Paula de Medeiros tem dupla nacionalidade, é Canadiana e Portuguesa, e nas suas palavras sente-se “completamente portuguesa”, mas tem algumas características que considera serem de influência canadiana. A saudade, quando somos emigrantes, “passamos” a viver num sentimento constantemente saudoso. É a eterna saudade que acaba porque nunca estamos a 100% bem num sítio. Quando está no Canadá, sente muitas saudades de Portugal, e o contrário também.
O motivo pela qual aceitou o convite para voltar a integrar a equipa da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, foi para se sentir mais próxima dos emigrantes e tentar com o conhecimento que tem adquirido, através do seu trabalho, principalmente, os sete anos como responsável pelos assuntos sociais no consulado de Portugal em Toronto. Facilita-lhe muito no dia a dia no seu trabalho, em poder dar ajuda a quem procura “os nossos serviços”, diz Paula de Medeiros. E também em termos de aconselhamento a quem de direito, sobre algumas medidas e estratégias públicas que devem ser adotadas.
Como é ser emigrante?
“Eu penso que ser emigrante dá-nos uma possibilidade de termos de comparação entre o nosso país e os outros, dá-nos uma visão de um mundo diferente daquele que nós temos, se permanecermos sempre no mesmo país, e não partilharmos e convivermos com pessoas de culturas, religiões e mentalidades diferentes de outros países.
A experiência com esses países faz com que aprenda com essas pessoas e tivesse a possibilidade de ver através de outras perspetivas, ter outras perceções da realidade e também de adaptar-se à diferença. “E isso faz do emigrante uma pessoa com competências em determinadas áreas e em termos de inteligência emocional, capaz de lidar com determinadas situações que muitas vezes nós, quando estamos na nossa zona de conforto, acabamos por não adquirir.” Evidencia.
São maneiras de estar a maneiras de viver, que requer certa resiliência, não é o estar afastado, quer daquilo que cortamos quer da nossa família, quer da nossa identidade e cultura. Faz com que tenhamos resistência a determinadas coisas, mas também obriga-nos a adaptar a outras pessoas também especiais, no sentido de serem mais sensíveis à diferença, serem mais sensíveis a outras a outros mundos, e aceitar as coisas com mais facilidade, “até porque somos expostos a mais desafios que normalmente, quando estamos no nosso país, não estamos expostos.” Observa Paula de Madeiros.
Fale-nos um pouco sobre o seu trabalho junto dos emigrantes? Quais são os temas mais sensíveis que têm que abordar nas mais variadas e diversificadas geografias?
“Há uma diversidade de assuntos”. Revela Paula de Medeiros, “nunca somos abordados apenas com uma outra questão, mas há muito a questão da informação, pedidos de informação sobre determinados procedimentos administrativos, sobre os apoios que existem para o movimento associativo entre Portugal e outros países. Mas as questões fiscais, os assuntos fiscais, acórdãos bilaterais com outros países é algo que também somos confrontados.” Refere a mesma.
Muitas questões relacionadas com deportações, quando se trata de alguns países que não da União Europeia, de países terceiros, e a questão do regresso a Portugal. Os portugueses cada vez mais começam a ponderar voltar ao país de origem, até porque Portugal dá-lhe outras condições e o custo de vida consegue ser mais baixo do que noutros países. O clima é muito agradável, faz ponderar e muitas vezes as pessoas questionam o regresso.
As queixas normais de atendimento nos consulados, e a demora no agendamento, mas reconhecem que tem sido feito um bom trabalho neste último ano, mas é normal que continue a persistir uma ou outra queixa”. Afirma.
Quais são os países que trabalham diretamente neste momento?
Segundo Paula de Medeiros, são todos, mas mais frequentemente com o Norte da América, Canadá, Estados Unidos, Argentina, Uruguai, e também o Brasil, Macau. São países que frequentemente a contactam quase diariamente. “Diria também que vamos começando a criar relações de proximidade com essas pessoas, que também é uma das nossas maneiras de trabalhar.
Visitamos comunidades próximas onde está o problema e que realmente precisam. Felizmente as tecnologias ajudam-nos a encurtar as distâncias geográficas e faz com que tenhamos mais proximidade com essas partes do Globo. E também tem algumas proximidades com a Europa, sou muito contactada com alguns grupos da Suíça, da Alemanha, da França, e o Luxemburgo. Alguns da Irlanda, mas em termos de escala não é a mesma que o ciclo fora da Europa, que penso que no fundo é um bocado normal, porque também fui candidata pelo ciclo fora da Europa duas vezes consecutivas. E também como sou canadiana, acaba por haver alguma afinidade com aquela parte do Globo, quer consciente, quer inconsciente”. Revela Paula
Tem noção, por que razão é que os portugueses não emigram tanto para os Estados Unidos como há uns anos atrás?
Pensa que estará relacionado com dois fatores mundiais, a questão da legalização, de conseguir regular, obter a legalização naquele país, não é fácil, mas também porque a integração na União Europeia facilitou a vida a quem quer emigrar. Há países na Europa com economias muito boas, como é o caso da Alemanha.
Curiosamente, os Portugueses continuam a procurar o Canadá. Que de estar relacionada com o facto de, durante muitos anos o Canadá em termos de organização, também ser um país que não é nada fácil, mas durante muitos anos a emigração para o Canadá na sua essência era de origem açoriana. Entretanto, o paradigma mudou e começamos a ter muitas pessoas de Portugal continental. Fez com que essa mudança se desse, e conseguiram prosperar. São pessoas reconhecidas localmente e mesmo pelo Governo canadiano.
Quem é da zona centro sabe que há 10/15 anos atrás, quando foi o grande boom das migrações, radicaram-se no Canadá e foram bem sucedidos. Têm lá amigos, familiares, é uma boa forma de começar a vida num sítio com pessoas conhecidas, pessoas têm as mesmas tradições.
A verdade é que o Canadá consegue perpetuar, em termos de cultura no tempo. É um país que defende uma política de integração multicultural em que as pessoas podem continuar a manter as suas tradições, e isso faz com que as pessoas não sintam a saudade de uma forma tão acentuada como noutros países, onde não podem continuar a ter os seus rituais.
E isso acaba por fazer do Canadá, um país também atrativo. Além disso, continuam a ter muito trabalho em áreas que continuam a precisar de muita mão de obra.
Como é que os canadianos vêm os portugueses, antes e o depois do 25 de abril?
Olham para os portugueses como pessoas trabalhadoras, que valorizam a questão do trabalho, que se empenham e se dedicam.
São pessoas muito ligadas à família, e ao estar na Comunidade, daí terem associações portuguesas em vários pontos do país.
De uma forma geral, a reputação dos portugueses no Canadá é muitíssimo positiva. No passado eram muito ligados à parte da construção civil, e limpezas. Gradualmente, a situação vai-se alterando, há muitos portugueses também na política e sua participação cívica tem vindo a crescer e temos que ser realistas, os canadianos já começam a olhar para os portugueses, sob um ponto de vista estratégico em termos políticos. Se conseguirem ser eleitos em determinadas áreas começam a ter consciência que é muito importante trabalhar a Comunidade portuguesa, que durante muitos anos foi “negligenciada” no que diz respeito às questões políticas.
O panorama mudou. Nas últimas eleições para Portugal, para os candidatos à Assembleia da República de Portugal, o Canadá foi um dos países que mais votou. Isso implica que também votem muito no país de acolhimento e que cada vez está mais interessados em participar politicamente, o que acaba por ser de muito bom agrado para as entidades canadianas.
Qual é a sua função e o que é que faz concretamente no terreno?
“A minha função no terreno, é auscultar as pessoas, detetar determinadas necessidades ou perceber quais são os objetivos daquelas pessoas: quais são as perspetivas de resolução de problemas e depois apresentá-las a quem está com a tutela das emigrações. Esse num panorama mais macro, num panorama mais micro. Muitas vezes sou contactada juntamente com os meus colegas diretamente com determinadas pessoas, com dúvidas e nós indicamos o canal certo para o esclarecimento daquele tipo de problema.
Imagine que me enviam uma situação ligada com o serviço tributário. Eu vou-lhe dar o contacto para o qual deverá entrar ou deverá contactar e obter a resposta em concreto, e o mais correta, e na eventualidade de não conseguir a resposta não conseguir acesso àquele serviço. Que nos deem feedack, para tentarmos perceber como é que podemos arranjar outros canais de comunicação entre os nossos emigrantes e Portugal.
Uma Mensagem também aos emigrantes portugueses espalhados pelo mundo inteiro e que concelhos dá?
A todos os emigrantes, “o meu bem-haja o meu agradecimento por levarem o nome de Portugal mais além, por terem uma conduta exemplar, que é sempre bem vista em todas as nações. O meu agradecimento por nunca se esquecerem de Portugal, da nossa pátria, estarem sempre disponíveis para Portugal e para os portugueses.
E o meu apelo é, se tiverem condições emocionais, entre outros familiares, para regressar a Portugal, façam porque nós precisamos dos nossos portugueses. Nós precisamos de continuar a ter a nossa demografia, em ação, precisa de ter um saldo positivo e os emigrantes são uma mais-valia porque têm uma série de competências adquiridas no estrangeiro que implementadas em Portugal, ainda vão contribuir mais para a nossa pátria, para o sucesso do nosso país.
Por isso, se pensarem em fazerem teletrabalho. E puderem fazê-lo remotamente, escolham Portugal para vir para cá uns tempos e quem sabe até mesmo ficarem cá. Portugal economicamente não é dos melhores países, mas tem uma série de benefícios para criar família, o clima a gastronomia, entre muitos outros fatores e pessoalmente a segurança. Continuamos a ser um dos países mais seguros. Penso que é uma mais-valia, quer para quem procurar Portugal.
Quer para quem tem descendência portuguesa, gostaria muito que os nossos emigrantes ponderassem regressar para a terra natal, quer seja para reformar, trabalhar ou fazer investimento.
O acesso aéreo é muito fácil trabalharmos cá e vivermos noutro país ou estamos noutro país e também trabalhamos em Portugal, já temos muitos casos desses.
Sim é um leque que eu penso que temos que continuar a abrir aos nossos portugueses, que não estão a residir em Portugal e que contem connosco para tentarmos minimizar alguma burocracia que possa existir, que muitas vezes existe, até por desconhecimento da nossa parte, quem cá está e às vezes até por não darmos informação concreta, não conseguimos transferir essa informação para a nossa diáspora, mas penso que com em contacto uns com os outros e com o trabalho, uma relação de proximidade será mais fácil colmatar qualquer problema e atrair os nossos portugueses para Portugal que bem precisamos deles.” Termina Paula de Medeiros num apelo longo e sentido aos emigrantes portugueses.




