Rui Ribeiro é natural de Terras de Bouro, mas muito cedo mudou-se para Lisboa, Cascais, quando ainda era uma criança. Os pais tinham família em Estrasburgo e o seu avô tinha emigrado para aquela cidade francesa em finais dos anos 60. De seguida foram os seus pais, no início dos anos 90, tendo ido também para Estrasburgo. “Foi a minha primeira experiência enquanto cidadão do mundo e cidadão europeu num país europeu.” Revela Rui Ribeiro.
Artigo Exclusivo para subscritores
Esteve lá a viver até ao seu 11º ano e decidiram voltar para Portugal, para o Minho, onde Rui frequentou os estudos académicos na Universidade daquela cidade. Frequentou Geografia e Planeamento. “Terminei o curso na pior altura possível, em 2008, foram anos de crise até 2010 em Portugal.” Desabafa Rui.
Decidiu dar continuidade aos estudos e tirou mestrado na Universidade de Estrasburgo, na área dos Sistemas de Informação Geográfica. Foi em 2009 para Estrasburgo e acabou o mestrado em 2011. A sua aventura profissional, começa a partir desse momento.
Neste momento trabalha numa empresa de distribuição de gás natural, – não tem a ver muito com o Conselho das Comunidades Portuguesas – , mas vai ao encontro da sua área de estudo e é responsável pela parte da cartografia nessa empresa que distribui gás natural e eletricidade, perto de Estrasburgo.
Começou a envolver-se na área associativa das comunidades portuguesas e é Conselheiro das Comunidades Portuguesas. Tendo iniciado em 2014/15 pela área consular de Estrasburgo. Houve eleições e venceram. Pese embora fosse apenas uma a lista única. Foi aí que começou a sua aventura no Conselho das Comunidades Portuguesas.
Foi um mandato um pouco atribulado, no sentido de que as eleições são feitas de 4 em 4 anos, segundo a lei, mas esse mandato acabou por se entender por quase oito anos.
Não estava preparado para estar tantos anos enquanto Conselheiro, num só mandato. Contudo, foi um mandato extremamente interessante, porque conseguiram alguns avanços significativos sobre os direitos dos portugueses residentes no estrangeiro.
O Conselho das Comunidades Portuguesas ao longo dos anos, conseguiu atingir algumas metas, como foi o recenseamento automático para os portugueses residentes no estrangeiro alcançado e posto em prática pelo então Secretário de Estado, José Luís Carneiro.
Na opinião de Rui esse foi “um dos maiores avanços e o mais significativo”. Também se trabalhou na criação de um manual sobre a tributação dos portugueses residentes no estrangeiro em função do país. Ideias que surgiram a pedido do Conselho das Comunidades Portuguesas em que depois a autoridade tributária criou e divulgou e também, houve um avanço bastante importante: o pedido do Conselho das Comunidades Portuguesas tivesse representação junto da Comissão Nacional de Eleições.
Presentemente, Rui encontra-se no segundo mandato resultante das eleições que tiveram lugar em finais de 2024.
Deveria ter havido eleições em 2020/21, mas com o COVID, foram adiadas.
O segundo mandato aconteceu nas eleições de finais de 2024, com tomada de posse em 2025.
No segundo mandato teve a sorte de ter sido escolhido e ter tido a confiança dos colegas para coordenar a comissão temática dos assuntos consulares e da participação cívica e política em Estrasburgo. O voto pela Internet para os portugueses residentes no estrangeiro. A primeira experiência de voto à distância pela Internet em Portugal aconteceu no início dos anos 2000.
Já lá vão mais de 20 anos, houve um primeiro teste piloto do voto pela Internet para os portugueses no estrangeiro. “E temos que continuar a batalhar e esperemos que não tenhamos que esperar mais 20 anos para que isso seja uma realidade”, refere o Conselheiro.
Segundo o mesmo gostaria que esta geração jovem pudesse rapidamente também ter acesso a essa solução, esse método de voto. Será essa uma das grandes bandeiras neste mandato do Conselho das Comunidades Portuguesas e na Comissão temática da participação cívica, levar este tema à Assembleia da República e tentar encontrar consensos na mesma.
Que áreas cobre no Conselheiro das Comunidades Portuguesas?
A área geográfica do Consulado de Estrasburgo está ligada a 10 departamentos franceses no Leste de França. Todo o Leste de França está ligado a Estrasburgo. Que em termos comparativos é meio território português, 40 mil quilómetros quadrados. Com uma Comunidade portuguesa que deve estar nos 100 mil portugueses, inscritos no consulado.
Os consulados, de uma maneira geral, funcionam mais ou menos todos da mesma maneira e neste caso o de Estrasburgo muito raramente, fica ligado ou procura potenciais candidatos para conselheiros ou Conselheiras das Comunidades Portuguesas.
Rui chegou à Comunidade través do movimento associativo, e quando estava na universidade, fez parte da Associação de Estudantes “Chama”, uma associação de estudantes lusófonos que existia na Universidade de Estrasburgo e foi a partir daí que começou a entrar em contacto com o movimento associativo português e ouviu falar nas eleições do papel do Conselho das Comunidades Portuguesas.
No âmbito cultural qual é a participação da Comunidade Portuguesa?
Em Estrasburgo há dois tipos de movimento: o mundo rural e o mundo urbano, pelo menos no Leste de França. Quando se fala em mundo rural, muitas vezes encontra-me associações portuguesas ligadas ao futebol, a clubes de portugueses oriundos de uma certa região de Portugal. A Associação Portuguesa construiu a sua própria associação e isso vê-se muito nas comunidades mais rurais e mais distantes dos centros urbanos, que estão muitos deles, infelizmente a desaparecer, porque os jovens acabam por sair desses territórios e os mais idosos deixam de ter capacidade de dar continuidade ao movimento associativo.
Nos meios mais urbanos, há uma variedade enorme de associações, tais como: associações desportivas de futebol, de folclore com as suas identidades e oriundas de territórios diferentes zonas de Portugal, como é o caso do Ribatejo, é uma comunidade forte.
Em Estrasburgo há associações ligadas mais ao Rancho Minhoto. Também há associações culturais espalhadas um pouco por Estrasburgo, em associações que se centram mais na promoção da cultura, da história e língua portuguesa. Também é importante que em Portugal tenham noção de que na rádio, nas ondas FM no estrangeiro, por vezes se fala também português.
Apesar de que em França, não têm o direito de falar exclusivamente uma língua que não seja o francês numa emissão de rádio em ondas FM, mas podem traduzir, fazer o resumo daquilo que foi dito. É um trabalho extremamente importante.
Uma mensagem aos emigrantes e aos que pretendem emigrar
Rui Ribeiro dá ênfase e importância da continuidade das Comunidades Portuguesas mantenham laços e comunicação. Uma das suas grandes preocupações é que daqui a alguns anos a comunidade portuguesa deixa de estar ligada ao seu país.
Na opinião de Rui, Portugal está demasiado confiante, pelo menos os governantes, de que esta ligação nunca se irá perder.
Gostaria de deixar um alerta de que isso essa ligação pode mesmo acabar por acontecer, se Portugal nada fizer para manter esta ligação com as suas comunidades.
A importância do ensino da língua portuguesa e investindo nessa área para as comunidades mais jovens. Porque, se os mais jovens deixarem de falar português, de certeza que anos mais tarde deixarão de ir a Portugal, porque o que os liga ao às suas raízes, é a sua língua, a sua cultura e a sua história, se não houver uma transmissão às novas gerações, esses laços facilmente partirão.
Rui quis deixar o seu apelo para que haja mais investimento na língua, na cultura e na delegação da história e da identidade do nosso país, pois é extremamente importante haver um investimento que tem que ser reforçado urgentemente no estrangeiro.
E no que diz respeito às comunidades, aos portugueses que desejam testar novas aventuras no estrangeiro, que é sempre positivo, há que valorizar a comunidade portuguesa, somos um povo de descobridores. Também aconselha em contactarem as associações e as comunidades que já estão estabelecidas no estrangeiro. “Continuamos a ser um pouco aquela comunidade em que vai explorar o mundo, mas há uma necessidade premente em fazer essa “aventura” como no século passado, um pouco a salto. As pessoas que se informem antes de ir para o estrangeiro, para que não estejam completamente sozinhos, isolados e sem apoio, hoje em dia já não se justifica. Por isso, lanço o apelo de que continuem a procurar outros países para descobrir. Para mim parece-me ótimo, mas que o façam de forma informada, isso é importante e presentemente já há instrumentos para isso, por isso não hesitem em consultar e procurar”. Termina Rui Ribeiro.




