo:
Já sinto os olhos turvando,
Já sinto o peito mais largo …
Ai torres da velha Sé,
Artigo Exclusivo para subscritores
Ai muros do burgo estreito!
Sempre vos rezo, com fé.
Se me levanto ou me deito.
Por onde quer que eu andar,
Vá eu lá por onde for,
Comigo te hei-de levar,
Contigo me hei-de ficar,
Minha terra, – meu amor …
O céu das tardes compridas
Parece que vem baixando;
E as torres são mãos erguidas
Que quase lhe estão chegando!
Ao longe se perde o olhar
Nas névoas dos horizontes …
E a terra parece o mar,
Parecem ondas os montes.
Por onde quer que eu andar,
Vá eu lá por onde for,
Comigo te hei-de levar,
Contigo me hei-de ficar,
Minha terra, – meu amor …
Tem cada ruela estreita
Casas pobres, e opulentas
Meu gosto nenhuma enjeita:
São todas minhas parentas …
Olhei da Serra a cidade,
Tão branca, estreita e comprida!
Fez-me alegria e saudade,
– Assim de noiva vestida …
Por onde quer que eu andar,
Vá eu lá por onde for,
Comigo te hei-de levar,
Contigo me hei-de ficar,
Minha terra, – meu amor …
Canção de Portalegre de José Régio in “Rabeca” – 21 de Novembro de 1952
Vila do Conde, 1901 decorre o ano do nascimento de José Régio, conheceu a fragilidade da primeira república, acompanhou as agruras da ditadura, mas o seu espírito era livre, morre o homem, em 1969, mas a obra e arte permanecem. O ensino trouxe-o a Portalegre, chegou ao Alentejo em 1929 para ensinar português e francês, como professor. Instala-se na casa que é hoje o Museu, a “Casa Museu Régio”, permanece no Alentejo por mais de 30 anos e a par do ensino, aqui desenvolveu a sua obra literária, e uma procura intensa de antiguidades. A Casa Museu mostra a coleção que o José Régio reuniu, essencialmente, nesta região no tempo que habitou em Portalegre, pois a coleção tem muito a ver com aquela área geográfica.

O Museu abriu em 1971 a pedido do José Régio que vendeu a coleção à Câmara de Portalegre, com a condição de a Câmara comprar e restaurar a casa e ali instalar o Museu. Aquela sido sempre a sua habitação e queria transformá-la em Museu, ficando José Régio com usufruto, o que não acontece.
Morre em 1969, as obras ainda decorriam e o museu abriu a 23 de Maio de 1971, sendo que todos os executivos têm seguido aquilo que José Régio destinou para a casa: Uma exposição permanente.

José Régio desenvolveu uma obra literária curiosa e muito interessante, cultivando vários géneros literários. Escreveu Poesia, Conto, Romance, Teatro, Crítica, enfim, é um nome grande da literatura do século XX, com um conflito religioso muito presente na sua poesia e também na sua coleção.
A dualidade e a interrogação, estão muitíssimo presentes na sua obra e na sua coleção. Coleção vasta e variada, onde impera muito a arte religiosa com destaque para a coleção de Cristos Crucificados, à volta de quatrocentas imagens, mas também a cerâmica, o mobiliário, trabalho pastoril e conventual.
De facto, este era o poeta que quando lhe diziam: “com olhos doces, vem por aqui. Ele olhava com olhos lassos e só ia por onde o levavam os seus próprios passos.”
Nunca seguiu “ismos”, digamos assim, talvez por isso hoje seja tão pouco lido, um pouco esquecido, apesar de ter duas Casas Museu, e dois Centros de Estudo e de se trabalhar muito para a verticalidade da sua obra. “A verdade é que gostaríamos que fosse muito mais lido, que houvesse uma intervenção muito maior nas escolas relativamente à sua obra.” Destaca Maria José Maçãs, a curadora do Museu.

O que representa para a Juventude de hoje José Régio?
Maria José Maçãs, considera que deveria e seria muito interessante algumas das suas obras figurarem no plano nacional de leitura, remetendo-me para Histórias de Mulheres e Há mais Mundos”, onde José Régio retrata uma determinada época, fala do papel da mulher na sociedade, da cidade de Portalegre, principalmente, na novela Davam Grandes Passeios aos Domingos. Estas obras bem como “O Jogo da Cabra Cega” para um outro nível etário, seriam muito interessantes poderem fazer parte do Plano Nacional de Leitura.

“Aquilo que percebemos relativamente aos jovens e a sua relação com a obra de José Régio é que não é muito conhecida, deveria haver um maior impulso, um envolvimento da Escola, uma chamada de atenção para a obra de José Régio que é extremamente original. Com a aposta nas reedições e num design apelativo estaremos no caminho certo para a leitura da obra por camadas mais jovens.
As visitas ao Museu?
Maria José revela-nos que não são tantas quanto desejava e que depende havendo épocas altas e baixas. A época em alta começa em março e vai até outubro e depois uma época mais baixa. Têm alturas do ano em que durante uma semana não ultrapassam as 20 pessoas e noutras épocas ultrapassam as 100 pessoas-dia. Há muitos grupos organizados, principalmente, de universidades e academias seniores.
“Não há, uma média que possamos dizer. O que podemos dizer realmente é que gostaríamos que o Museu fosse muito mais visitado,” apela Maria José.

O museu não é visitado apenas por residentes locais e suas periferias, há uma época do ano em que há emigrantes e estrangeiros. Mas de facto, não tem havido uma grande divulgação da obra de José Régio no estrangeiro. Tem vindo a subir o número de visitantes estrangeiros, principalmente nos meses de Junho, Julho e Agosto, e também em Setembro.
Mensagem aos portugueses emigrados, estrangeiros e não só?
O que gostaria de deixar é que houvesse para estas casas museus, mais do interior do país, a possibilidade de investimento para a sua beneficiações no sentido de valorizar as suas coleções, tornando-as mais apelativas para os diversos públicos e inserir a obra literária no plano nacional de leitura e nos curricula escolar.
As reedições também são muito importantes, e que esteja sempre disponível, toda a obra literária e acessível a todos. A obra do escritor que “por caminhos só retos não sei ir – nos índios, porque vou não sei ficar – suspenso do passado e do porvir, – venho e vou, venho e vou e não sei parar”.
A mensagem que eu queria deixar era com base nos versos de José Régio, acima transcritos, que nunca se pare …que nunca se deixe de procurar José Régio, de visitar a Sua Casa Museu.
Há visitas guiadas, todos os dias, e encaminhamos o visitante de acordo com a sua expectativa, o seu gosto e interesse. Não deixe de visitar casas museu, presidencialmente. Dar continuidade ao que se está a fazer, ao turismo literário, ligando os grandes autores às cidades por onde passaram, ou onde viveram, estiveram, ou onde nasceram.
Que não se esqueçam as obras singulares e extraordinárias dos poetas portugueses, dos escritores lusos. E que o visitante venha para o Alentejo. Que tem muita beleza e muito para descobrir e para visitar ou pregar.
Autororia: Lígia Mourão
Pequena Fábula para Bi (José Régio)
Era uma vez uma estrela,
Toda a brilhar e a tremer.
E um lago por baixo dela.
E um poeta que sonhava,
Deixando a noite correr.
Aquela estrela pensava:
“Descer! descer
“Àquele espelho profundo
“Em que me vejo mais bela!
“Ir ter a não sei que mundo ….”
Pensava o lago:
“Subir!
Subir até atingir
“Aquela chama que vela
“Naquela curva do céu
“Que a guarda viva, – mas eu
“Só morta sei reflectir …
“ter viva essa flor de lava!
“Não reflectir, – mas sim ter …”
E o poeta que sonhava
Deixava a noite correr.
José Régio, Colheita da Tarde, pp.380,381, Poesia II, INCM, 2001




