Não é fácil chegar a Mariza, artista de mão cheia que encanta por esse mundo fora, e do cantinho da Europa leva a saudade aos portugueses emigrados e aos não emigrados, que na sua maioria não entendem português, mas Mariza já consegue ultrapassar essa barreira, e quando começa a cantar, a sua voz leva-nos a sítios como a Mouraria, que cheira a fado na calçada, ao Tejo que ali corre até ao mar, e às romarias de verão, que o Santo António abraça Lisboa noite afora. Já pisou e cantou nos palcos mais importantes em Portugal e por todos os cantos e recantos do mundo, mas o seu sonho era “cantar nas ruínas de algum teatro romano, ao ar livre, sob as estrelas”. E a artista prossegue…
“A menina e Moça” começa por falar sobre a sua carreira na primeira pessoa e compartilha com o leitor a sua vida com palavras corridas entre o palco e os bastidores onde nos deixa o seu testemunho. “Silêncio que se vai cantar o fado!”
O fado entrou na minha vida muito cedo, mas não foi nos serões familiares, foi na tasquinha dos meus pais, na Mouraria. Quando chegaram de Moçambique para recomeçar a vida, alugaram um pequeno espaço nesse bairro lisboeta, e o meu pai teve a ideia de criar noites de fado vadio. Ali, em cada esquina, o fado sentia-se no ar… e eu, com apenas 5 anos, pedi para cantar.
Nessa altura, estava a aprender a ler, e o meu pai ensinava-me os poemas desenhando nos guardanapos que sobravam dos almoços, era assim que memorizava as letras. Cresci rodeada de fadistas tradicionais e puristas. O fado não foi uma escolha… foi o meu primeiro idioma emocional. Uma forma de respirar.
Inspiro-me na vida, nos encontros, nas partidas, nas alegrias e nas dores. Inspiro-me nas histórias dos outros e nas minhas. E acima de tudo, inspiro-me no meu país, na minha cultura, nos afetos que recebo em cada canto do mundo onde canto em português. O sucesso, para mim, não se mede em números, mas no impacto que uma canção pode ter na alma de alguém.
Sou mãe, sou filha, sou mulher, sou artista e todos esses papéis exigem entrega. É sempre um equilíbrio delicado. Tento estar presente, mesmo quando estou longe. Tenho a sorte de ter uma família que entende o meu caminho e que me apoia em tudo. Há muita renúncia, claro. Mas há também muito amor. E o amor ajuda-nos sempre a encontrar tempo onde parece não haver.
Em Portugal, há vozes que me tocam profundamente: Amália, claro, mas também Carlos do Carmo, Cesária Évora, e artistas mais novos que admiro imenso. No estrangeiro, sou fascinada por vozes como a de Nina Simone, Mercedes Sosa, e mais recentemente artistas como Björk ou Jacob Collier. Gosto de artistas que arriscam, que são fiéis à sua essência.
Quando estou em palcos internacionais, sente a responsabilidade, sim. Mas não o peso. Sinto orgulho. Sinto-me uma embaixadora da música portuguesa, e cada vez que subo a um palco fora do país, levo comigo as saudades de um povo inteiro. Tento transformar esse “escrutínio” em conexão. Não estou ali para impressionar, mas para emocionar.
Tenho tido o privilégio de cantar nos maiores palcos do mundo, do Carnegie Hall ao Olympia, passando pela Sydney Opera House. Mas há sempre palcos que guardamos no coração… talvez um dia, cantar nas ruínas de algum teatro romano, ao ar livre, sob as estrelas. Não importa tanto o nome do palco, mas a energia do lugar.
A mensagem que deixo aos nossos emigrantes, o meu abraço profundo. Nunca esquecem de onde vêm, e levam Portugal no coração com uma dignidade e um amor comoventes. A todos os que partem, por necessidade ou por sonho, desejo coragem, luz e raízes bem fundas. O mundo precisa da nossa saudade. E Portugal é sempre um porto onde podem regressar, mesmo que só em pensamento.




