Quando se fala em emigrar, logo nos vem ao pensamento melhores condições de vida, e mais dinheiro ao fim de cada mês. O El dorado francês já teve os seus dias, mas os portugueses que vão para lá neste momento, e que levam esta ideia no pensamento deparam-se com uma França diferente da de outrora. Estivemos em conversa com a Provedora da Santa Casa da Misericórdia de Paris, Ilda Nunes, que tem como missão ajudar a comunidade portuguesa em dificuldades em todo o território Gaulês. Encontra-se em Paris desde 2 de janeiro de 2010 e vai terminar o seu segundo mandato em 2026, contando com seis anos de presença na Misericórdia como Provedora.
A sua função leva-a a fazer um pouco de tudo, porque só têm uma pessoa assalariada e há sempre muito trabalho, há muitos voluntários mas não são suficientes ou estão disponíveis, Ilda também tem o seu tempo um pouco limitado, pois é professora. Mas tenta fazer o máximo contato possível com os oficiais, e administração. Vai com frequência visitar as pessoas ao domicílio. Fazem recolha de alimentos e “eu faço um pouco de tudo, claro que a minha função é tentar encontrar verbas, que são poucas”, revela Ilda Nunes.
Como fazem para angariar e ajudar quem mais precisa?
A Santa Casa da Misericórdia, está em Paris efetivamente, mas é uma instituição de origem portuguesa, até agora, as verbas, vêm de Portugal, da DGACP, que já há largos anos solicitam ajuda, mas nunca é suficiente.
Também solicitam ajuda a certas autarquias locais “e ajudamos muitos cidadãos.” Revela a mesma.
Teve uma reunião com os responsáveis, mas transmitiram que este ano não seria possível ajudar a Santa Casa, mas que compreendiam perfeitamente as necessidades da mesma e a importância do trabalho que tem desenvolvido junto das populações mais carenciadas, e que provavelmente no próximo ano o resultado será positivo.
Terão de fazer novamente o pedido, “mas as coisas funcionam desta forma”, diz a Provedora. Por outro lado, há empresários de origem portuguesa, que também ajudam, mas nem sempre isso acontece.
“Criamos um clube dos 25, são 25 empresas, por enquanto, ainda não chegamos às 25, mas já temos 9/10 empresas que responderam positivamente, e que estão disponíveis para ajudar, com uma quota específica.
Também há outras iniciativas como a angariação de fundos. “Temos duas ações durante o ano, que é a corrida solidária, que teve lugar este ano no mês de junho e no ano passado, também se realizou no mesmo mês. É um momento de lazer para portugueses, mas também há muitos franceses, e de outras origens que participaram nessa corrida, cujo objetivo é angariar fundos e na próxima semana, no dia 22 de novembro haverá um jantar de gala solidário com o mesmo objetivo.
Como deve imaginar, fica caro à Santa Casa, mas “sobram” sempre verbas. Vêm de Portugal, políticos, e outras figuras, cujo objetivo é o mesmo, angariar fundos.
Globalmente, “nós ajudamos cerca de 400 famílias. As famílias vão do agregado de uma pessoa até 7, 8, 9 pessoas, não temos o número exato. Mas no mínimo 400 famílias são ajudadas cada ano. Na sua maioria são portugueses, mas também há os lusófonos: Cabo Verdianos, Angolanos, etc. Mas o que os move não é a nacionalidade, mas sim as pessoas. “Quando alguém vem bater à porta, nós ajudamos.” Salienta. E o que as pessoas mais pedem mais são alimentos.
Inclusive, criaram uma delegação há pouco tempo, em Bordéus e estão a criar outra em Lyon, cujo objetivo, é também ajudar as pessoas com carências várias.
Quando enviam, um pacote para para essa região com alimentos fica mais caro o transporte, do que os alimentos. E a Provedora teve a iniciativa, em reuniões no Consulado Geral de Portugal em Bordéus e em Lyon, tentar que estruturas daquelas zonas possam ser parceiros da Santa Casa e que possam fazer esse trabalho de recolha de alimentos, de verbas, e que possam ajudar as pessoas nesses setores.
A delegação do Bordéus já está a funcionar. A Provedora esteve num jantar para angariar fundos, e estão previstos vários e não só bens alimentares, mas também ajuda noutras áreas como por exemplo, pedidos de reforma, que é um assunto muito complicado para alguns portugueses. E “vamos criar uma estrutura lá que possa fazer esse trabalho e dentro em breve, provavelmente em Janeiro, irei novamente lá para para avançar com a ideia.” Avança.
Uma mensagem aos emigrantes e/ou futuros emigrantes que pretendam ir para França para não cair nessas situações de exclusão social, e tenham que recorrer a pedidos de ajuda à Santa Casa da Misericórdia
“É difícil de transmitir uma mensagem a dizer não venham, porque quando as pessoas saem de Portugal é porque já não têm outra solução. Claro, que muitas pessoas pensam que vêm para França e que vão encontrar uma solução imediata, não é verdade.
A situação em França está cada vez mais complicada. E depois as pessoas encontram-se a viver na rua, sem alimentos, e do ponto de vista administrativo, é muito complicado mesmo Portugal que faz parte da União Europeia, é complicado arranjar uma solução imediata. Nós tentamos ajudar do ponto de vista de habitação, pagando por vezes hotel, a famílias que estão prestes a ser expulsas do alojamento.
Nós avançamos com a renda, e também temos todo aquele painel em que as mulheres vítimas de violência doméstica, casais com crianças, bebés sem alojamento estão na rua, alguns vivem em carros. Outros vivem num hotel. Mas quando já não têm dinheiro para pagar, saem ou então vêm pedir ajuda à Santa Casa da Misericórdia de Paris, que não tem verbas suficientes para responder a todos estes casos.
É muito complicado, muitas vezes são obrigados a regressar a Portugal, outras vezes tentamos ajudar também no regresso, com a compra de bilhetes de autocarro, mas não é uma solução. Sinceramente. Acho que as pessoas deviam refletir, por muito mal que estejam em Portugal, o facto de virem sem uma solução válida, arriscam-se a viver momentos muitíssimo complicados.” Termina a Provedora da Santa Casa da Misericórdia de Paris, Ilda Nunes.



