Fotografia: Tom Maelsa
O mundo das artes corria-lhe pelas veias, nascido em Terras Gaulesas, filho de pais portugueses emigrados em França. Na adolescência, um novo capítulo da sua vida permitir-lhe-á mergulhar na realidade e na cultura portuguesa: muda-se para Portugal aos 15 anos. Depois de estudos secundários em Ourém e Tomar, foi estudar para a Universidade de Lisboa, na Faculdade de Letras. Tiny Domingos, é o seu nome, é considerado um artista sui generis.
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Tiny, sempre quis enveredar pela via das Artes, mas na altura enfrentou no contexto português a crise dos anos 80. Quando chegou a Portugal em 1983, Portugal vivia a segunda crise económica e a família achou que a carreira artística não seria o melhor caminho, foi então que Tiny enveredou pela carreira de professor: licenciou-se em Letras.
Terminou a licenciatura em 1991, e começou a dar aulas nos arredores de Lisboa. O seu ideal era ficar em Lisboa, mas a capital não oferecia perspetivas de estabilidade para um jovem professor. Optou então por candidatar-se para as ilhas onde esteve a dar aulas: Madeira, concretamente em Porto Santo.
Um ano antes de terminar a sua licenciatura, recebeu um convite em 1989, para participar num intercâmbio entre Lisboa, Berlim e Praga. Em Janeiro de 1990, poucas semanas depois da queda do muro de Berlim, chega a uma cidade em fase de transformação. Ficou fascinado. Era um momento histórico: a Queda do Muro de Berlim marcava o fim da Guerra Fria e o início de uma nova era política e económica.
Rapidamente se deu uma aceleração temporal que levou à reunificação alemã. Tiny ficou com amigos na cidade. Foi no meio do descrito cenário internacional, que o intercâmbio alterou o interior e a perspetiva do futuro artista / curador independente.
Com um background bilingue, o franco-português chega à Alemanha também para sair desse binómio a que estão associados alguns clichês. Lusitano, Lusodescendente de França e agora emigrante na Alemanha – do ponto de vista cultural uma singular e interessante trilogia. A escolha talvez não surpreenda, dado que conheceu o idioma alemão, quando estudava em França.
Entretanto, em Lisboa, na altura, era uma cidade «bastante parada», para o gosto de Tiny Domingos. Enquanto Berlim era uma cidade em plena agitação e com uma história muito marcada pelo século XX, devido a todos os grandes momentos e acontecimentos que marcaram a história da humanidade. Era muito diferente da melancolia de Lisboa. Entre idas e vindas entre Lisboa-Berlim, Berlim-Lisboa, decidiu mudar-se para Berlim em 1994.
«Depois de ter passado muitos verões agradáveis, eu vi que era uma cidade muito espaçosa, onde os jovens tinham uma qualidade de vida fantástica, com grandes museus, grandes parques, tudo muito grande, enquanto que a minha vida em Portugal era mais desafiante para um jovem professor que muda de terra em terra cada ano à espera das colocações.» Sentia também que, depois de ter estudado literatura e linguística, a sua vocação artística continuava forte. Durante a licenciatura, tinha frequentado aulas de pintura e de desenho na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, uma experiência que o marcou muito.
Foi nessa altura que entrou no mundo das artes de Lisboa e começou a fazer exposições. Em 1989, ganhou o primeiro prémio da Bienal do Montijo, foi selecionado e teve menções honrosas em várias exposições de Arte Jovem, do então chamado Ministério da Juventude, com prémios às vezes pecuniários. Teve sucesso como jovem artista, «que me dizia que a minha paixão pela arte não era completamente desprovida de fundamento. Havia algum fundamento, mas, no entanto, não era suficiente para eu poder começar logo uma carreira artística e alugar um atelier, e tudo o que comporta» salienta.
Sabia que tinha que trabalhar e foi trabalhar: deu aulas durante um ano na ilha do Porto Santo, depois de ter tido algumas primeiras experiências em Sintra e no Seixal, a fazer substituições de professores.
Em Porto Santo foi diferente, desempenhou cargos de maior responsabilidade, como ser diretor de turma em 1993. Porém, com Berlim a continuar no pensamento, percebeu que havia mais mundo para além do panorama nacional. Como muitos jovens artistas também sentiu o profundo desejo de medir o seu talento no contexto internacional das artes visuais.
Chega a Berlim sem bolsa, nem apoio institucional. Precisou de ultrapassar o primeiro obstáculo: o curso de Alemão que fizera em Lisboa, não lhe permitia uma comunicação fluída. Mas decidiu caminhar para uma nova vida.
A sua ideia inicial era ficar em Berlim por um, dois anos e depois regressar, porque não foi uma necessidade económica, nem material, que o levava a sair do país. Os professores colocados nas Ilhas tinham acesso a um reforço salarial. Vivia-se bem.
Mas acabou por se render a Berlim, e integrar-se na cidade, que oferecia muitas alternativas, quer em termos de emprego, quer em termos de casa e de custo de vida.
Entretanto, a situação nos últimos anos mudou drasticamente.
Berlim é hoje uma cidade mais cara e de mais difícil acesso à habitação. Há filas de centenas de pessoas para ter casa e um quarto pode custar 600 euros mensais.
Tiny conseguiu um por 100 euros, anos antes!
«Eu vivi Berlim com muita efervescência cultural e boémia. Vivi a minha boémia estudantil depois da licenciatura e de um ano de trabalho. Quando cheguei, os jovens alemães demoravam mais tempo na faculdade, porque intervalavam os estudos com estadias no estrangeiro e com serviço cívico.» salienta Tiny.
Foi trabalhar para uma construtora civil como tradutor técnico, na Engil (atual Mota Engil), empresa portuguesa, uma das maiores construtoras europeias e mundiais.
Teve uma estabilização económica através deste emprego bem remunerado, de trabalhador destacado no estrangeiro, que também contribuiu para reforçar a sua ligação com Portugal.
Depois disso, o mercado da construção civil mudou, a empresa retirou-se do mercado alemão e evoluiu para outros mercados e «eu comecei a dar aulas de francês. Fui professor de francês num Instituto de formação profissional durante vários anos.»
Em 1999, depois de ter conhecido o funcionamento da empresa internacional acima referida, percebeu a importância da partilha de tarefas e do trabalho em equipa: e decidiu criar um laboratório artístico que se chama ROSALUX.
A Era ROSALUX
Nos primeiros anos, a ROSALUX era sobretudo uma plataforma online. Entretanto, passado uns anos, Tiny entendeu que não havia mercado para os serviços que estava a propor com a ROSALUX, e decidiu dar prioridade às exposições físicas.
A partir de fins de 2006, a ROSALUX tem, até agora, tido uma programação regular de artes visuais. Tornou-se um centro de artes: um espaço independente de artes visuais, com uma rede internacional. Depois de uma primeira fase de dois anos, com programação exclusivamente portuguesa, a ROSALUX, que foi criada para fazer uma ponte entre a cena artística de Berlim e a criação portuguesa abriu-se a artistas internacionais.
«Foi uma excelente decisão porque o interesse internacional por Berlim é muito grande e também não faz sentido fazer uma programação apenas baseada num país. O discurso da arte é um discurso internacional e os artistas portugueses são mais valorizados se forem apresentados numa plataforma onde as culturas e as práticas artísticas internacionais se misturam.»
Hoje em dia, o resultado disto tudo é que a ROSALUX é um espaço extremamente internacional e, ao mesmo tempo, extremamente enraizado na cena cultural independente de Berlim, no domínio das
artes visuais. «Tenho muito orgulho em ter conseguido criar uma estrutura sem apoio institucional, sem constrangimentos económicos, ideológicos ou outros. É um espaço absolutamente livre que eu tenho financiado do meu próprio bolso, mas que também acolhe alguns projetos com financiamentos institucionais. Em 2015 recebi o prémio de excelência da cidade de Berlim, pela programação cultural da ROSALUX.»
É contemporâneo ou é clássico?
«A minha prática é contemporânea, com vídeos, fotografia, performance e com alguma pintura. Eu acredito fortemente na criação artística portuguesa. Acho que Portugal poderia brilhar muito mais se houver um maior investimento e apoio aos criadores portugueses e às poucas estruturas como a minha, que existem no estrangeiro. Deveria haver mais atenção e mais diálogo com os agentes culturais que estão pelo mundo. Sobretudo, penso que Berlim está a ser subaproveitada, porque aqui nós conseguimos fazer omeletes gigantes com poucos ovos e Portugal não está a aproveitar isso.
Berlim é mais barato do que Londres, Paris ou Nova Iorque. Esta é uma mensagem para os artistas portugueses, vale a pena sair do país, mas também, por outro lado, também é importante não esquecer o seu país, não esquecer a sua origem. Eu acho importante cuidarem sempre a sua base artística em Portugal e deveria haver uma sinergia do meio artístico e das instituições para permitir maior circulação, reforçando a paisagem cultural portuguesa. Isso é que seria importante!»
Uma mensagem que queira dar aos imigrantes e aos artistas de uma maneira geral, aos que já estão emigrados e aos que queiram emigrar
Sem grandes floreados, Tiny Domingos diz: «Sim, vale a pena ir e seguir a inspiração e se uma pessoa tem vontade, o sonho, vale a pena! Vale a pena perseguir o sonho, mesmo que o caminho seja difícil. Um dia virá a recompensa, talvez não seja uma recompensa económica, mas uma recompensa cultural, ou artística, que é o que eu estou a receber neste momento.
Sinto-me recompensado pelo reconhecimento por parte da comunidade artística portuguesa e internacional, que vem com muito gosto colaborar comigo e que me convida também a ir aos seus países, às suas galerias, fazer exposições e que me têm permitido viajar pelo mundo inteiro.
Fiz uma exposição, por exemplo, em Los Angeles, outras no Canadá, no México. Há toda uma possibilidade de fazer coisas fantásticas com paixão e com empenhamento próprio.», revela.




