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Domingo - 18 Janeiro 2026
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Exclusivo: Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa, “não basta ajudar, temos de integrar”

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O Jornal Comunidades Lusófonas esteve em entrevista com o Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa que já conta com 160 anos de atividade a dar apoio e suporte aos mais desfavorecidos. Têm uma atuação quer ao nível nacional e estrangeiro. A Cruz Vermelha Portuguesa extrapola a ajuda e o apoio, permite que haja integração dos mais carenciados. Para dar essas respostas conta com o apoio de instituições portuguesas e estrangeiras. Seguem as palavras do seu Presidente, António Saraiva.

Jornal Comunidades Lusófonas: Há quanto tempo é Presidente e o que faz concretamente o Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa?

António Saraiva: Sou o Presidente Nacional da Cruz Vermelha Portuguesa, assumiu funções a 23 de maio de 2023. Desde então, tem tido o privilégio e a responsabilidade de liderar uma organização com 160 anos de história, cuja missão humanitária permanece tão essencial hoje como no momento da sua fundação.

O exercício da Presidência é, antes de mais, um compromisso inabalável com a missão nobre e os Princípios Fundamentais que regem a nossa instituição — Humanidade, Imparcialidade, Neutralidade, Independência, Voluntariado, Unidade e Universalidade. São estes princípios que orientam todas as nossas decisões, programas e intervenções, garantindo que a Cruz Vermelha Portuguesa cumpre a sua missão de oferecer assistência vital com dignidade, empatia e respeito por todas as pessoas, em particular pelas mais vulneráveis.

Mas a missão não se esgota na ação imediata. Como Presidente sou também responsável por assegurar a sustentabilidade da organização, conciliando a ambição de crescimento com a necessidade de perenidade. Num contexto económico adverso, onde assistimos a um aumento muito significativo dos pedidos de apoio, a nossa capacidade de resposta é posta à prova. Esta pressão obriga-nos a adotar estratégias sustentáveis, tanto ao nível financeiro como operacional, que permitam mitigar dificuldades no curto prazo e, simultaneamente, promover uma recuperação económica mais inclusiva, resiliente e socialmente justa.

O papel da liderança é igualmente garantir uma governança robusta e participativa, articulando-se com todos os membros da Direção Nacional, estruturas locais, delegados regionais, departamentos técnicos e, de forma muito especial, com os voluntários – que constituem o coração pulsante da Cruz Vermelha Portuguesa. Com todos eles, estabelecemos e executamos a direção estratégica da organização, alinhando objetivos nacionais com realidades locais, respeitando as especificidades de cada território.

Outro pilar essencial da minha função é o da representação e advocacy. Cabe-me representar a Cruz Vermelha Portuguesa junto de outras organizações humanitárias, poderes públicos, entidades privadas, parceiros sociais e a sociedade civil, promovendo as nossas causas, estabelecendo alianças estratégicas e mobilizando os recursos necessários para aumentar o impacto das nossas ações.

A par disso, assumo como missão própria o dever de fomentar a educação para os princípios humanitários e de inspirar e motivar todos os que fazem parte da Cruz Vermelha Portuguesa – desde os voluntários até às equipas técnicas, desde os dirigentes locais até aos beneficiários. Uma liderança eficaz exige mais do que visão estratégica: exige também a promoção ativa da Unidade, um dos nossos Princípios Fundamentais, e que representa o garante do nosso futuro coletivo.

É neste espírito de missão que procuramos diariamente servir as comunidades onde estamos inseridos, antecipando riscos, mitigando vulnerabilidades e promovendo a autonomia e a dignidade das pessoas e famílias com quem trabalhamos. A dignidade não é um ideal abstrato – é uma condição concreta de vida, e tudo aquilo que fazemos tem como fim último capacitar as pessoas, dar-lhes meios para que reconstruam as suas vidas com liberdade, segurança e esperança.

A Cruz Vermelha Portuguesa é hoje uma organização moderna, preparada e atenta, mas a sua força reside nas suas pessoas. É por isso que, enquanto Presidente, dedico grande parte do meu tempo a ouvir, cuidar e valorizar quem cuida – porque os que trabalham diariamente nesta casa, em especial os voluntários, são o seu maior ativo e o seu verdadeiro motor de transformação social.

JCL: Como e quando surgiu a Cruz Vermelha Portuguesa, e qual era o seu âmbito inicial?

AS: A Cruz Vermelha Portuguesa nasceu a 11 de fevereiro de 1865, no seguimento da ratificação da Primeira Convenção de Genebra de 1864 por parte de Portugal. Fundada originalmente como a “Comissão Portuguesa de Socorros a Feridos e Doentes Militares em Tempo de Guerra”, a sua vocação inicial era clara: prestar ajuda médica e humanitária a militares feridos em contextos de conflito armado.

Desde o início, guiámo-nos pelos princípios da neutralidade e da imparcialidade, e evoluímos com o tempo para dar resposta aos desafios sociais, sanitários e humanitários emergentes – desde conflito armado à pandemia, da pobreza à exclusão social.

JCL: Em que áreas geográficas de Portugal trabalham mais, e porquê?

AS: A Cruz Vermelha Portuguesa atua de forma descentralizada, próxima e contínua em todo o território nacional, incluindo o continente e as Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores, através de uma rede capilar de 159 estruturas locais. Esta presença territorial abrangente permite-nos responder com eficácia e sensibilidade às necessidades específicas de cada comunidade, seja em contextos urbanos, periurbanos ou rurais.

Não concentramos a nossa ação em determinadas zonas do país. Pelo contrário: trabalhamos onde é necessário, em articulação com os parceiros locais, sempre com base num diagnóstico claro das vulnerabilidades existentes. O nosso modelo assenta na proximidade e na intervenção direta, o que garante respostas rápidas, ajustadas e humanamente significativas.

A nossa atuação organiza-se em quatro grandes áreas: Emergência, Formação, Saúde, Ação Social.

Esta última, é uma das áreas onde a Cruz Vermelha Portuguesa tem uma intervenção mais abrangente e transformadora. Atuamos diariamente junto de:

Pessoas e famílias em situação de vulnerabilidade socioeconómica, com apoio alimentar, habitacional, pagamento de despesas essenciais e reabilitação de competências;

Pessoas em situação de sem-abrigo, com programas de proximidade, acolhimento e reintegração;

Vítimas de violência doméstica, com resposta de transporte seguro, acolhimento e apoio psicossocial;

Migrantes e refugiados, promovendo não apenas o acolhimento, mas a integração, com formação, regularização documental, orientação jurídica e capacitação;

Idosos em situação de isolamento social, com ações regulares de acompanhamento, voluntariado e promoção de iniciativas de envelhecimento ativo;

Crianças e jovens, com programas de apoio escolar, atividades educativas e de lazer, e projetos de promoção de competências sociais.

A nossa atuação é, por isso, nacional no território e local na ação. Cada estrutura da Cruz Vermelha Portuguesa conhece o seu território, os seus desafios e os seus recursos. Essa capacidade de leitura territorial e de resposta de proximidade é um dos grandes pilares da nossa eficácia e da confiança que temos vindo a construir junto das comunidades.

Trabalhamos com e para as pessoas, e é em cada freguesia, concelho e ilha onde estamos presentes que concretizamos, todos os dias, a nossa missão com dignidade, humanidade e proximidade.

JCL: Têm sentido algumas dificuldades quando fazem trabalho no exterior, fora de Portugal, ou fazem apenas trabalho entre portas?

AS: A nossa missão é, em primeiro lugar, nacional. Todavia, enquanto Sociedade Nacional do Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, integramos uma rede global que atua em mais de 190 países. Através desta rede, participamos ativamente em projetos e respostas de emergência em colaboração com outras Sociedades Nacionais e com a da Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho e do Comité Internacional da Cruz Vermelha.

Não obstante, a nossa atuação fora de portas é sobretudo ao nível da cooperação, partilha de boas práticas e implementação de projetos internacionais. As dificuldades que surgem dizem respeito a questões logísticas e de alinhamento multilateral, mas a força da rede do Movimento Internacional permite-nos superá-las com eficácia.

JCL: Quais são os vossos maiores desafios diários, e como fazem para ultrapassá-los?

AS: Os desafios que enfrentamos diariamente na Cruz Vermelha Portuguesa são múltiplos e refletem, de forma muito clara, a complexidade do tempo em que vivemos. A procura de apoio tem vindo a crescer de forma exponencial, atingindo perfis cada vez mais diversos e exigentes. Hoje, são muitas as famílias que, mesmo com emprego, não conseguem garantir o essencial – desde a alimentação à habitação, passando pelo acesso à saúde.

Ao mesmo tempo, assistimos à fragilidade de muitos sistemas de proteção social, que, embora fundamentais, não conseguem dar resposta plena a todas as situações de vulnerabilidade. Esta realidade obriga-nos a estar permanentemente atentos, a intervir com agilidade e, sobretudo, a fazer mais com os mesmos – ou, muitas vezes, com menos.

Outro desafio estrutural prende-se com a necessidade de reforçar a nossa capacidade de angariação de recursos. Numa conjuntura económica adversa, a sustentabilidade financeira da Cruz Vermelha Portuguesa é uma prioridade crítica. Sem recursos adequados, não conseguimos manter os nossos serviços, responder a emergências ou inovar na resposta social.

E, claro, há um desafio que me é particularmente caro: a valorização e motivação dos nossos voluntários e profissionais. São eles que tornam possível esta missão – pessoas que, todos os dias, dedicam o seu tempo, energia e conhecimento ao serviço dos outros.

Como é que ultrapassamos tudo isto? Com estratégia, sim, mas sobretudo com pessoas comprometidas. Trabalhamos diariamente para diversificar as formas de financiamento – através de campanhas, parcerias, projetos – porque sabemos que depender de uma única fonte é arriscado. Apostamos muito na inovação, na digitalização dos processos, porque queremos ser mais ágeis, mais eficazes, mais próximos.

Investimos também na formação das nossas pessoas – porque ninguém nasce preparado para lidar com o sofrimento dos outros, é algo que se aprende, que se treina, que se humaniza. E trabalhamos em rede, com parceiros locais, autarquias, organizações, empresas.

No fundo, o que fazemos é agarrar cada desafio como uma oportunidade de fazer melhor. E mesmo quando o caminho é difícil – e muitas vezes é – continuamos. Porque temos um compromisso com a dignidade de quem apoiamos. E isso vale mais do que qualquer dificuldade.

JCL: Como ajudam os imigrantes e outras pessoas socialmente excluídas, especialmente nas grandes cidades, a terem uma vida mais digna?

AS: Antes de mais, deixo uma convicção pessoal que guia o trabalho da Cruz Vermelha Portuguesa: ajudar não é apenas acudir – é reconhecer a dignidade do outro. E esse princípio simples, mas profundamente transformador, está no centro de tudo o que fazemos, especialmente quando falamos de pessoas socialmente excluídas ou de migrantes que chegam ao nosso país com pouco mais do que a esperança de uma vida melhor.

Estamos presentes em 159 estruturas locais, espalhadas por todo o território continental e pelas Regiões Autónomas, o que nos permite ter um conhecimento próximo, direto e humano das realidades com que lidamos. Seja nos grandes centros urbanos como Lisboa, Porto, seja em freguesias isoladas do interior, ou em ilhas dos arquipélagos da Madeira e dos Açores, deparamo-nos todos os dias com situações de exclusão: pessoas em situação de sem-abrigo, famílias a viver abaixo do limiar da pobreza, migrantes e refugiados sem redes de apoio, idosos em solidão profunda, jovens sem acesso a oportunidades reais.

No caso específico dos migrantes e refugiados, o nosso trabalho parte de um princípio muito claro: acolher não chega – é preciso integrar. Acolher é um ato imediato de humanidade, mas a verdadeira missão começa no momento seguinte, quando procuramos que cada pessoa tenha os meios e o apoio necessário para reconstruir a sua vida com dignidade e autonomia.

A nossa intervenção assenta em três eixos fundamentais:

Apoiar com dignidade – Não basta dar. É preciso dar com respeito. Ajudar não pode ser um gesto unilateral; deve ser uma relação de confiança, onde cada pessoa sente que é ouvida, compreendida e tratada com a mesma dignidade que qualquer cidadão.

Integrar com responsabilidade – A integração exige tempo, planeamento e cooperação. Não acontece por acaso. Por isso, trabalhamos lado a lado com outras instituições, comunidades locais e, acima de tudo, com os próprios migrantes, construindo percursos personalizados, adaptados às suas necessidades, competências e aspirações.

Capacitar para a autonomia – O nosso maior objetivo é que quem hoje recorre à Cruz Vermelha possa, amanhã, caminhar com independência e segurança. Para isso, promovemos programas que transformam trajetórias de vida, como o Programa Mais Feliz, que atua em territórios vulneráveis promovendo a autonomia individual e familiar, ou os projetos de empregabilidade, empreendedorismo e voluntariado. Acreditamos que a capacitação em saúde, educação financeira e direitos sociais é um passo essencial para a emancipação de qualquer pessoa.

A nossa intervenção é sempre adaptada à realidade local. Uma estrutura da CVP numa vila no interior do país responde de forma distinta daquela que atua num bairro urbano densamente povoado. Essa é uma das nossas grandes forças: a proximidade territorial que permite respostas personalizadas, com base no conhecimento direto das pessoas e das comunidades.

Trabalhamos lado a lado com variadas entidades. Mas acima de tudo, trabalhamos com as próprias pessoas – ouvindo, envolvendo, respeitando.

Acreditamos que só através desta abordagem integrada, humanista e sustentável, poderemos romper ciclos de pobreza, exclusão e vulnerabilidade. E essa é a marca que procuramos deixar em cada território onde estamos presentes: uma marca de dignidade e de reconstrução do futuro.

JCL: Com que entidades trabalha a Cruz Vermelha Portuguesa, e que tipo de trabalho fazem em conjunto?

AS: A Cruz Vermelha Portuguesa desenvolve a sua ação em permanente articulação com um vasto conjunto de entidades, tanto a nível nacional como internacional, num modelo de cooperação que permite potenciar recursos, complementar competências e garantir uma resposta mais eficaz e célere às necessidades humanitárias emergentes.

A nível nacional, trabalhamos em estreita colaboração com:

AIMA – Agência para a Imigração e Mobilidade: na receção, transporte e acolhimento de pessoas refugiadas.

Serviços da Segurança Social (Linha 144): no âmbito das respostas de emergência social.

CIG – Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género: assegurando transportes especializados para vítimas de violência doméstica.

INEM e entidades da Proteção Civil: com quem atuamos como Agente do Sistema Nacional de Proteção Civil, em resposta a situações de emergência médica, catástrofes naturais ou crises humanitárias.

Autarquias locais: na implementação de respostas sociais descentralizadas e adaptadas à realidade dos territórios.

Universidades e Academias: no desenvolvimento de projetos de investigação, formação e inovação social.

A estas colaborações acresce a articulação regular com organizações do setor social e com empresas privadas, em campanhas de sensibilização pública, voluntariado corporativo e angariação de fundos, que são cruciais para a sustentabilidade das nossas ações.

No plano internacional, a Cruz Vermelha Portuguesa integra e atua no seio do Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, colaborando com:

A Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (IFRC);

O Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV);

Diversas Sociedades Nacionais parceiras;

Organismos da União Europeia, como a DG SANTE, a DG ECHO, a HADEA e o IFRC Regional Office, com os quais participamos em projetos de financiamento, resposta humanitária, resiliência comunitária e inovação no setor da saúde e emergência.

A participação da Cruz Vermelha Portuguesa em reuniões, fóruns técnicos e conferências internacionais permite-nos partilhar experiências, absorver boas práticas e contribuir para o desenvolvimento de normas e políticas que melhorem a eficácia global da resposta humanitária.

Fotos: Rui Elias

Lígia Mourão