“Comecei o meu percurso académico em Portugal”, inicia desta forma Francisco Bernardo, Investigador Pós-doutorado Associado na Imperial College, de Londres. Estudou Engenharia de Sistemas Informáticos na Universidade do Minho, que lhe proporcionaram uma base sólida, em matemática, programação, resolução de problemas, desenho de sistemas, e trabalho de laboratório. Foi uma aprendizagem que lhe moldou a curiosidade e a perceção de “como é que a investigação pode contribuir não só para a resolução de problemas no mundo real, mas também para a inovação em tecnologias de criatividade e expressão artística”.
Depois da licenciatura, teve algumas bolsas de investigação da FCT (Fundação da Ciência e Tecnologia) e posteriormente transitou para a indústria, primeiro numa Spin-Off de investigação e depois no grupo de inovação da Primavera, uma empresa conhecida no software de gestão de negócio. Durante esse período de cerca de sete anos, enquanto estava a trabalhar a tempo inteiro fez um mestrado, em Sistemas Móveis, também na Universidade do Minho, e mais tarde um segundo mestrado, em Gestão de Indústrias Criativas na Universidade Católica, no Porto.
Especializou-se em inovação, tecnologias e modelos de negócio na indústria musical. Durante grande parte da sua vida e percurso académico, sempre teve uma atividade musical paralela, e fez a união formal das duas na Academia, o que lhe abriu portas para o Doutoramento e para oportunidades fora de Portugal, nomeadamente em Londres. Esteve na Goldsmiths, University of London, onde frequentou e fez o doutoramento em Ciências da Computação e a Inteligência Artificial. Tem vindo a trabalhar em projetos de investigação financiados pela Comissão Europeia, e Britânicos, de grande envergadura. Também trabalhou com consórcios de inovação e de transferência de tecnologia entre instituições de investigação e empresas, de Startups a Big Tech, também na área da tecnologia da música e da interação humano-computador.
É Doutorado em Ciências da Computação e desde então, tem vindo a trabalhar como investigador pós-doutorado em várias instituições académicas no Reino Unido, nomeadamente na Universidade de Sussex, em Brighton, no Sul de Inglaterra. Também ensinou na Universidade City St George, na University of Arts, em Londres, e na University College London, que é uma universidade muito conceituada.
Presentemente está na Imperial College, em Londres, uma das universidades mais prestigiadas do mundo. Tem trabalhado sempre em projetos visionários, que tem como objetivo a criação, design e a inovação mais disruptiva em tecnologias da música, onde se foca na relação entre sistemas interativos de áudio e música, e os utilizadores desses sistemas, que são músicos, ou pessoas que procuram a expressão musical e artística.
Ao longo do seu percurso, tem vindo a direcionar-se para áreas que pretende descobrir ou adquirir novas competências. Tenta envolver-se com comunidades e parceiros académicos onde pode partilhar esta paixão que tem pela criatividade, pela música, e pela inovação interdisciplinar, através de atividades de investigação, de ensino, de divulgação científica, e claro está, musicais.
O que significa tecnologia da música?
A tecnologia da música permite ou capacita a expressão musical e artística, por exemplo, instrumentos musicais, ferramentas de produção de áudio e performance musical, sintetizadores e
processadores de efeitos. Estas tecnologias são desenvolvidas e saem constantemente para o mercado. A última geração de tecnologia foca-se maioritariamente no digital. “Mas houve outros paradigmas passados que se focaram na parte analógica, em sistemas eletrónicos ou em sistemas acústicos, por exemplo. No meu trabalho, tentamos reconciliar as características únicas destes paradigmas distintos no design e inovação de topo”, salienta Francisco.
Porquê a Imperial College?
A Imperial College é uma das universidades mais conceituadas do mundo e muito prestigiada em Engenharia de Design. “A escola onde estou tem um grupo de investigação em Tecnologia de Música, liderado pelo Andrew McPherson.”
Aquilo que o convenceu ir para a Imperial, não foi só o prestígio, mas todo o ambiente de investigação. “É o conhecimento específico que tem vindo a ser desenvolvido no laboratório, a aplicação desse conhecimento em produtos reais. São as instalações e os recursos de investigação que a Imperial tem, que são muito bem qualificados, e as redes de contactos e de colaboração internacional do laboratório. E a possibilidade de colaborar em projetos que têm um impacto real na tecnologia da música.”
Qual o seu ponto de vista das universidades portuguesas? Preparam bem os alunos?
Do ponto de vista pessoal, Francisco considera que Portugal tem uma formação académica excelente e sólida, especialmente na parte da construção de conhecimento teórico e capacidade analítica. “As nossas universidades formam estudantes com muito talento e isso vê-se. São bem vistos e competem internacionalmente. As limitações que existem na Academia Portuguesa, não tem tanto a ver com a qualidade de formação, mas com os recursos que são limitados. Por exemplo, recursos de financiamento e infraestruturas de investigação. Se Portugal investir mais nessas áreas, penso que os estudantes serão cada vez mais competitivos globalmente,” acrescenta o investigador.
O que mudaria na área da educação em Portugal?
“Concentrar-me-ia em três áreas. A primeira: Incentivar a descoberta de interesses e projetos próprios pelos estudantes, orientando-os para a execução prática, como forma de motivar a autoeducação, a criatividade e o pensamento crítico independente. Uma forma realizar isto, é através de abordagens mais pragmáticas, mais experienciais, com ferramentas práticas. Dar simultaneamente mais liberdade criativa e responsabilidade aos alunos, o que aqui é bastante praticado.
Outro ponto seria: Expor os alunos de licenciatura e de mestrado mais cedo à vertente mais prática da investigação, dar oportunidade de ingressar em laboratórios e projetos industriais mais cedo, como é comum aqui, nos sistemas académicos anglófonos, onde há um grande interesse pelas aplicações práticas ao mundo real.
O terceiro ponto: Criar ligações mais próximas com parceiros académicos internacionais, e industriais, criar mais pontes, mais flexíveis entre universidades e empresas para que os alunos se possam expor às aplicações ao mundo real. Mas também para que se possam expor a formas diferentes de pensar, métodos de trabalho diferentes e novas culturas. Incentivar a mobilidade, a colaboração internacional, para que os alunos portugueses possam ir e trazer de fora ideias, redes de contactos.” explica Francisco.
Há lugar para a discriminação na investigação?
Segundo Francisco, Investigador Associado na Imperial College, nunca se sentiu discriminado negativamente, aliás, sempre se sentiu muito bem acolhido em Inglaterra, tanto em Londres como em Brighton, onde viveu cerca de dois anos.
“Os ambientes académicos são muito internacionais. Os colegas vêm de todo o mundo. A diversidade faz parte do quotidiano. Por vezes não é fácil adaptarmo-nos a culturas diferentes, simplesmente porque são diferentes,” exemplifica.
Nunca sofreu discriminação por ser português, pelo contrário, “as pessoas têm curiosidade pela cultura portuguesa, e manifestam-se muito positivamente quando ouvem falar de Portugal, das universidades e dos investigadores portugueses”.
O mesmo se passa na investigação, sempre se sentiu altamente respeitado. Muitos dos seus colegas no Reino Unido, conhecem universidades portuguesas pela formação sólida que dão em Matemática, Engenharia, Ciências da Saúde, Ciências Sociais e “eu acho que eles veem os portugueses como trabalhadores muito dedicados, muito adaptáveis, flexíveis e criativos. Especialmente quando trabalhamos com recursos limitados. A qualidade da nossa investigação fala por si. Mas nem sempre é promovida internacionalmente tanto quanto merece”, acentua Francisco.
Uma mensagem aos investigadores portugueses e se os seus planos de futuro passam por Portugal?
“A minha mensagem para as pessoas que estão em Portugal, especialmente aos estudantes que estão agora estão no decurso da sua formação académica é: se estás a pensar ir para fora de Portugal, procura e sê ousado. Porque vais-te surpreender como o quão bem preparado já estás.
E planos para o futuro, espero que nos próximos anos, venha a desenvolver projetos, criar colaborações, e a construir ligações com a investigação em Portugal, porque penso que é importante ligar o talento português à investigação internacional. Os portugueses, e os investigadores portugueses mais especificamente, podem competir em qualquer lugar do mundo, só precisamos de procurar e agarrar as oportunidades certas para demonstrar”, finaliza.



