Graça Raposo nasceu em Lisboa onde viveu em Portugal até aos 10 anos de idade e fez a quarta classe. O pai, emigrado em França, resolveu reunir a família levando-a para junto dele através de uma “carta de chamada”, designação na altura.

Teve muita sorte na altura, porque fazia parte da primeira vaga de crianças que tinham sido repatriadas pelos pais durante a primeira fase de imigração e havia poucos alunos estrangeiros no Colégio que frequentava junto de casa. Depois mudou de liceu para Paris, proporcionando-lhe uma boa formação escolar.
Quando chegou ao 12º ano, Portugal ainda vivia um pouco a convulsão do 25 de abril (1974/75), a revolução ainda estava no rescaldo e havia uma desorganização com governos militares sucessivos que afetou o percurso académico de Graça, não obtendo a equivalência escolar em Portugal, para ingressar a universidade, motivo que a levou a regressar a França.

Mas não foi sozinha, o coração estava preenchido, foi com o seu namorado, com quem viria a casar mais tarde, para terras Gaulesa.
Começou um curso de Direito em França. Estudava e trabalhava, e enquanto fazia estas duas atividades, engravidou.
Frequentou duas universidades : Nanterre e Sorbonne durante 5 anos, onde se formou. Trabalhou em gabinetes de advogados durante a formação académica.
Muito rapidamente, teve oportunidade de ir trabalhar para um banco de negócios e especializar-se em direito de sociedades, criação de empresas, modificações de estatutos, etc.
Progressivamente, com a abertura dos mercados financeiros aos fundos de investimento, produtos complexos, continuou a formar-se e a especializar-se.
E foi nessa área que assumiu responsabilidades sucessivas nos vários bancos em que trabalhou para a criação, pedidos e autorização de abertura desses fundos junto das autoridades de regulação, foi o seu percurso até à reforma praticamente.
Não optou por advocacia, nem magistratura, preferindo integrar sociedades comerciais. Escolheu os bancos onde exerceu toda a sua carreira.
A primeira função que teve foi junto da Direção-Geral dum Banco privado que tinha como clientes grandes investidores, tais como LVMH, que necessitavam de apoio rápido nas suas diferentes operações de desenvolvimento. Financiamentos, criação de empresas “ad hoc” destinadas ao comércio específico dos clientes.
“Eu ocupava-me da parte jurídica da criação das sociedades. Eram sociedades fechadas na altura, com capitais privados. A partir dos anos 2000 houve grandes alterações nos mercados financeiros”. Revela a bancária. A recapitalização dos bancos necessitou mais fundos próprios. Havia cada vez mais fundos de investimento complexos : SICAV (sociedades de investimento com capital variável) e todos os tipos de fundos de investimento.
Houve também uma forte transformação tecnológica tal como a desmaterialização dos títulos e o desenvolvimento informático que veio alterar os métodos de trabalho.
“Tive a sorte de assistir a uma transformação tanto jurídica e financeira ligada aos movimentos na Europa e à evolução bancária como no que diz respeito às evoluções tecnológicas. Terminei a carreira como especialista jurídica de fundos de investimento, sempre na área da banca.” Explica a jurista.
“Fui “comprada e vendida” várias vezes” devido a operações de fusão/aquisição entre entidades, necessárias pelas restruturações na área da Banca” , revela a bancária.
Quando entrou para o mundo da banca inicialmente, começou por um banco relativamente pequeno, com poucos capitais. Esse banco teve de aumentar os seus fundos próprios, e foi comprado por outro Banco e essa operação foi realizada 4 ou 5 vezes.
Contundo, nenhum dos novos acionistas a dispensaram, mudavam os proprietários e “eu acompanhava sempre esses bancos, por vezes mudava de função, mas nunca me despediram,” explica Graça. “Andei nesta azafama durante alguns anos. Quando perdia o posto jurídico, logo lhe faziam uma nova proposta.”
“Uma única vez, não desempenhei funções jurídicas, fui para a holding exercer funções de formação junto da equipa de comerciais .” Descreve.
Teve uma vida profissional muito interessante e cheio de desafios. Era muito apaixonante e bastante diversificada porque tinha muitos contactos nas áreas mais variadas, com pessoas diferentes ou postos cujo os objetivos eram opostos.
Entre exigências da Direção-Geral, os interesses dos investidores, as regras da contabilidade e fiscalidade, os interesses dos Comerciais, vivi a 100 à hora.” Revela.
Qual é a sua opinião em relação à moeda virtual, nomeadamente os bitcoins?
“Eu tenho uma certa reserva sobre essas aplicações financeiras. Pessoalmente, não trazem grande segurança, considero-as como “apostas”. Para mim, e no meu entender é como se fosse um jogo. Tipo Casino, se se tem sorte, sair feliz de uma operação dessas, muito bem, mas se não, não há recurso nenhum atualmente no caso de perca de dinheiro. Não tem recurso nenhum, “eu pessoalmente não faria, não faço parte. Cheguei a investir em emissões, em fundos de investimento, em veículos financeiros controlados, autorizados e que comportam risco, ainda continuam a comportam o risco, mas tipo Casino, a apostar dinheiro e injetar capital nesse tipo de operações, não faz parte das minhas escolhas.” Termina Graça Raposo.




