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EXCLUSIVO: O Delírio Coletivo da Inteligência Artificial

Destaques

30 novembro 2025

Esta semana deparei-me com uma entrevista de Miguel Nicolelis na Carta Capital. Para além do texto, havia vídeo, e foi nele que ouvi a frase que me prendeu de imediato pela força crua do seu diagnóstico: “o boom da IA pode ser o maior delírio coletivo da história da humanidade”. Constata algo que já é evidente para quem, como ele, observa a humanidade com olhos treinados para padrões e desvarios.

Para além da crítica à euforia tecnológica, Nicolelis explicou que começou a escrever ficção, para escrever mais livremente de tudo que queria abordar. O seu romance ‘Nada Mais Será Como Antes’ foi o primeiro exercício de verdadeira liberdade além produção académica, um gesto simples que também revela muito sobre o estado da ciência contemporânea. Se até os cientistas procuram a ficção para recuperar espaço mental e expressivo, talvez seja porque o próprio território científico se tornou demasiado automatizado, formatado e submetido à lógica maquinal dos resultados imediatos.

O problema, claro, não é a inteligência artificial. É a forma como a humanidade corre para dentro dela como quem corre para um farol, sem reparar que a luz também pode cegar. Nicolelis toca num ponto mais profundo. A explosão que ele antecipa, económica, social ou filosófica, não nasce dos algoritmos. Nasce da vulnerabilidade humana à promessa de atalhos, da tentação de entregar às máquinas o que já não temos coragem ou paciência de cultivar em nós.

E aqui surge uma ponte inevitável com Saramago. Ao ouvir Nicolelis, ecoaram-me imediatamente os Ensaios da Cegueira e da Lucidez. Saramago descreveu uma humanidade que, mesmo com os olhos abertos, escolhe não ver, e uma sociedade que, mesmo com todas as ferramentas de participação, escolhe não pensar. Hoje chamamos a isto boom da inteligência artificial, mas o mecanismo interno é o mesmo. Não é a tecnologia que nos cega. É a nossa recusa em olhar para dentro. Não é o algoritmo que nos condiciona. É a preguiça de exercer liberdade.

Se Saramago estivesse vivo, provavelmente diria que atravessamos uma nova forma de cegueira branca, uma claridade tão intensa de informação que nos deixa opacos por dentro. Acrescentaria, com aquele sarcasmo luminoso que lhe era tão próprio, que nunca houve tanta capacidade para pensar e tão pouca vontade de o fazer. E talvez fosse ainda mais longe, sugerindo que esta euforia tecnológica não passa de um ensaio da obediência, um exercício silencioso em que delegamos às máquinas aquilo que já não temos coragem, tempo ou paciência para assumir como responsabilidade humana.

Para Saramago, como para qualquer espírito verdadeiramente livre, o perigo nunca residiu no poder que criamos, mas no poder que desistimos de exercer. A verdadeira lucidez não está em desconfiar das máquinas, mas em desconfiar de nós próprios, sobretudo quando pedimos às máquinas que pensem por nós. Ou sou eu que quero dizer isto tudo e arranjo o Saramago como desculpa (sorrisos marotos).

E termino a semana como quem fecha um círculo irónico, a ouvir mais uma vez que precisamos de redefinir a humanidade na era da inovação. Desta vez pela voz de Yuval Noah Harari, mais um homem que vive também de um delírio cuidadosamente construído à sua volta, do encanto de ser visto como oráculo do futuro. E mais não digo.

E como sempre… que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.

Declaração de responsabilidade: Todas as opiniões e reflexões expressas nos textos, entrevistas ou publicações da autora são estritamente pessoais. Não devem ser entendidas como representando posições oficiais de qualquer organização, empresa ou instituição com as quais mantenha ligação profissional ou institucional. Embora desempenhe diversos cargos de liderança, consultoria e direção, as suas reflexões pessoais permanecem independentes e não devem ser atribuídas a essas entidades.

Por Marisa Monteiro Borsboom

Marisa Borsboom / Correspondente no BENELUX
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