Maria Costeira é Neonatologista, trabalha no hospital de Guimarães em exclusividade, conta com 35 anos de atividade clínica. Já foi Diretora Clínica do hospital e é professora afiliada da Universidade do Minho. Tem formação e experiência na área da Gestão hospitalar. É auditora clínica da DGS (Direção Geral de Saúde), em termos, académicos e curriculares, tem um longo percurso. Não tem grandes objetivos a alcançar, pois é assistente graduada sénior, encontra-se no topo da carreira. Mas o seu trabalho continua, aqui e além-fronteiras.
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Nasceu em Moçambique e teve sempre o bichinho de África, tentando conciliar a vida profissional, e familiar. Com duas filhas já adultas e emancipadas. Como mãe sempre tentou conciliar tudo de forma a estar sempre presente, mas durante muito tempo não teve qualquer oportunidade de fazer atividades fora de Portugal.
Em 2010/2011 conseguiu fazer duas semanas de voluntariado. Em 2018, o hospital permitiu-lhe estar 3 meses ausente num projeto na Guiné-Bissau com o Instituto Marquês de Valle de flôr. Que na altura tinha um projeto que era o PIMI II – Programa Integrado para a Redução da Mortalidade Materna e Infantil, um projeto muito bem concebido, que teve resultados muito positivos e na altura a Neonatologista estava como consultora na área da pediatria.
Esteve em Bafatá, capital distrito na região Leste da Guiné-Bissau. Não dista muito de Bissau, (capital) mas as estradas e as comunicações são muito difíceis e demora cerca de 3 horas de distância de carro.
Esteve lá 3 meses em 2018. Depois, em 2020, convidaram-na para ser a Coordenadora clínica do mesmo projeto e esteve novamente na Guiné durante 9 meses.
O hospital permitiu-lhe porque estas missões são sempre declaradas de interesse Público, via Secretaria-Geral de Saúde e Direção-Geral de Saúde. E nesses nove meses em que era a Coordenadora clínica do projeto, tinha que acompanhar a evolução dos indicadores nos hospitais regionais e circular por todo o país, – apesar de ter sido no período do COVID. “Foi bastante desafiante e agora em 2025/26 também me convidaram porque havia necessidade e conheciam o meu percurso”, salienta a Neonatologista.
Perguntaram-lhe se não queria ser novamente Diretora, Coordenadora Clínica do projeto “Novos Horizontes”, implementado pelo Instituto Marquês de Valle Flôr. “E cá me encontro com a autorização do Hospital, com licença sem vencimento, a Coordenar o projeto, que gosto muito e que tem tido muito bons resultados”, salienta a médica.
O projeto só está implementado no Hospital militar, mas o PIMI de Bissau estava implementado em todo o país. São projetos diferentes.
O PIMI: Projeto de Combate à Mortalidade Materno-Infantil
A mortalidade materno-infantil continua a ser um problema na Guiné-Bissau, mas este projeto do “Novos Horizontes”, do Instituto Marquês de Valle Flôr, é ainda mais abrangente porque aquilo que se pretende é apoiar e dar capacitação aos profissionais.
Ninguém pode vir para um país em África e achar que vai substituir as pessoas ou vai ensinar. Temos que apoiar a formação, é só isso que este projeto faz, por um lado, proporcionar condições para que os cuidados se possam desenrolar. Por exemplo, no projeto “Novos Horizontes”, no hospital militar houve implementação de francas melhorias na área de imagiologia, já existe TAC e a hipótese de telemedicina, raio-X digital, mamógrafo, um grande incentivo na área do laboratório e apoio nas especialidades médicas.
As missões vêm e fazem a parte assistencial e formativa, porque o objetivo é sempre capacitar as pessoas para poderem proporcionar cuidados de forma autónoma. Vai-se tentando as áreas em que há mais dificuldade de resposta. Descreve a médica.
Que tipo de intervenção de ajuda humanitária faz e com que frequência?
“Eu faço na medida em que o meu hospital me permite. Já tenho idade para não fazer urgências, mas dado a situação e algumas necessidades, continuo a fazê-las e o meu dever primário é com a minha instituição de base, sou médica em exclusividade, mas tanto quanto posso e me permitem, tento fazer estas missões também”. Explica a Noenatologista.
Já esteve a fazer duas missões de formação na Etiópia, através de um projeto da União Europeia da Cooperação espanhola e italiana, que dá formação a médicos naquele país africano. “Estive integrada nesse projeto de dar formação a neonatologistas, porque tenho uma âncora sempre ligada a África.” Salienta.
Poderia tentar criar a sua própria ONG, mas segundo a médica já há muitas ONG, e o mais importante é que têm conseguido obter bons resultados. E o mais relevante é que tenham impacto na vida das pessoas. E tragam um retorno positivo pessoal, “sinto-me bem a fazer o que faço, mas acima de tudo, o objetivo é que haja impacto positivo para a população.” Salienta.
A ONG, Instituto Marquês de Valle Flôr proporciona-lhe as viagens de ida e volta. Tem um pocket Money, alojamento e carro. “São condições muito boas. Ninguém vem para aqui para projetos de cooperação para fazer dinheiro ou para ganhar pelo menos tanto quanto ganha em na sua situação de base. Desde que dê para sobreviver, é isso que se pretende”, salienta a médica portuguesa.
Uma Mensagem e o que é mais necessário e urgentemente na Guiné-Bissau?
Segundo Maria Costeira, é necessário fazer aquilo que for necessário para a manutenção dos projetos e o impacto na população deve ser mantido. Neste momento na Guiné-Bissau há uma atenção especial na área da materno-infantil, por várias razões, uma delas é que é 1/3 das necessidades da população. Outra é que é um investimento com retorno garantido, é um investimento no potencial humano, porque cada vez que um bebé não sobrevive ou que sobrevive com sequelas, estamos a limitar o potencial cognitivo e de trabalho do país. Investir na área materno-infantil é um investimento com retorno garantido, sem qualquer sombra de dúvida, isto de uma forma muito crua, muito numérica. Diz a médica.
Porque por vezes falar só do ponto de vista humano, do ponto de vista de qualidade assistencial não tem impacto. Mas falar em números, está mais que provado, que todas as áreas, todos os doentes merecem tratamento, satisfação das suas necessidades, mas a área da materno-infantil é aquela área que dá milhões de retorno, não é muito bonito dizer isto assim, mas é a realidade!
“Vou dar um exemplo, um dia fui a Cacheu ver o Museu da Escravatura e há lá um Centro de Saúde que foi apoiado até 2020/21 pelo Instituto Marquês de Valle Flôr no projeto PIMI e quis visitar o Centro de Saúde e aquilo que constatei é que não era o mesmo como em 2020, notava-se que havia ordem, organização e qualidade. Aquele projeto teve impacto e continua a ter, é isso que se pretende, que haja impacto e sustentabilidade, continuidade ao longo do tempo, porque senão começa-se e acaba-se com um projeto, sem resultados.” Termina a Neonatologista Maria Costeira..





