A escritora, jornalista e professora Isabela Figueiredo encontrou-se com os seus leitores na livraria “A Tout Livre” em Paris 12, para uma conversa à volta do lançamento em francês do novo romance “Un Chien au Milieu du Chemin” (Um Cão no Meio do Caminho), da editora Chandeigne & Lima, onde deu uma entrevista exclusiva ao Jornal das Comunidades Lusófonas, ao qual confessou “sinto-me muito feliz em França e da forma como sou lida, quase com uma atenção psicológica. Mas, tenho saudades dos meus animais, quero voltar a Portugal (Risos).”

A autora nasceu em Moçambique, por isso se destaca da sua obra o “Caderno de Memórias Coloniais” em revividas experiências coletivas e individuais do colonialismo português.
Por dar uma atenção profunda às vidas invisíveis, agora a aventura centra-se no encontro de duas solidões, quando uma das figuras necessita e aceita a ajuda da outra para cuidados médicos.

Uma reflexão sobre a atualidade em que são questionadas as temáticas de entre ajuda, consumismo, afeto e ética animal. Para companhia, prevalecem os animais ou os seres humanos? Questões que fazem pensar o leitor e que Isabela Figueiredo nos expõe, “Os humanos encaminham-se para o isolamento global, mas o isolamento retratado no livro não é esse caso, em que o COVID nos fez ter medo uns dos outros. As personagens são pessoas diferentes e pagam um preço por essa diferença, que consiste em estarem sós. Vejo-os como pessoas carentes que precisam de carinho, de amor, de atenção. Uma adora animais, é vegetariana e faz sacrifícios por eles, a outra odeia animais e sente desprezo por quem não come carne. Mas, através da conversa e do sentido humano, que é estarmos uns com os outros, acaba por se humanizar.”

A escritora assume o compromisso de falar das vidas invisíveis, que são verdadeiras e não na aparência forjada para agradar ao outro. Vidas comuns, éticas e ligadas ao essencial, “não somos a mesma pessoa dentro de casa que somos lá fora. Em casa somos mais verdadeiros. A pessoa é o que é quando está em casa sozinha. Olho muito para a sociedade e para o que está à minha volta. Observo com atenção e penso aquilo que vejo, sinto-me profundamente indignada com a desumanidade”. Emocionou-se e a voz falhou ao contar um episódio vivido durante a tarde numa praça na capital francesa, “as esplanadas estavam animadas, cheias de juventude, e no passeio estava um sem abrigo deitado, de peito aberto à chuva, a morrer em direto, abandonado à indiferença. Pode até ser um marginal irrecuperável, mas é um ser humano, e as pessoas irrecuperáveis também merecem uma cama e alimento e outras coisas. A nossa sociedade está muito alheia ao outro, aos seres necessitados de proteção, não só pessoas”.
Neste livro é colocado em foco o tema da proteção, “estamos perante aquilo que eu penso que o mundo deveria ser. Devíamos ser gratos com os animais, ou pelo menos não deveríamos interferir com eles. Olho para o mundo animal como um mundo importante que não pode ser separado do mundo humano, é um mundo que se complementa. Os animais são muito maltratados e não nos acontece nada, no máximo uma multa.”
Neste romance encontramos uma personagem traumatizada, antissistema e que questiona o fato de sermos obrigados a pagar para viver. “Quando nascemos ninguém nos diz que temos de pagar a água que bebemos. Vivemos num capitalismo extremo de pagar para comer, para dormir e para ter um teto. Como se pode viver sem ter de trabalhar como escravo, para ter dinheiro suficiente que permita viver mais um mês?”
Isabela Figueiredo aproveitou a vinda a França para dar uma aula na Universidade Sorbonne e continuou viagem para uma nova apresentação na cidade de Lyon.
Eduardo Lino, outubro 2025 (Correspondente em Paris)



