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Segunda-feira - 9 Março 2026

EXCLUSIVO: O ensino em Timor-Leste ainda enfrenta muitas dificuldades

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Escola São Francisco de Assis “PAZ e BEM” em Boebau, Manati, nas montanhas de Liquiçá.

Rui Chamusco, foi professor português de educação musical na escola pública em Portugal até 2009, ano em que se reformou. Durante algum tempo esteve a “desfrutar” a reforma, mas o apelo à ajuda logo veio como uma chama. Um dia encontrou um timorense e em conversa manifestou o seu desejo de voltar a Timor, decorria o ano de 2015. Desde 2002 que não ia lá, saiu antes da invasão da Indonésia, e só lá pode voltar em 2002. Foram momentos difíceis para Timor-Leste, e todos os que de lá vieram.

À conversa que tiveram, no Natal de 2015, esse Timorense “manifestou-me” o desejo de fazer alguma coisa com as crianças que havia na montanha a 50 quilómetros de Díli. Muitas crianças não tinham escolaridade, não frequentavam a escola porque ficavam nas montanhas de difícil acesso, e os caminhos estavam todos em mau estado muito também devido às intempéries, às cheias que costumam ocorrer por aquelas zonas.

Em conversa ficou decidido que era imperativo fazer-se lá uma escola, Rui Chamusco prontamente disse que estava pronto a alinhar nessa aventura, e em fevereiro de 2016 “fomos visitar a localidade de Manati/Boebau, nas montanhas de Liquiçá,” explica Rui Chamusco.

Na altura que foram lá constataram que havia muitas crianças, e o chefe da aldeia mostrou-lhes o caderno onde estavam registadas cerca de 400 crianças, mas só 111 é frequentavam escolas longínquas.

Como estavam na montanha, os acessos a essas escolas e a distância eram muito difíceis e normalmente as famílias não deixavam as crianças ir à escola, pois tinham que ir a pé enfrentando muitas dificuldades, pois não tinham transportes.

“Agora felizmente já há sobretudo motas (motores), que transportam as crianças às escolas mais remotas e longe de casa.” Diz um aparte Rui Chamusco.

Com a visita no terreno, constataram que era urgente construir uma escola para aquelas crianças, e regressaram com o levantamento do terreno e do que era necessário fazer.

“Regressamos convencidos que íamos fazer a escola e começamos a providenciar e arranjar meios para o seu início.” Então em janeiro de 2017, desse ano, através do Senhor João Crisóstomo e da Vilma, sua mulher, que estavam em visita a Timor-Leste ao abrigo de uma oferta do Governo timorense (porque João Crisóstomo tinha-se envolvido em muitas causas por Timor-Leste), encontrou-se comigo em Portugal, e prometeu que ia lá visitar essa localidade, e foi.

Quando lá chegou e para seu espanto viu ferro, alguns blocos, e areia, e prontamente perguntou: Porque é que ainda não começaram a fazer a escola? Ao qual lhes responderam: não há dinheiro!

E João Crisóstomo espontaneamente, tirou do bolso 2000 ou 3000 dólares, e disse: tomem lá, amanhã comecem a fazer a escola!

Em março de 2018 a escola foi inaugurada. Tem 3 grandes salas de aula e uma sala de apoio ao professor, material escolar e casas de banho. Todo o trabalho foi feito a pulso, foi tudo feito à mão. E lá se conseguiu inaugurar em março de 2018.

No dia seguinte começaram as aulas, contratou-se uma professora que também ajudou na inauguração, e este ano celebrou-se o sétimo aniversário, que contou com a presença do primeiro-ministro, Xanana Gusmão, que fez essa surpresa.

Não há professores portugueses destacados para essa escola, e também não se fala português, mas sim Tétum, que é a língua oficial de Timor-Leste, para além do português.

Nunca tiveram professores destacados. Nunca se conseguiu isso, embora já o tenham prometido, mas as coisas têm andado devagar, a “andar”, “não podemos correr, temos de andar devagar,” refere um dos locais. Os profissionais que lá estão neste momento é a Associação (ASTIL),que envia dinheiro daqui de Portugal para pagar aos profissionais.

A literacia daquelas crianças era muito baixa e muitas vezes quase nula, muitas crianças de 13 anos mal sabia escrever. Tiveram a necessidade de mudar algumas coisas. As crianças de seis, sete anos, já não estão a ter aulas com as crianças de treze anos.

Têm lá a professora e dois auxiliares, e fazem o que podem. Neste momento já há o pré-escolar e o ensino primário.

Português nem ouvi-lo!

A Escola oficial portuguesa em Díli ensina em português, mas tem uma particularidade; não é para gente pobre, é para ricos. Quem é que tem capacidade de pagar as propinas que eles pedem? Questiona o professor Rui Chamusco. As crianças pobres devem-se contar pelos dedos, afirma o mesmo.

Díli fica a 50 quilómetros de Boebau e para fazer 15 quilómetros, demoram umas 3 horas.

A escola de Boebau é totalmente grátis para as famílias, não pagam propinas, nem material escolar. Tentam arranjar tudo através da Associação de Amigos Solidários de Timor-Leste.

“O que nos preocupa mais, é a sustentabilidade da escola, por enquanto, a Associação, enquanto há sócios entusiasmados, ainda vão contribuindo, mas ninguém pode obrigar os sócios a pagar, e o futuro é muito incerto”, refere Rui Chamusco.

O primeiro-ministro de Timor-Leste, pediu-me o dossier da escola que lhe foi dado para ele ver o que é que se podia fazer, mas até agora nada.

Estive lá em encontro com o Vice primeiro-ministro dos assuntos sociais. E o próprio Vice primeiro-Ministro da Educação, e o próprio mostrou-se muito interessado, tínhamos que resolver, e encontrar uma solução. A situação, é esta. Temos que ser nós a suportar as defesas por enquanto.” Termina o professor jubilado.

Lígia Mourão
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