O Jornal Comunidade Lusófonas esteve à fala como Manuel Mesquita, Deputy Vice-President da CCINP, consultor internacional e entusiasta da tradição equestre portuguesa, que nos revelou um pouco sobre a modalidade e o que comporta. A importância de lidar com os cavalos, o mundo das competições e organizações desportivas equestres e da criação do cavalo Lusitano, é um autêntico bálsamo emocional para Manuel Mesquita, que recomenda vivamente. Segue a entrevista…

Manuel Mesquita, nasceu, cresceu e estudou no Porto, tem um percurso profissional ligado ao Direito enquanto Advogado e Advogado interno (In-house lawyer).
Em 2020 enquanto General Counsel de uma multinacional francesa presente em Portugal foi convidado para integrar os quadros da holding em França (Lille) enquanto Diretor Juridico Corproate e Legal Operations Officer.
Atualmente está a lançar uma empresa de consultoria estratégica em Legal operations mais especificamente projetos de transformação ligados a softwares juridicos que utilizam inteligência artificial. Esta empresa é baseada em França mas presta serviços em toda a Europa.
Vive em Lille, França, e esta experiência internacional moldou o seu olhar sobre Portugal, a Europa e a diáspora. A experiência de viver fora de Portugal, especificamente em França, muda a forma como vê hoje Portugal e a Europa.

“Portugal vê-se a si mesmo como muito atrasado quando na verdade está muito avançado em termos de informatização de serviços públicos e simplificação da burocracia, mas para outras coisas, como mercado potencial de negócios, não vê como prioridade o potencial do mercado europeu, mas antes como um complemento ao mercado português.” Revela.
A Europa e a União Europeia (UE) permitem a Portugal ter um mercado com um potencial incrível e que permite usufruir da harmonização legislativa e fiscal, o que não sucede com outros mercados (Brasil, África, China, EUA…). Portugal tem aproveitado bem a sua presença na UE mas pode aproveitar ainda mais, muito mais! O mercado português representa um potencial de 10 milhões de consumidores versus mais de 450 milhões na UE.
A diáspora Portuguesa tem um papel muito importante na apresentação dos respetivos mercados/países a investidores portugueses e vice-versa, e de facilitador de negócios. O conhecimento que têm do mercado, nos seus países de residência e de Portugal, permite-lhes partilhar dificuldades burocráticas, identificar players já existentes, zonas geográficas com mais potencial, com melhor infra-estruturas,… e assim facilitar negócios.
A sua ligação à CCINP – Câmara de Comércio e Indústria Países Baixos–Portugal e o motivou a assumir o cargo de Deputy Vice-President
A ligação surgiu através da Presidente da CCINP – Marisa Monteiro Borsboom. Conheceu a Marisa Monteiro Borsboom no âmbito das suas funções de Vice-Presidente da ELTA – European Legal Tech Association e “começamos de imediato a trocar ideias e debater projetos de softwares legais que utilizam a IA, e a partir daí nasceu uma relação profissional profunda que ultrapassou a legal tech e teve novas parcerias como o convite para ser Deputy Vice-President da CCINP para trabalhar na vertente equestre.”

Enquanto consultor tem de perceber as necessidades do cliente e os seus pedidos. De igual forma enquanto Deputy Vice-President da CCINP para trabalhar na vertente equestre consegue ter uma visão 365° da realidade europeia para perceber e identificar as possibilidades de divulgação e dinamização do cavalo lusitano no mercado equestre.
O cavalo bi-campeão do mundo e a sua ligação ao mundo equestre
O cavalo Zinque das Lezírias alcançou diversos títulos entre os quais bicampeão do mundo de Equitação de Trabalho, é um Puro Sangue Lusitano (PSL), criado pela Companhia das Lezírias, que se destacou na equitação de trabalho tendo nesta modalidade ganho 2 campeonatos do mundo, um campeonato europeu, para além de vários campeonatos e taças de Portugal.
“Eu adquiri o Zinque das Lezírias com apenas 3 anos diretamente à Companhia das Lezírias para o montar enquanto cavaleiro de fim de semana e foi o cavaleiro profissional Gilberto Filipe que identificou todo o potencial do Zinque das Lezírias. O Gilberto Filipe como cavaleiro e eu como proprietário decidimos que o Zinque das Lezírias seria preparado para participar nas competições de equitação de trabalho e foi todo o trabalho e dedicação do Gilberto Filipe (que é um dos melhores cavaleiros da atualidade não só a nível português mas internacional) que levaram o Zinque das Lezírias ao nível internacional e de reconhecimento mundial que ele alcançou” salienta.
O Zinque das Lezírias é um cavalo de exceção e um verdadeiro campeão. Dotado de uma morfologia muito típica enquanto Lusitano e de uma beleza única e distintiva com a sua marca na testa em forma de coração, é um cavalo reconhecível em todo o mundo equestre.
O que transformou o Zinque das Lezírias num campeão foi todo o trabalho árduo do seu cavaleiro – Gilberto Filipe, mas a “cabeça” (parte psicológica) do próprio Zinque! O Zinque tem uma ânsia de aprender mais, de constante aprendizagem, de agradar ao cavaleiro executando na perfeição o que lhe é pedido e ser desafiado em permanência com novos e difíceis exercícios.
O Zinque das Lezírias é a prova do dito que um campeão não é apenas o corpo mas a permanente motivação psicológica.
Além disso o Zinque das Lezírias adora a ribalta – deem-lhe público e palmas e ele cresce, fica inchado de orgulho e com uma nobreza de movimentos como se percebesse que o público está ali para o admirar e o aplaudir.
Apesar de não ser cavaleiro, tem uma ligação profunda ao sector, o que aprendeu com ele?
Manuel Mesquita sempre teve uma enorme adoração aos cavalos e apesar de não ser um cavaleiro profissional tem a ilusão de se considerar cavaleiro apesar de apenas montar ao fim de semana.
Enquanto proprietário do Zinque das Lezírias e durante o seu percurso atlético lida de perto com o mundo das competições e organizações desportivas equestres e da criação do cavalo lusitano.
Sendo alguém verdadeiramente outsider (pois não tem qualquer anterior experiência nem interesse no mundo da criação ou de competições equestres), o acompanhamento do percurso fulgurante do Zinque das Lezírias permitiu-lhe ter um contacto direto e interno com este mundo, quer a nível nacional como internacional.
A grande aprendizagem que retirou é que no mundo equestre português há hoje muitas coudelarias e cavaleiros profissionais que têm uma verdadeira visão mundial da equitação e sabem que o cavalo lusitano é uma pepita de valor incalculável e com um potencial em todo o mundo.
Comparação do hipismo de outros países
A tradição e conhecimento equestre português são centenários e têm uma versatilidade ligada ao próprio cavalo lusitano que é versátil nas diversas modalidades equestres, isto é, o cavalo lusitano tem uma capacidade de se distinguir em diversas modalidades equestres e não apenas numa, caso para dizer que não é excecional em nada, mas muito bom em tudo, alias diria que é excecional no toureio e muito bom em todas as restantes modalidades.
Esta visão pluridisciplinar do cavalo associada aos conhecimentos seculares, passados de geração em geração, fazem hoje com que a equitação em Portugal seja verdadeira, adaptada às diversas modalidades equestres e muito focada no cavalo, como um ser respeitado e respeitável.
A Feira da Golegã: identidade, cultura e economia
A Feira de São Martinho é celebrada na Golegã desde 1571 e o que era na origem uma feira de gado, com predominância de gado equino, transformou-se na montra mais importante do cavalo Lusitano e um local de encontro de todos os amantes do cavalo e especificamente do cavalo Lusitano.
Durante os 10 dias de feira que decorrem todos os anos no inicio de novembro para coincidirem com o 11 de novembro (Dia de São Martinho) todos os amantes do cavalo e do cavalo Lusitano em Portugal passam por esta feira, mas também visitantes de todo o mundo que aproveitam para visitar stands de criadores, assistir às competições desportivas e de modelos e andamentos e aproveitar a para contactarem pessoas e organizações presentes na feira que é verdadeiramente a meca do cavalo Lusitano e aproveitar para encontrar e conhecer pessoas de diferentes locais mas todos ligados ao cavalo Lusitano.
Atendendo aos séculos de realização desta feira há muitas tradições que se tentam manter como o trajar à portuguesa que verdadeiramente nos remete para um ambiente mágico de tradições culturais de trajar e vestir como se fazia há 2 séculos e que dá um toque único de tipicidade a toda a feira.
A feira nos últimos anos está a ganhar mais projeção internacional. “Esta observação não é de todo consensual” refere Manuel Mesquita, para os amantes da feira.
Como se costuma dizer – quem não muda morre, e a feira tem sabido mudar “e a meu ver melhorar”, acrescenta, por exemplo com a obrigação de registo dos cavalos e verificação da situação sanitária e existência de seguro, ou com a proibição de montar a partir das 02h00, são decisões que nem todos gostam, mas que melhoram a feira.
A projeção da feira a nível internacional tem melhorado mas nunca se pode esquecer que a feira recebe centenas de milhar de visitantes todos os anos mas numa pequena vila do Ribatejo com limitadas infraestruturas; dito isto, a projeção internacional tem tendência a aumentar e a crescer mas caberá à organização da feira escolher o perfil de visitante internacional que quer – turistas equestres que apenas querem tirar fotos a cavaleiros e amazonas a trajar à portuguesa ou verdadeiros amantes de cavalo lusitano que de regresso aos seus países ajudarão ainda mais na divulgação deste “nosso tesouro nacional.”
Impacto económico da Golegã na região e no sector equestre nacional
O impacto económico é muito importante na região, desde logo por todo o valor despendido pelos visitantes da feira em alojamento, alimentação e compras de produtos equestres. Este impacto traduz-se ainda pela procura imobiliária de segundas casas especificamente para utilização na feira.
No sector equestre nacional o impacto é indireto pois a feira é um verdadeiro investimento de promoção do cavalo Lusitano e das tradições equestres Portuguesas, é um showroom, um palco, uma vitrina, de promoção e que gera no futuro a realização e concretização de negócios de aquisição de cavalos lusitanos ou de estadias em alojamentos turísticos equestres, com forte crescimento em Portugal mas sob grande pressão da concorrência estrangeira de países como Espanha, Uruguai, Argentina, Brasil, Irlanda, …
A diáspora portuguesa tem um papel fundamental na promoção da Feira da Golegã, do cavalo Lusitano e das tradições equestres Portuguesas.
Esta promoção tem dois âmbitos distintos quer na divulgação, nos seus países, da feira, do cavalo Lusitano e tradições equestres, quer na identificação de oportunidades para esta promoção (em feiras equestres, escolas equestres…) a serem partilhadas com as organizações de criadores e promoção do cavalo lusitano.
O vertical equestre da CCINP – Zinque
Como surgiu a ideia de criar um vertical equestre dentro da CCINP inspirado exatamente no seu cavalo?
A ideia surgiu da falta de estruturas de coordenação e de facilitadoras de promoção do cavalo Lusitano e tradições equestres (turismo equestre incluído) nos Países Baixos.
Hoje esta presença efetua-se através de iniciativas isoladas de criadores, da APSL – Associação Portuguesa de criadores do cavalo puro-sangue Lusitano, mas com falta de apoio consistente de organismos locais que possam ser facilitadores dessas mesmas iniciativas.
A escolha do nome tem um enorme simbolismo pois pretende-se que este vertical tenha todo o sucesso e seja vencedor tal como o Zinque das Lezírias foi, mas também para se utilizar um nome conhecido no mundo equestre para realçar o sucesso do cavalo Lusitano e toda a sua potencialidade.
Na prática, como pode a CCINP transformar-se no centro europeu – e potencialmente global – da indústria equestre portuguesa, integrando as Câmaras Portuguesas no Mundo?
Essa transformação pretende que ocorra pela tradição equestre dos Países Baixos e que esta vertical do CCINP tenha um grande sucesso aproveitando as qualidades e potencialidades do cavalo Lusitano e das potencialidades do turismo equestres e tradições equestres portuguesas; esperamos que o sucesso deste vertical da CCINP não só contagie as restantes câmaras de comércio mas seja um farol e um motor em toda a rede de câmaras de comércio.
Este ecossistema é muito amplo pois engloba criadores, compradores de cavalos, interessados pelo turismo equestre, veterinários e universidades, cavaleiros portugueses que possam dar estágios nos Países Baixos e cavaleiros locais que pretendam participar nesses estágios. Trata-se, verdadeiramente, de parceiros transversais a tudo o que se relaciona com o cavalo e a equitação.
Apesar de toda a história e tradição equestre Portuguesa há hoje metodologias de equitação mais inovadoras que têm tido afirmação e presença em Portugal e que podem ser partilhadas com os outros países (veja-se o caso da equitação natural e de como Manuel Borba Veiga e Gilberto Filipe fazem atuações sublimes com os seus cavalos sem cabeçada nem embocadura).
Oportunidades para empresas e startups portuguesas neste sector em expansão
As oportunidades são imensas pois o cavalo Lusitano está, e é, muito bem visto internacionalmente, as potencialidades do turismo equestre em Portugal são muitas, profissionais Portugueses ligados à equitação são apreciados no exterior (cavaleiros, tratadores, correeiros, …), a capacidade de produzir softwares aplicados à equitação tem imensa procura e o mercado está agora a nascer!
Daqui a cinco anos vejo este vertical como um dos verticais mais ativo e com mais realizações efetuadas no CCINP e com um aumento forte da visibilidade do cavalo Lusitano, do turismo equestre português e tradições equestres portuguesas nos Países Baixos.
Cooperação internacional e futuro
A diáspora portuguesa tornou-se uma força relevante na diplomacia económica. Num mundo digital e com boas acessibilidades e infraestruturas na europa (e no mundo) podemos fazer a diferença e ter um papel relevante de qualquer parte geográfica do mundo, e a minha residência em França permite-me ser relevante para além das fronteiras terrestres franceses, e esta relevância enquanto membro da diáspora é para mim um dever e obrigação enquanto português mas um prazer enquanto alguém que tanto admira o cavalo lusitano e as tradições equestres portuguesas. A feira da Golegã é a montra por excelência do cavalo Lusitano e das tradições equestres Portuguesas, faz todo o sentido que uma delegação internacional das câmaras portuguesas no mundo se realize na Feira de São Martinho na Golegã; só aí os delegados poderão ver e sentir o orgulho desta nossa raça e tradições.
O meu orgulho em ser Português confunde-se com o meu orgulho nos produtos Portugueses, entre eles o cavalo Lusitano as tradições equestres portuguesas e, enquanto membro da diáspora, vejo o muito que ainda há a fazer pela promoção deste nosso património equestre sinto uma obrigação e um orgulho em participar neste projeto.
“A mensagem que gostaria de deixar aos portugueses na diáspora é que continuem ligados às suas raízes. Que mantenham esse contacto, essa ligação e que se desconhecem o cavalo Lusitano e as tradições equestres portugueses que visitem a Feira da Golegã!” Termina desta forma Manuel Mesquita.




