Está no Luxemburgo há 12 anos. O seu percurso académico em Portugal foi em Direito, tendo trabalhado como advogada durante 17 anos. Trabalhou em diversas áreas, num escritório de advogados, por conta de outrem e também por conta própria. Esteve na área do turismo, durante um ano. Esteve no negócio familiar do seu pai e irmãos numa empresa na área da indústria de produtos químicos para automóveis. Aos 44 anos de idade, após uma separação que terminou num divórcio resolveu que poderia procurar uma outra experiência noutro país da Europa e resolveu ir até ao Luxemburgo.
É natural de Lisboa, formou-se em Direito na Universidade Internacional, em 1992. Após ter concluído a sua licenciatura, fez um estágio na Ordem dos Advogados de 18 meses que acabou por ser de 2 anos, contanto com as paragens das férias judiciais.
No Luxemburgo, quando chegou procurou logo o movimento associativo. “Porque penso que ajuda muito à integração entrar no movimento associativo português e luxemburguês.” Trazia na bagagem de base a língua francesa. Estudou em Portugal durante muitos anos o francês e, isso foi uma mais-valia para encontrar trabalho e para poder fazer a sua vida no Luxemburgo, apesar do Grão-ducado ter muitos portugueses e ouvir-se falar português em todo o lado. Mas como língua de trabalho utiliza o francês.
“Estou a trabalhar, há 12 anos numa Central Sindical e tenho como responsabilidade o setor da construção civil. Essa Central Sindical representa todos os ramos de atividade no Luxemburgo cobrindo todos os aspetos relativos às diversas profissões. Como cerca de 90% da população que trabalha na construção civil é portuguesa ou de origem portuguesa, o facto de também o ser e a facilidade da língua é uma mais-valia para poder comunicar com os trabalhadores.” Explica Liliana Bento.
Quantos portugueses vivem nos Luxemburgo?
“Eu acho que nem o Luxemburgo tem exatamente essa noção. Na verdade, nós temos ideia de que são 120 000 pessoas só com a nacionalidade portuguesa.”
Mas são muito mais porque não são contabilizadas aquelas pessoas que já adquiriram a nacionalidade luxemburguesa, ou mesmo os filhos dos portugueses que já cá nasceram, e que têm dupla nacionalidade; pois estatisticamente quem tem as duas nacionalidades, é contabilizado apenas como luxemburguês.
Mas serão muitos mais, “e não nos podemos esquecer de que somos um país muito pequenino”. Há muitos residentes portugueses nas fronteiras, na França, na Alemanha e na Bélgica. Como o Luxemburgo tem uma incapacidade grande de alojamento as pessoas têm que procurar viver nas fronteiras; trabalham no Luxemburgo, vão e vêm todos os dias. A capital do Luxemburgo está a cerca de pouco mais de 20 quilómetros
da fronteira com os países vizinhos. Ora esses portugueses não são contabilizados como estando cá”.
A Central Sindical onde trabalha naturalmente que é luxemburguesa. No sindicato trabalham 57 pessoas. “Posso dizer que metade das pessoas que trabalham nesta central sindical são portuguesas ou de origem portuguesa”.
Outras nacionalidades que trabalham no Luxemburgo
No Norte do país há uma grande maioria de belgas e alemães a trabalhar na construção civil pois vivem na Bélgica e na Alemanha, mas junto à fronteira com o Luxemburgo. Existem ainda trabalhadores de outras nacionalidades na construção civil. Já há uma fraca minoria de italianos pois esses trabalhadores “já vieram há muito mais tempo que os portugueses para trabalhar na construção e nas minas, mas também já foram embora, porque os italianos tinham um estatuto diferente. Só podiam ficar cinco anos e depois eram substituídos por outros italianos. Mesmo assim houve muitos que depois acabaram por encontrar outros trabalhos, tiveram filhos e ficaram por cá. Temos atualmente uma grande população de trabalhadores vindos dos países africanos de língua portuguesa, e trabalho muito com eles. Eu gosto muito de trabalhar com populações africanas, dos países PALOP – Guiné-Bissau, Cabo Verde, Angola, Moçambique.”
E também já há muitos da Guiné-Conacri, mas estes últimos falam apenas francês, e não dominam a língua portuguesa.
Relação entre as comunidades dos PALOP e os portugueses. Há ligação, fazem comunidades separadas ou interligam as suas comunidades africanas com a comunidade portuguesa?
“Sim, tem sido esse o meu esforço, não só meu, mas com o apoio de um grupo de pessoas. Fazer essa interligação é muito importante porque quando cheguei, há 12 anos, estavam completamente separados. Eles organizam-se muito bem, em comunidade.” Salienta Liliana.
Fazem festas, organizam-se em associações muito bem dirigidas. Realizam comemorações de datas importantes dos seus países de origem e também fazem recolha de bens essenciais que enviam depois em contentores para os seus países de origem.
Também tenho reparado que ultimamente há muita gente a vir do Brasil e ainda de Espanha, nomeadamente da zona das Astúrias.”
“Eu trabalhei um ano em Cuba e falo alguma coisa de espanhol, digamos portunhol, mas entendo-me bem com eles. Aliás, agora até estou a pensar fazer um curso de reciclagem de língua castelhana, porque nós entendemo-los, mas eles têm alguma dificuldade em entender o português.”
Discriminação dos portugueses no Luxemburgo
“Eu pessoalmente nunca senti descriminação por ser portuguesa, mas alguns portugueses afirmam que se sentem discriminados pela sua origem. Aliás, há vários estudos sobre isso. Bom, ocupo profissionalmente um lugar em que toda a gente me conhece. O Luxemburgo também é um pequeno país e tenho muita visibilidade. E tanto
com a comunidade luxemburguesa como com a portuguesa, nunca me senti discriminada talvez devido à minha situação profissional no sindicato.”




