Sophie Gomes, nasceu em França. O seu pai deixou Portugal nos anos 60, durante a ditadura Salazarista. Como muitos portugueses foi à procura de trabalho e de melhores condições de vida. Muito esforço e resiliência foram duas palavras que o impulsionaram à emigração, para conseguir construir uma vida e proporcionar instrução académica aos filhos, pois ele nunca teve a possibilidade de ir à escola em Portugal. Sophie e o irmão foram banhados na cultura portuguesa desde que nasceram e as idas à terra nas férias de verão eram ponto de encontro com os restantes familiares.

Frequentou a escola francesa e ao mesmo tempo inscreveram-na na escola portuguesa e começou a aprender português desde o ensino primário até ao ensino secundário. É bilingue, fala Francês e Português e utiliza-o no dia-a-dia no trabalho.
Decidiu estudar direito, frequentou o curso na Universidade de Sorbonne, onde obteve a Licenciatura e o Mestrado em Direito Privado. Naquela altura pediu uma especialização em Direito Notarial porque tinha começado um estágio num gabinete de um advogado, mas não gostou, percebeu que a sua verdadeira vocação finalmente não era ser advogada, mas trabalhar em notários, pois tinha uma paixão por heranças das sucessões e o direito da família.
Entrou na escola de notariado e hoje, 22 anos depois, está a acompanhar as famílias nas sucessões, na organização do património, porque apercebeu-se que cada vez há mais famílias que têm propriedades em França e em Portugal, há mais casamentos mistos entre portugueses e franceses, com herdades repartidas entre os dois países. Especializou-se para ajudar os lusodescendestes e emigrantes a organizarem-se da melhor forma.
O seu trabalho consiste em auxiliar as pessoas a compreender as regras de cada país, e qual a lei aplicável. Quais são as formalidades que têm que fazer.
Num determinado período da sua vida foi para Portugal fazer uma pós-graduação em Direito Português Sucessório, era vital pois precisava de estar a par do Direito Português, e a pós-graduação foi a chave de acesso.
Criou uma página no Facebook que se chama: “Apoio Sucessório” é uma página totalmente gratuita e tem o propósito de informar e apoiar a comunidade franco-portuguesa em questões relacionadas às sucessões, que é o seu domínio de atuação.
Nessa página partilha conselhos práticos, dicas e tenta simplificar termos jurídicos e palavras jurídicas complexas em palavras mais simples, para que toda as pessoas entendam.
Tem escritório em Paris?
Sim, responde Sophie, não tem o notário a seu cargo, tem um sócio e é notaria colaboradora. “Estamos em Paris, na Av Montaigne e somos um cartório especializado em direito Internacional.” Refere.
Trabalham com Portugueses e Espanhóis, “eu ocupo-me da Península Ibérica. Também trabalhamos com pessoas de outros países, como é o caso da Inglaterra, Israel, entre outros. Cada um tem a sua área específica.” Explica.
O escritório absorve muitos clientes vindos do consulado espanhol, porque “estamos inscritos” no consulado como notário especializado e bilingue. “Ainda não estamos inscritos” no consulado português, mas estão a tratar disso, para que se torne o Notário privilegiado dos portugueses.
O escritório tem muitas solicitações de pessoas que vêm a página do Linkedin, na qual é especialista em direito franco-português, mas na sua maioria são os emigrantes ou lusodescendentes que os contactam.
Como são vistos os portugueses?
Os franceses vêm o povo português como pessoas trabalhadoras, humildes e integradas. É mesmo esta palavra integrada “eu quando era mais pequenina não tinha a nacionalidade francesa só a obtive aos 18 anos porque fui eu que a pedi. Nasci em França, mas de pais estrangeiros, a nacionalidade não me foi dada automaticamente.” E fê-lo pela simples razão, é que certas profissões em França só podem ser exercidas por franceses, e o notário era uma delas.
Nunca sentiu “aquela” discriminação. Às vezes diziam: és filha de porteira e de pessoa que trabalha na construção. “Era este estereótipo”. Lembra Sophie.




