Decorria o ano de 1974, mais concretamente
19 de setembro, quando se começou a celebrar a efeméride do Dia da Mulher São-Tomense. Já lá vão 51 primaveras. Muita coisa mudou de lá para cá, e outras tantas que necessitam de mudar, pois a mulher São-Tomense ainda enfrenta algumas barreiras, apesar de hoje terem um papel mais interventivo e ativo em cargos de poder. Contudo nem tudo são rosas, e apesar destas conquistas ainda há muito chão a percorrer, e não são apenas os quilómetros diários que têm de andar, por ruas escuras e sinuosas, onde por vezes a violação acontece, e o medo se instala. O caminho prossegue…
O Jornal Comunidades Lusófonas, esteve a conversar com Janete Carvalho, uma mulher São-Tomense, que nos fez um retrato atualizado do papel da mulher na sociedade do seu país. Vive em Água Bobo, uma pequena aldeia perto da capital São Tomé, fica a uns 5 quilómetros da Capital São-Tomense.
Janenete revelou que em relação a alguns anos atrás, as Mulheres são-tomenses têm estado a ocupar cargos na sociedade, como Ministras, de Deputadas, temos uma Presidente da Assembleia Nacional, e outras de cargos relevantes na sociedade e não só.
Temos assistido a um aumento exponencial onde há mulheres a ocupar esses cargos de relevância, pese embora, ainda há muito que, principalmente as mulheres que vivem nas comunidades. Ainda há muito mais a fazer de uma forma geral.
Já há mulheres na marinha, nas forças armadas, e não só, mas a grande parte das mulheres trabalham muito na agricultura. E muitas vezes não são valorizadas pelo seu trabalho que também é fundamental, pois abastecem o mercado.
Está a mulher São-Tomense, mais capacitada hoje do que às vezes 15 anos atrás?
Em relação à capacitação das mulheres em relação há 10,15 anos atrás, pode-se dizer que sim, ainda falta a continuidade da capacitação e do empoderamento das mulheres, e há coisa de 10,15 anos atrás, não havia mulheres a ocupar cargos de decisão na sociedade, hoje já se vê o nível da educação destas mulheres. No passado as Mulheres não tinham a acesso a escola, mas hoje já há mais mulheres integradas e formadas.
Ao nível das universidades já há mais mulheres a frequentar a universidade a estudar, em relação aos homens, significa que houve um aumento significativo.
Mas nem tudo são rosas, as mulheres, principalmente das zonas rurais, enfrentam muitas dificuldades, porque percorrem muitas das vezes quilómetros e quilómetros, para terem acesso à escola, e muita das vezes não vão.
Nota-se um avanço, das mulheres na escola, nas Universidades, mas principalmente nas zonas rurais, têm muitas dificuldades, principalmente no acesso à escola, pois estão distantes de onde essas mulheres vivem. E muitas deixam de ir à escola, e acabam ou por casar e constituir família muito cedo. Ainda se vê muito esta realidade em São Tomé e Príncipe.
Quais são as profissões que as Mulheres São-Tomenenses se dedicam mais agora, com o empoderamento?
Existem muitas mulheres, principalmente muitas mulheres no setor informal, que andam com as coisas na cabeça a vender os seus produtos, têm os seus “pequenos negócios”.
Existe uma grande parte das mulheres na agricultura, pese embora fala-se de empoderamento e não só, mas ainda existe.
Não significa com isto que as Mulheres não possam estar na agricultura. “Sim, podem, mas não somente na agricultura como um fim.” Refere Janete Carvalho.
“Existem outras oportunidades e uma das coisas que vê aqui em São Tomé, é a falta acesso, de informação, de infraestruturas, essas mulheres na sua grande maioria vivem na zona rural. Sentem que as mulheres que vivem nas zonas urbanas são superiores a elas, e reflete um pouco na autoestima destas mulheres da província.
Muitas dessas mulheres das zonas rurais muitas vezes não têm acesso à energia. Não podem ligar o rádio, estar informadas do que se passa à sua volta.
O poder financeiro precário ou inexistente dificulta muito as suas vidas, se pretendem apanhar um transporte público, para ir à capital participar numa formação ou numa numa palestra, ou workshop, não têm como ir. Não há como se deslocar, pois não há dinheiro.” Observa Janete.
Que tipo de ações os governantes de São Tomé têm feito, nomeadamente para ao empoderamento das Mulheres? Têm feito alguma coisa ou sentem que ainda há muito por fazer?
Janete Carvalho, diz que ainda há muito que fazer, principalmente na questão da divulgação de dados. Há uma certa dificuldade em obter dados concretos sobre algumas coisas, por exemplo, sobre violência baseada no género, abuso sexual, entre outros temas que afetam as mulheres.
A questão do orçamentação ao género. A questão da inclusão dos direitos das Mulheres e da cidadania, desde cedo.
Em São Tomé temos uma disciplina que fala um pouco sobre a questão dos direitos das Mulheres e cidadania. Mas a mudança de mentalidade, muitas das vezes, se queremos que as coisas efetivamente funcionem, temos que começar da base, se a base estiver melhor preparada, e no futuro, se possa incluir essas disciplinas, uma disciplina que fale sobre os direitos das Mulheres da, Cidadania desde muito cedo, porque se formos e perguntarmos a uma mulher aqui em São Tomé, qual é o teu direito? Ela responde automaticamente que tem o direito “de cuidar dos filhos, do marido, da casa, etc. Muitas das vezes desconhecem, não só os mais jovens, como também os mais adultos. Há ainda muita desinformação, sobre direitos das mulheres em São Tomé.
A questão da redução da desigualdades entre mulheres da capital e mulheres das Comunidades, é uma realidade.
“Não sei até que ponto o Governo poderia fazer algo, mas existe até certo ponto que as mulheres das zonas rurais e da cidade, são vistas de diferentes formas. As mulheres rurais sentem-se inferiores às mulheres das cidades”. Enfatiza Janete.
Neste momento em São Tomé ainda há muitas assimetrias sociais e sexuais, entre homens e mulheres, das zonas rurais face às da cidade.
A questão da autoestima, da auto valorização e também se sabe que em São Tomé as mulheres praticamente, são elas que mais cuidam dos seus dos filhos e, existem muitas mães solteiras cuja responsabilidade de cuidar dos filhos recai sobre elas.
A questão da autoestima, da auto valorização, também a relação da dependência económica, grande parte das mulheres, não tem independência financeira, depende muita das vezes do parceiro. “Se conseguíssemos reduzir ao máximo da dependência económica, para que as mulheres possam ter pelo menos ter o seu negócio, mesmo pequeno que fosse, isso iria suprir as suas necessidades e não depender a 100% de um parceiro.” Observa Janete.
Uma Mensagem
“As Mulheres São-Tomenses, são aquelas que transformam sonhos em realidade, inspiram gerações, quer seja em casa, quer seja na Comunidade ou no trabalho. Cada passo de nós, Mulheres, eleva o nosso futuro, que a nossa coragem, que a nossa determinação abra caminhos e inspiram mudanças, mostrando que as mulheres são inspiração, hoje e sempre, nós somos guerrilheiras. Nós somos batalhadoras, nós conseguimos atingir aquilo que nós queremos, Feliz Dia das Mulheres são Tomenses!



