Vivia-se o período das consequências da Primeira Guerra Mundial à escala global. Entendeu-se que a criação de uma instituição de comércio poderia e tinha como missão de, muito antes da Organização Mundial do Comércio (OMC), criada nos anos 80, 90 do século passado. A Câmara de Comércio Internacional, brotou desse espírito de integrar as fronteiras economicamente, para diminuir as hipóteses de um conflito, pois havia essa perceção de que o comércio, – como se pode verificar desde a antiguidade – com a Rota da Seda, ou do Comércio do Mediterrâneo com a Ásia, alastrando-se às primeiras explorações, na qual se inclui a época dos descobrimentos, em que se vivia uma época de alguma “acalmia” generalizada.
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A ideia de que o comércio, a integração, evitaria conflitos entre os países foi votado ao abandono, pois a Segunda Guerra Mundial veio provar o contrário, mas o espírito dos “mercadores da paz” que “acredito que ainda existe”, segundo Gabriel Petrus, ainda que de uma forma um pouco enfraquecida pelos eventos globais atuais que temos assistido e o papel das organizações Internacionais, onde é equacionada a reforma da própria ONU, são temas que Gabriel Petrus tem trabalhado presentemente.
Nasceu no Brasil, em Londrina, no Paraná, no sul do Brasil e como todos os brasileiros, traz nas origens uma bagagem hereditária de diversas nacionalidades. O Brasil é um xadrez de origens, a sua mãe, é originária do Líbano, – uma das maiores comunidades libanesas encontra-se no Brasil – e por parte de pai mais europeias. Conheceu o bisavô, que veio da Eslovénia, que ainda não existia. Fazia parte do Império Austro-Húngaro, falava Alemão e Esloveno, inclusive “descobrimos algumas cartas que ele recebia dos seus parentes da Eslovénia. Gabriel traz consigo essas origens europeias mediterrâneas, também misturadas às brasileiras, percebendo-se que o Brasil é um caldeirão cultural” e Gabriel é fruto dessa miscelânea…
Tem feito a sua vida profissional e académica entre o Brasil e Paris, onde reside atualmente e se encontra lá há quase sete anos, devido a uma oportunidade profissional para trabalhar na Câmara de Comércio Internacional (CCI), cuja sede mundial é na capital francesa e que foi criada entre as duas guerras mundiais, em 1918, justamente com o espírito da criação da Liga das Nações, o embrião da Organização das Nações Unidas (ONU), de uma época em que se acreditava que o comércio internacional e a integração económica entre os países poderia prevenir novos conflitos. Ideais que a história e o presente nunca comprovaram.
Depois da experiência do ICC, Gabriel Petrus é atualmente é professor de Ciência Política de Relações Internacionais, na Sciances Po, uma das maiores instituições em França de Ciência Política. No Instituto de Estudos Políticos um dos cursos, que tem tratado também com a reforma da governança global. Segundo o Académico, “é muito interessante verificar que a comunidade lusófona hoje tem uma grande força nas Organizações Internacionais, como por exemplo: António Guterres, como Secretario-Geral das Nações Unidas, António Costa na Europa. E também se pode falar da liderança do presidente Lula como uma voz do Sul Global. Segundo o professor, é interessante observar que a lusofonia também representa uma certa visão do mundo. E de uma forma diferente, não pelo uso da força, ou pela imposição da sua influência via militar, – como se verifica noutros países onde se usa a força nas questões internacionais – mas através de um pensamento multilateral, a lusofonia e o multilateralismo são dois nomes que têm andado juntos nesta era complicada em que o mundo se está a fragmentar”, salienta o académico.
Petrus, também ensina Política Internacional Comparada, sobretudo a questão internacional. São as instituições políticas, como tem evoluído atualmente, pois é um tema importante para nós, porque se trata da crise da democracia. Infelizmente, podemos estar a entrar numa recessão em muitos países com ameaças às instituições democráticas. O tema da recessão democrática e como a podemos superar, reformando as instituições não só nacionais, como também internacionais, como, por exemplo, a própria ONU e outras organizações Internacionais que deveriam ter os seus mecanismos repensados, para dar mais voz às economias emergentes e serem mais eficazes para responder aos problemas globais.
Gabriel Petrus é um profissional dos “sete ofícios”, é formado em direito, é advogado, inicialmente foi jurista, formado em Direito pela Universidade Federal do Paraná, no Brasil, uma Universidade pública. Mas depois do direito stricto sensu aventurou-se na área internacional e foi para Brasília com 21 anos.
Concluiu o curso de direito e foi fazer um mestrado na Universidade de Brasília, em Relações Internacionais. Na altura pretendia fazer o concurso de Itamaraty, na escola de diplomatas do Brasil. Mas acabou por ir trabalhar no governo federal, no final da legislatura de Lula da Silva, em 2010.
Trabalhava na área internacional, em análise de tratados internacionais, assinados pelo Brasil com outros países. “Foi uma experiência muito enriquecedora. Era o funcionário mais jovem do gabinete do presidente na época, tinha 22 anos, foi uma escola para mim” Revela Gabriel.
Trabalhava com o Presidente, tratava da área jurídica internacional e “aprendi muito”, na época o Brasil recebeu a Rio mais 20, no início do governo Dilma Rousseff. A agenda da sustentabilidade é muito forte, o Brasil hoje continua como o porta-voz dessa bandeira da sociedade, porque é o país com maior ecossistema, maior biodiversidade do mundo. Os diversos ecossistemas brasileiros, não só a floresta amazónica, mas o Pantanal, o Cerrado, dão ao Brasil legitimidade hoje para ser um grande porta-voz da biodiversidade.
Após alguns anos Gabriel Petrus saiu da presidência para o setor privado, trabalhou em consultorias na área internacional em Brasília, São Paulo e em algumas multinacionais na área de políticas públicas, relações internacionais, etc. E em 2016 surgiu a oportunidade de integrar, em São Paulo, a sede brasileira, o escritório regional da Câmara de Comércio Internacional, que havia sido recentemente relançada no Brasil.
Depois de três anos como secretário-executivo, diretor-executivo, Secretário-Geral do ICC no Brasil, surgiu uma oportunidade para ir para a França. Onde se encontra há quase sete anos. “E agora tive estou a iniciar uma nova etapa da minha vida, com um projeto que sempre foi parte do meu sonho, que era também escrever, tornar-me escritor.” Diz com entusiasmo.
Estou a aventurar-me na ficção, a fazer uma espécie de ficção baseada na realidade. Porque hoje o mundo está tão complexo e tão difícil de se ler dentro da realidade, que eu entendo que a ficção, pode ser um veículo mais interessante de abordar o mundo e de expressar essa visão.
“O meu personagem do livro gravita entre estes dois mundos, os dois lados do Atlântico, entre a América Latina e a Europa. E eu tento resgatar um pouco esse universalismo um pouco perdido que nos une, em que hoje, devido à fragmentação em que o mundo vive, está a ficar em segundo plano. É um livro sobre que memória deixaremos da nossa civilização para o advir, para o futuro?
É um pouco romance distópico, ficcional, uma ficção que se passa daqui a uns 20, 30 anos. E um dos autores que me inspirou a escrever este livro foi o Stefan Zweig, um austríaco, que morreu no Rio de Janeiro em 1942. Stefan Zweig, refugiou-se juntamente com a esposa no Brasil, durante a Segunda Guerra, foi perseguido, como vários outros intelectuais judeus na época, na Europa. Primeiramente foi para os Estados Unidos, mas a esposa sofria de asma e precisava de ficar num lugar mais próximo dos trópicos e decidiram ir para o Brasil. A sua obra mais importante chama-se: “O Mundo de Ontem”.
Stefan Zweig, não aguenta viver num mundo, que estava a desmoronar-se, na Segunda Guerra Mundial, sentia-se culpado de ter saído da Europa e ir para a América Latina, enquanto via os seus amigos serem perseguidos. Acabou por tirar a própria vida e da esposa em Petrópolis, mas deixou uma carta, a obra dele, que é “O Mundo de Ontem”, como uma espécie de alerta sobre como as conquistas da humanidade, do progresso, da integração, podem rapidamente perder-se.
O livro de Gabriel Petrus, é um pouco a viagem de regresso ficcional que o Stefan Zweig não pôde fazer: voltar à Europa.
“O personagem do livro que vou finalizar nas próximas semanas, é um personagem que recebe uma carta póstuma do Stefan Zweig e essa carta é uma espécie de Stefan Zweig, que deixa um tesouro para ele escondido… e mais não posso revelar.”
A história está quase concluída, tem uma visão de como um latino-americano tem e também ver a Europa com os olhos de um antropólogo. “O livro estará brevemente editado este ano”, desvenda Gabriel. “A minha história, sai um pouco das organizações nacionais para o campo da literatura, da criação e Paris é uma cidade que é muito inspiradora para criar, seja a literatura, pintura e frequentar alguns cafés, dá-nos inspiração. Tirei um ano sabático para fazer essa transição um pouco em direção à criação artística.” Termina Gabriel Petrus.





