Miguel Simões, fez a sua licenciatura e mestrado na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Na altura já fazia colaboração com uma universidade em Inglaterra, onde esteve durante uns meses fazer parte da sua licenciatura e do mestrado na área da biologia. Trabalhava com peixes africanos e a forma como se comunicavam através de sons. Mas antes de começar o doutoramento foi técnico de investigação no ISPA, (Instituto de Psicologia em Lisboa), onde trabalhou com charrocos e outros peixes portugueses que também comunicam através de vocalizações para fazer corte. Depois fez o doutoramento na faculdade Ciências, mas em colaboração com o ISPA, com o Instituto Gulbenkian e com a Fundação Champalimaud, a tentar perceber os efeitos no cérebro das interações sociais em peixes.
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O trabalho de Miguel centra-se no que acontece no cérebro dos peixes quando sentem os cheiros, ouvem outros animais, ou durante lutas e estudou essas interações. O que é que acontece se um peixe perdesse essa interação ou se ganhasse uma interação, no fundo, o que acontece na interação seguinte? São questões que o investigador tem em mente.
Reparou que o efeito de derrota é um efeito muito mais prevalente do que o efeito de vitória no cérebro dos peixes. Tal como os humanos, sentem muito mais quando experiência as derrotas de uma forma mais exacerbada, do que com as vitórias. Realizou ressonâncias magnéticas à cabeça dos peixes, pois à época não tinham um mapa, um atlas do cérebro destes animais.
O percurso académico de Miguel não para, fez colaborações nos Estados Unidos, na Bélgica, em Antuérpia. De seguida iniciou outra fase da sua vida profissional, começou a dar aulas como Professor Assistente no ISPA e a frequentar um pós-doutoramento na Universidade de Northwestern, em Chicago, a trabalhar com moscas da fruta, que é um modelo muito comum em ciência.
Com este animal, “nós temos muitas mais técnicas e metodologias genéticas e um mapa completo do cérebro”, têm muitas ferramentas para tentar responder às perguntas que o investigador Miguel estava interessado em perceber, como é que estes animais evitavam temperaturas perigosas e como é que as alterações climáticas e mudanças de temperatura drásticas afetam o seu comportamento, bem como o cérebro destes animais.
Ainda no campo da investigação Miguel esteve na Universidade de Northwestern em Chicago durante uns 7 ou 8 anos, e depois mudou-se para Portland, onde está neste momento como Professor de Neurobiologia e tem um pequeno laboratório onde faz investigação. O seu campo de ação é por um lado, tentar perceber como é a temperatura afeta o comportamento em grupo, por exemplo, quando as temperaturas mudam drasticamente e se tornam mais desconfortáveis. Outra faceta é como nós nos relacionamos com o outro, como por exemplo, durante a corte ou durante períodos de maior agressividade.
Também se encontra a investigar como é que outros estímulos que os humanos exacerbaram, ou, por exemplo, como a luz artificial afeta os animais, especialmente a luz azul, que está presente nos nossos telemóveis, tabletes ou computadores, como é que essa luz, esse comprimento de onda específico afeta o nosso ritmo circadiano, mais conhecido por “relógio biológico”. A transição entre o dia e a noite, como é que afeta?
No seu laboratório, tem exposto animais a essa luz azul. “E o que vemos é que, durante o período em que há luz azul, eles não dormem. E se estiverem com a luz acesa durante a noite, permanecem toda a noite acordados e depois dormem durante o dia.” Explica o Professor. Há uma reversão completa do ciclo.
Também se encontra a estudar como é que microplásticos e nanoplásticos, ou seja, os plásticos resultantes da degradação dos mesmos, que utilizamos no dia-a-dia, afeta a dieta a fisiologia, a biologia e o comportamento dos animais.
“Nós ainda não sabemos como é que eles nos afetam. A mosca da fruta, é um modelo ideal para ver este tipo de interações. E, portanto, de uma forma geral, é ver como é que o ambiente externo afeta o comportamento e o cérebro dos animais. Seja em termos de luz, seja em termos de temperatura ou de dieta,” exemplifica o investigador.
A mosca que anda a estudar encontra-se nos nossos pomares e são uma praga, “é uma espécie diferente daquela que normalmente coabita connosco, mas é uma espécie muito próxima de Drosófila, também designada de Drosophila Suzukii, que é um problema para os agricultores, porque picam, comem a fruta e põem ovos.”
A mosca que Miguel Simões estuda é um um inseto que é comensal com os humanos, ou seja: já vive connosco há muitos, muitos anos. A teoria corrente é que, desde que os humanos começaram a fazer álcool e a fermentar frutos, elas seguem-nos, porque gostam da fruta em fermentação.
Estão em todo o lado. Mas há outras espécies, como estas, que são oportunistas e que têm vindo a ser mais prevalecentes e nota-se mais perda de culturas e de árvores de fruto, por causa destas moscas.
Naturalmente, não são só essas moscas, mas também outros insetos que são vetores de doença, como os mosquitos que transportam o dengue e a febre amarela, que passaram de latitudes mais baixas para mais altas.
Os fenómenos extremos, também estão associados com as alterações climáticas. Os verões são cada vez mais longos e invernos menos curtos e mais secos. Há vários fatores que não se resumem apenas e somente ao aumento de calor, também há um aumento da imprevisibilidade e normalmente, estes fenómenos que são imprevisíveis, são mais stressantes, não só para os animais, mas também para nós.”
Qual é, quais são as conclusões que retira?
A ciência está sempre em construção, nunca tem respostas definitivas, mas o que “nós conseguimos ver com as experiências que desenvolvemos é que, por exemplo, as dietas, com microplásticos, vai afetar um sem número a nível biológico e fisiológico do animal. As dificuldades em reproduzir-se e também se tem verificado na população humana, um declínio da natalidade por inúmeras razões e nós não sabemos se estão relacionadas com o ambiente, mas certamente poderão estar.
Há alterações ao nível digestivo, vemos animais com mais obstipação, com mais dificuldades em ter uma regulação intestinal normal. Quando aumentamos a temperatura, quando fazemos este tipo de interações em que os estímulos são imprevisíveis, há um aumento da agressividade. Os animais tendem a ter interações mais rapidamente, começam a lutar mais depressa e um pouco mais prolongada no tempo.
Ao nível cerebral, ainda não há dados dessas experiências, mas em termos de luz, o que vemos é, que os animais estão com o ciclo circadiano completamente alterado e ou não dormem ou vão mais tarde dormir e depois acordam mais tarde ou não acordam, no dia seguinte são mais letárgicos.
E obviamente, se eu estiver mais cansado, depois afeta a maneira como me comporto perante os outros. Há aqui uma relação de causa efeito, mas nada é definitivo, refere o Professor e Investigador Miguel Simões.




