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EXCLUSIVO – Festival de Gramado: símbolo do cinema brasileiro

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O cinema brasileiro está a viver um período de grande projeção, com os ecos dos êxitos internacionais do oscarizado “ Ainda estou aqui” de Walter Sales, em 2024, ou de “ O agente secreto” de Kleber Mendonça Filho, premiado este ano em Cannes. Esse crescimento é indissociável do Festival de Gramado que, ano após ano, se afirma como símbolo da força dos cineastas e atores brasileiros.

A edição de 2025 do Festival de Gramados, que decorreu a 23 de Agosto, premiou o filme “ Cinco tipos de medo”, que recebeu quatro dos principais prémios ou kikitos: melhor filme, melhor guião, melhor montagem e melhor ator secundário. Xamã, ator que venceu esta última categoria, comentou à imprensa que aquele prémio era fruto de “ um sonho distante”, e essa frase pode resumir na perfeição a história deste Festival e a sua importância no seio da cultura brasileira.

Gramado, uma localidade situada no Rio Grande do Sul do Brasil, na denominada região das Hortênsias, com uma população de pouco mais de 40.000 habitantes, está muito longe dos grandes centros como o Rio, São Paulo, Bahia, Recife ou mesmo de Porto Alegre. A cidade, que alcançou esse estatuto apenas em 1954, habitada nos primórdios pelos índios caingangues, mistura influências de várias procedências com descendentes de açorianos, alemães, italianos, sírios e libaneses, é um improvável berço do principal Festival de cinema do Brasil, e um dos mais importantes da América Latina.

E, no entanto, uma série de circunstâncias tornaram possível o princípio deste sonho coletivo. Tudo terá surgido a partir de uma pequena mostra de filmes na capital gaúcha, Porto Alegre, na década de 1960, que levou o jornalista Paulo Fontoura Gastal a desafiar o Prefeito de Gramados, Horst Volk, a organizar um Festival de cinema na cidade.

O evento só foi oficializado em 1973, pelo Instituto Nacional de cinema, estabelecendo-se uma parceria entre a Prefeitura de Gramado, as secretarias de Estado do turismo e da cultura, a companhia jornalística Caldas Júnior, a Embrafilme e a Fundação Nacional de Arte. Nesse ano já se atribuiu o kikito, uma estatueta criada pela artesã Elisabeth Rosenfeld, vista como um símbolo da cidade e que representava um Deus do bom humor” com 33 cm de altura, e os kikitos foram confecionados até 1989, por um artesão local, Orival da Silva Marques( xixo) .

O cinema no Brasil afirmou-se, na segunda metade do século XX, como uma arte que abriu novos horizontes, reivindicando uma liberdade de expressão que confrontava o poder político e social. Exemplo disso foi “ Toda a nudez será castigada” de Arnaldo Jabor, baseada na peça homónima de Nelson Rodrigues, que venceu o prémio de melhor filme do Festival, em 1973.

Filmado no auge da Ditadura Militar “ Toda a nudez será castigada” mereceu elogios do Jornal Globo, mas acabou por ser censurado cinco meses após ser consagrado. O crítico brasileiro Miguel Pereira assinalava então que o realizador Arnaldo Jabor expressava “com extraordinária riqueza de detalhes o mundo neurótico e desvairado da classe média carioca e, por extensão, brasileira” – mas o filme também mostrava um Festival sem medo dos poderes vigentes, capaz de acolher a criatividade e o experimentalismo, de ser um espaço de liberdade num tempo em que esta escasseava .

Em 1992, o Festival sofreu com as medidas da Presidência Collor de Melo, que prejudicaram a saúde do cinema brasileiro. A internacionalização do certame foi a resposta dos organizadores, com a realização de uma edição latino-americana, entre 15 e 22 de Agosto, desse ano .

Além da competição oficial, o Festival afirmou-se como um espaço de consagração dos melhores atores brasileiros. Desde 1995 é atribuído o prémio Oscarito aos grandes nomes do cinema brasileiro e, a partir de 2003, os melhores cineastas e entidades do cinema passaram a ser contempladas com o Troféu Eduardo Abelin.

São incontáveis os grandes atores ligadas à História do Festival de Gramado: José Wilker, Othon Bastos, Sónia Braga, Lucélia Santos, Fernanda Torres, Hugo Carvana deixaram a sua marca no evento, assim como figuras internacionais como Pedro Almodóvar, Javier Bardem, Juan José Campanella ou Marisa Paredes, já foram premiadas .

O Festival de Gramado foi considerado, em 2006, como património histórico e cultural do Estado do Rio Grande do Sul, no mesmo ano em que foi inaugurada a calçada da fama do Gramado. Também foi criado o Museu de Gramado, perto das instalações do Palácio dos Festivais, onde se realiza o certame, que visa preservar a memória do evento e do cinema brasileiro

Outra iniciativa relevante, em 2002, foi o lançamento do livro “ Gramado- trinta anos de cinema” coordenado pelo Diretor e ator David Quitans. Mais um exemplo do papel da memória e da necessidade das Instituições divulgarem o seu espólio, não só para os especialistas, mas para o grande público

O Festival de Gramado, que este ano celebra o seu 53º aniversário, é um espelho do Brasil, das suas virtudes e contradições, exercendo uma função crítica insubstituível, e mostrando o que de melhor se faz no cinema brasileiro e latino-americano.

Rui Marques

Eduardo Lino
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